Carnaval ou O Ritmo Dissoluto

Este é um artigo que escrevi em 2008 para uma revista sobre arte e educação. Por motivos que não vem ao caso (até porque nunca os entendi perfeitamente), acabou excluído. Algum tempo depois, publiquei-o no blog da revista Arte Institucional nº5. Trago-o de volta não apenas para resgatá-lo – o que farei com os demais artigos que a revista publicou – mas também porque acho que ele funciona bem como, digamos, um embasamento teórico para o blog, dá uma situada. Não tem links, já que foi feito para uma revista de papel, o que não será o padrão do blog – afinal, falar de música sem ouvir não tem muita graça. Enfim, chega de enrolação. Ei-lo.

Rock, samba, reaggae, blues, baião, salsa, jazz, lambada, funk, tango, hip-hop, choro, drum’n bass. Todos estes estilos musicais, assim como a imensa maioria do que se estabeleceu como música popular, tem uma origem comum: África. E todos têm uma característica fundamental que os diferencia e identifica entre si: mais do que o ritmo, a visão de tempo.
Corte abrupto para um mito da Grécia antiga: a deusa Palas Atena toca o aulus, que era a flauta do deus Dionísio, diante de um lago. Ao se ver refletida tocando, percebe que sua bela face torna-se desfigurada pelo sopro: bochechas inchadas, olhos arregalados. Tomada de horror, atira fora o instrumento.
Esta curta metáfora ilustra um rompimento histórico, o momento em que se inicia a existência de uma música européia, ocidental, que um dia se espalhará pelo mundo acompanhando a expansão colonizatória. É a divisão entre a música apolínea e a dionisíaca; entre princípio de realidade e o princípio do prazer; entre a progressão ao futuro e o mito do passado; entre o Fim dos Tempos cristão e o Eterno Retorno.
A Europa medieval, com os pés fincados na visão filosófica grega, idealiza, a partir da recitação das Escrituras e dos Cantos Gregorianos, uma música com início, desenvolvimento e fim, tensão e resolução, e delimitada por uma rígida contagem de pulsos. Esta música conta uma história. É a visão apolínea que toma a frente, buscando reproduzir a harmonia universal da Criação Divina, e com a correspondência religiosa do Apocalipse: uma História Humana com um percurso, um sentido e um final.
Porém, a visão de tempo que é deixada para trás por esta mudança de rumo sobrevive em inúmeras culturas: não apenas os ritmos oriundos das variadas culturas africanas, mas a música da América indígena, do Oriente Médio, da Índia, de Bali, da China, carregam sob suas sonoridades diversificadas um substrato em comum, que as afasta decisivamente da tradição da música ocidental.
Para a mitologia grega, Apolo era o Deus de uma beleza ligada ao contemplativo. Seu instrumento era a lira, que acompanhava o canto ou a fala, e não dispendia maior esforço para ser tocada. Dionísio, ao contrário, era ligado às festividades – em Roma será chamado Baco, e em sua honra acontecerão os bacanais – e, mais tarde, inspirará o surgimento do teatro e do carnaval.
A primeira audição da música característica de uma das regiões tropicais citadas pode ser enganadora. Ouvidos ocidentais, podem considerar a música indiana, por exemplo, repetitiva e estática. Porém, em sua base existe uma pulsação girando em torno de determinados centros de referência, e a partir deles gerando variações sutis e quase infinitas. É comum um instrumento emitir uma única nota, chamada pedal, durante todo o tempo de execução, que pode durar horas. Os demais instrumentos realizam variações improvisativas que partem desta nota e a ela retornam. A pulsação da música não varia, mas sobre ela realiza-se um complexo jogo de tempos e contratempos, em estruturas intrincadas. Do estático chega-se ao extático, e, não por acaso, em muitas tradições orientais, africanas e sul-americanas, a música leva ao transe religioso.
Nesta tradição, a música não se pauta por um tempo limitado em compassos. Aqui não se conta uma história. A trajetória melódica se desenvolve de maneira constante, mas nunca repetitiva, e por isso não se presta ao registro escrito. A mesma idéia é reafirmada initerruptamente colocando o homem em contato mais profundo com sua ancestralidade. No momento de sua execução, o passado se torna presente.
A música popular contemporânea surge do amálgama deste formato com o modelo ocidental. Isso ocorre tanto através da absorção das tradições ocidentais pelo Oriente, como pela diáspora negra na América.
No Brasil, a criação do samba se dá pela mistura pouco provável da polca, ritmo europeu de cadência marcada, e do lundu, ritmo quebrado, de inspiração africana. De um lado, a quadratura métrica européia com tempo forte e tempo fraco; de outro, a rítmica irregular africana e indígena. Alguém tinha que ceder.
E justamente por sua formatação ambígua, não hierárquica, quem cede é a segunda. Mas cede sem perder. Do mesmo modo como a mitologia cristã é sincretizada com os orixás, a divisão rígida recebe em si a irregularidade. E surge a síncopa, figura rítmica característica do maxixe e depois do samba, que transforma a rígida divisão binária do batalhão marchando no desfile da escola de samba.
Assim, o trópico subverte a cultura trazida pelo colonizador, infiltrando nela a semente da desordem e instaurando uma nova relação interna de poder, de dentro do compasso para a sociedade. O reflexo desta miscigenação está no repentista nordestino, e também em Jorge Benjor, nas frases que extrapolam o compasso: “Esta é a razão da simpatia, do poder, do algo mais e da alegria” – não por acaso trecho da canção “País Tropical”.
Esta nova trajetória da música mundial é inevitável, pois, se a estrutura músical européia pretende ter início, meio e fim, seu caminho, necessariamente, também tem um fim. Na virada do século XX acontece com o colapso do sistema idealizado a partir da Idade Média. A arte ocidental é marcada pela incessante iniciativa de auto-superação. No campo da música, chega-se a um ponto acumulativo tal que gera uma total ruptura com todas as regras formais da música ocidental. E dentre os escombros das experiências de uma música sem tom, sem repetição, sem repouso e sem centro, as tradições deixadas para trás pelos Cantos Gregorianos servem como fonte de inspiração rediviva: o retorno do recalcado tem lugar.
Isto se faz sentir nos novos caminhos da música popular. No minimalismo da música eletrônica, repleta de colagens sonoras, sem começo nem fim determinados; na música pop planetária, de padrão industrial e sabores locais; no funk carioca e sua melodia de notas para além das doze da escala formal ocidental, como um canto árabe; nestas sonoridades “pós-apocalípticas” escutamos os ecos da música fundamental assumindo novamente suas primevas funções: a dança e o êxtase.

P.S.
O título desde artigo, emprestado de dois livros do poeta Manuel Bandeira, não é acidental. Bandeira foi um dos maiores representantes do Movimento Modernista brasileiro, que tinha na estética da antropofagia uma de suas bandeiras. E o Modernismo foi, por sua vez, uma das referências do Tropicalismo, anos mais tarde. Além disso, Bandeira foi um dos precursores do uso do verso livre em poesia no Brasil. Mais uma vez o ritmo marcado da cultura européia é contagiado / contaminado pela irregularidade da fala. Mais uma subversão tipicamente tropical.

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3 comentários em “Carnaval ou O Ritmo Dissoluto

  1. Parabéns pelo novo projeto, Túlio. Que você alcance o sucesso que deseja e merece, e continuenos brindando com suas elocubrações.
    Fiquei com uma dúvida: quando fizer alguma citação musical importante, vais colocar links? Seria legal, principalmente se pudermos ouvir a referência daquilo de que você “fala”.

    Grande abraço!

    P.S.: Vou lincá-lo no meu blog, ok?

  2. tuliovillaca disse:

    Fala, Edu. A idéia é sempre colocar os links, senão não tem graça ficar elucubrando sobre música sem poder ouvir. Este primeiro post não tem apenas porque o artigo original era para uma revista de papel. O próximo já vem no formato multimídia. Abração.

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