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Letra e (é) poesia

Assisti outro dia o documentário de Helena Soldberg Palavra (En)cantada, feito em 2009, e que trata da temática da letra de música. Ou, como diz a sinopse do filme do seu sítio, a relação entre poesia e música. O que gera uma questão antiga e nunca bem resolvida, e que o filme explora bem, da diferença entre letra de música e poesia. E também nos lembra da excelência que as letras de música alcançaram no Brasil, a ponto de alguns afirmarem que aqui a canção popular assumiu funções e referências que seriam originalmente da intelectualidade, da filosofia, com a vantagem de tornar acessíveis à população discussões e temas que de outra forma lhe estariam vedados, e isto sem perder necessariamente ar despretensioso que lhe é indispensável – pois senão não seria popular.

Daí, talvez, a confusão entre poesia e letra de canção por aqui ser ainda maior, inclusive porque muitos poetas fazem ou fizeram letras, a começar pelo decano deles, Vinícius de Moraes. José Miguel Wisnik comenta que Vinícius foi seguidamente decepcionando os que esperavam determinadas coisas dele. De diplomata, “caiu” a poeta. E de poeta “caiu” a letrista!  E de fato, a escrita de Vinícius é deliberadamente mais simples ao escrever canção. Mas afirmar que isto se deva a uma subestimação do público mais amplo que passou a ter pode ser uma afirmação apressada.

Um amigo meu, ao fazer a análise de Eu sei que vou te amar, disse que era a música mais neurótica que ele conhecia. E de fato, mais da  metade dos versos termina com a frase do título, numa repetição obsessiva que, em termos estritamente técnicos, não parece condizer com a capacidade do Vinícius. A não ser claro, que nos lembremos das rupturas modernistas e do poema de Drummond No meio do caminho, igualmente obsessivo. E somado ao fato de que Vinícius usa estas repetições para tirar partido da melodia, que repete a terminação de cinco notas em linha reta cada vez mais agudo, cada vez mais agudo…

Wisnik também lembra, na aula-show da Rádio Batuta de que já falei aqui, o fato de que a temática de Vinícius não muda tanto quanto se pensa, ao passar da poesia à letra. Vide a Balada das meninas de bicicleta:

Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul

ou A mulher que passa:

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

e, finalmente, a Garota de Ipanema:

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela a menina que vem e que passa,
Num doce balanço, a caminho do mar

E o que diferencia umas das outras? Ora, o fato de que, na terceira, o doce balanço não está apenas nas ancas da menina, mas também no violão, a graça não está apenas na menina, mas na melodia construída pela tríade de uma tonalidade e acompanhada por acordes de outra. Em suma, pela relação com a canção, que afirma paralelamente coisas que reforçam e completam a letra, que por sua vez foi construída para ser complementada, e não para existir sozinha.

Emblemático disto é a cena de Chico Buarque, no Palavra (Em)cantada, tentando recitar a letra de sua canção Uma Palavra e não conseguindo, passando a cantar enquanto explica que a repetição de palavra no fim de cada estrofe se deve à estrutura melódica. Ou cantando o Choro Bandido, dele e de Edu Lobo, e dizendo “o Edu vai me matar por cantar sem acompanhamento“. Ou seja, neste caso, cantar a melodia não basta, a letra precisa também da harmonia para fazer seu sentido completo.

Chico revela também que, quando musicou Morte e Vida Severina, o poema de João Cabral de Melo Neto, o poeta não sabia. Soube depois, quando a peça fez um enorme e inesperado sucesso e foi parar em Paris, e que mesmo depois, Chico não ficou convencido de que ele tivesse mesmo gostado, para além dos cumprimentos cavalheirescos que recebeu. Aliás, é notória a aversão de João Cabral por música, o que, numa poética em que o ritmo é elemento tão fundamental, é espantoso. Ou talvez ele não gostasse de música justamente por achar que a poesia iria se bastar. A este respeito, ou seja, dele e de João Donato, Caetano escreveu Outro Retrato:

Minha música vem da música da poesia de um poeta João que não gosta de música
Minha poesia vem da poesia da música de um João músico que não gosta de poesia

Antônio Cícero também revela no documentário  – e em seu magnífico blog em que trata de filosofia e poesia – que nunca pensara em escrever letras, até sua irmã Marina subtrair um poema seu e musicá-lo. Adriana Calcanhoto, em um show, contava sobre sua parceria com Cícero: ela só sabe musicar letras, e ele só sabe letrar músicas (ou seja, quando escreve sem música prévia, não é letra de música, é poesia). Para resolver este dilema, Adriana foi obrigada a escrever ela mesma uma letra, musicá-la, e depois jogá-la fora e mandar a melodia para Antônio Cícero letrar de novo! Foi assim que nasceram canções como esta, de métrica variada a cada verso (um verso branco de canção?):

Inverno – Adriana Calcanhoto e Antônio Cícero

Para fechar, dois exemplos de poesia musicada, em processos muito diferentes. Fagner fez canções com vários poemas de Cecília Meireles, começando por Canteiros.

Só que, na verdade, este não se trata de um poema musicado. Fagner usou apenas a quinta estrofe do poema Marcha, de Cecília, para fazer apenas a primeira estrofe da canção – e mesmo assim com diversas mudanças de palavras, e sem dar o crédito. Isto acabou num imbróglio judicial que durou de 1973, quando o primeiro álbum de Fagner foi lançado, até 1999, quando finalmente ele teve autorização para regravar a canção, num álbum ao vivo. A história completa do processo pode ser lida aqui no sítio do cantor, num texto bastante isento.

Já Dorival Caymmi pegou pela mão Manuel Bandeira. Há uma gravação belíssima do filho Dori com Olivia Hime, num álbum só de poesia do Bandeira musicada. Cabotinamente, trago uma gravação feita por um grupo que integrei, juntamente com Emília Cassiano e Wladimir Pinheiro.

Balada do Rei das Sereias – com Ábaco

Caymmi respeita e sublinha cada sílaba do poema original, incluindo as conjugações verbais eruditas, e faz uma melodia bem ao seu feitio: simplíssima e cheia de sutilezas, como a variação entre tom maior e menor pontuando a passagem da voz masculina para feminina, do rei para as sereias.

São dois exemplos opostos de uso da poesia como letra de canção. Mas não necessariamente com resultados opostos. Duas grandes canções saíram desta relação. Poderia ser diferente, porque uma boa poesia não é uma boa letra, e vice-versa. Mas letra é poesia, segundo o letrista Carlos Rennó. E Chico Buarque não é poeta, segundo o próprio. E mais conclusões deixo para vocês.

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13 comentários em “Letra e (é) poesia

  1. ”Lindas todas essas musicas e poesias, mas eu gostaria de receber em meu e-mail um musica muito
    linda com o nome de “Poema” eu não lembro o autor e nem quem canta!’

  2. Na minha opinião, tanto no poema quanto nas letras temos um cânone estudado pelos críticos e apreciado pelo público. Nesses textos poéticos existe uma vertente popular e uma vertente erudita . Nas duas formas de
    expressão há obras antológicas em letras e poemas. Se no Brasil ou até no mundo os poetas forem mesmo melhores que os letristas o que importa é saber que no âmbito das
    letras de música a plena expressão poética foi possível tanto quanto nos poemas.

    • Carlos, sem dúvida há uma vertente mais popular e outra mais erudita. Minha dúvida é se elas correspondem a letra de canção e poesia, respectivamente, ou se podem se misturar. o Vinícius traçou uma linha entre elas com muito sucesso, e acabou se tornando paradigma na questão. Mas isto está mudando. Foi um pouco disso que eu quis tratar. Abraços.

  3. aaaaa puxa saco uuuuuuuuuuuu

  4. Nem acredito que encontrei, sem querer, o blog do Túlio Villaça que fez parte do grupo Ábaco… depois de ver o vídeo da Balada do Rei das Sereias no youtube, venho procurando loucamente por outros trabalhos do grupo mas nada e agora, olha eu aqui! Vocês gravaram mais alguma coisa? Fiquei completamente encantada pela versão e gostaria muito de ouvir mais. Belíssimo trabalho!

    • Olá, Vanessa. Fico mesmo feliz de ver que o trabalho que a gente fez ficou na lembrança de alguém, eu gostava muito do grupo. Nós chegamos a gravar um CD independente com músicas nossas e outras, a Balada aí acima é uma delas. O CD não esté disponível no mundo digital, mas se você se interessa, entra em contato, que eu envio uma cópia para você. Abração.

  5. REZAS A TI

    Dito de ti, tudo é tão verdade
    Porque sabes falar no que creio
    E na franqueza do que me apareces
    Tem o teu amor, com que me conflitastes.

    Ver por ti é mais seguro dizer
    Sentir por ti é mais fácil distinguir o lugar doído.
    Visto de ti, há o amor que eu quero beber
    Inebriados tragos de água, de ingênua nascente.

    Entendestes-me uma vez, e para sempre vou dizer-te
    Precipitado dos tabloides que enfatizam o meu nome
    Mas abaixo que tu, não doce, não desejável, comer.
    Assim, quando te abrigo nos meus olhos
    A verdade cala, e sobre a tua fala
    Aconchegas tudo o que me dizes
    E dito por ti, tudo eu creio existir.
    Porque não estavas a iludir-m,e dizendo
    Embustes para ver-te, como és,
    A mirra, e o ouro, incensando a vida inteira.

    Terei dito tudo de ti, só pela verdade
    Ou excessivo no tamanho do amor que te gosto?
    Aprendi contigo, e assim tu me redimes
    De confessar a outros, o que ouvi, e vi de ti.

    naenorocha*

  6. TE AMO

    Não te amo como se fosses a flor tênue e pensa
    Ou o chegar de um dia de cores frias
    Te amo na forma inominada, entre tu e eu
    Sem que se perceba, os alheios corações.

    Te amo na transformação da ausência
    Em espaços cheios de pura esperança
    Na dependência alucinada do coração
    Que te amo a qualquer outro, sem que dissesse.

    Te amo sem saber o tanto, o valor e a espera
    Pois todo tempo teve este jeito assim
    De esperança, sabendo que vinhas, enfim
    Te amo porque de muita espera fostes.

    Desta certeza, eu te amo, e vivi por ela tempos em fila
    Todas as madrugadas, a cabeça ainda acordada
    Falavas-me de um quieto jeito de se perder na ilha
    E desta forma te amei, o tempo todo desacionado.

    Te amo porque és contra que o mundo acabe
    E consolas seja, como eu, outro desesperado
    Te amo querendo, como muitos que comeram o favo
    Te amo, no tempo certo, no tanto que aprendi esperar.

    naenorocha

  7. Já é permitido a gravação de canções com poemas de Cecília Meireles?

    • Na verdade nunca foi proibido, Naeno. O problema é que o Fagner mudou os versos e não creditou… Mais tarde ele mesmo musicou outros poemas da Cecília, com ótimos resultados. Vai um exemplo:

      Abraços.

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