A Perfeição Equilibrista

Escrevi este artigo para a revista digital Arte Institucional nº5 em janeiro deste ano. Trago-o para cá não apenas para tê-lo arquivado num lugar, digamos, meu, mas para que quem não soube dele na época tenha acesso. Mais adiante trarei os seguintes.

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Passei anos procurando inutilmente a citação de “O Bêbado e a Equilibrista” em “Perfeição”. O encarte do álbum “Descobrimento do Brasil”, da Legião Urbana, é que trazia a informação da citação. Conheço o samba de João Bosco e Aldir Blanc do avesso desde que me conheço por gente, e virei também do avesso a composição de Renato Russo, sem nunca descobrir o menor indício.

Até que um dia, ao ouvir a música da Legião, tive o insigth repentino que valeu por uma epifania: a citação não estava na letra, onde eu a vasculhara em vão, mas na melodia! A linha dos últimos versos de “Perfeição”, os únicos que são cantados e não recitados raivosamente: “Venha, / meu coração está com pressa / quando a esperança está dispersa” retomava, mutatis mutandi, a que embala os versos iniciais da outra: “Caia / A tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto”.

Sempre me perguntei também o motivo de uma citação com esta. É sabido que Renato sempre gostou de enfiar, às vezes à força, canções dentro da harmonia de outras, especialmente em shows, o que fazia “Ainda é cedo” virar um pout-pourri quase infinito às vezes. Mas outra coisa é colocar a citação na própria estrutura da música, como neste caso. Não se trata de improviso, é caso pensado. Passo a fazer um paralelo entre as duas composições.

Dez anos as separam. “O Bêbado e a Equilibrista” foi gravada primeiro no LP “Linha de passe” de João Bosco em 1979, no formato tradicional para que foi criada, o de samba-enredo. Mas logo depois Elis Regina se apropriou dela, no que o próprio João Bosco classifica como co-autoria, e, com o arranjo sublime do marido César Camargo Mariano, transformou o samba num hino. A canção, com sua referência velada a Herbert de Souza, o Betinho “irmão do Henfil” exilado pela ditadura militar, tornou-se o símbolo da Anistia e da esperança de tempos melhores para o país.

“Perfeição” é de 1989. Quando a primeira música foi lançada, passavam-se 10 anos do auge do movimento punk, com sua palavra de ordem “No future”. Renato e o Aborto Elétrico, seu grupo na época, beberam nesta fonte, numa Brasília de puro desencanto. Em “Perfeição” há ecos claros do punk nas guitarras distorcidas e na ironia avassaladora da letra: “Vamos celebrar a estupidez humana, / a estupidez de todas as nações / O meu país e sua corja de assassinos / covardes, estupradores e ladrões”.

Em 1989, para quem veio de Brasília e conhecia algo do poder, não havia muito o que comemorar. Pouco depois do lançamento do álbum, Fernando Collor de Mello venceu a eleição presidencial. Milton Nascimento, no álbum Yauretê, de 1987, compôs com Fernando Brant a “Carta à República”, espécie de resposta a “Coração de Estudante”, que também se tornara hino, só que da redemocratização: “Sim, é verdade, a vida é mais livre / (…) / mas a mentira voltou. / Ou será mesmo que não nos deixara?” E perguntava: “O que fizeram da nossa fé?” A esperança anunciada por Elis agora era “um sorvete em pleno sol”.

Para onde ir neste cenário? Renato Russo não tinha interesse, apesar de tudo, de passar mensagens de desepero, contra o qual lutava entre crises de depressão e problemas com drogas. “Já tentei muita coisa / de heroína a Jesus”, dissera ele em “L’age d’or”. E compusera uma canção baseada nos princípios budistas, “Quando o sol bater na janela do seu quarto”. Ele sempre tentara rechaçar inutilmente a imagem de líder da juventude, mas grande parte desta liderança provém exatamente das letras que, de certa forma apontam caminhos. E desta vez ele busca o caminho na retomada de uma esperança antiga, que se perdia. Basta confrontar os finais das canções citadas:

“A esperança dança / na corda bamba de sombrinha / e em cada passo dessa linha / pode se machucar. / Azar, / a esperança equilibrista / sabe que o show de todo artista / tem que continuar.”

E Milton Nascimento, na “Carta à República”, parece dar o tom e a deixa para Renato Russo cantar suas críticas terríveis:

“Foi por ter posto a mão no futuro / que no presente preciso ser duro / e eu não posso me acomodar / Quero um país melhor!”

E Renato reune os cacos de um país onde “tudo parece que é ainda construção / e já é ruína” (“Fora de Ordem”, Caetano Veloso), os cacos de esperança da chamada década perdida, e com eles reconstrói improvavelmente a fé no futuro no fim de sua letra demolidora, com a citação melódica que deu início a este artigo assegurando que não há outra saída senão tentar de novo e de novo:

“Venha! / Meu coração está com pressa. / Quando a esperança está dispersa / só a verdade me liberta, / chega de maldade e ilusão. / Venha! / O amor tem sempre a porta aberta / e vem chegando a primavera, / nosso futuro recomeça / Venha que o que vem é Perfeição.”

O Bêbado e a Equilibrista

Carta à República

Perfeição

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11 comentários em “A Perfeição Equilibrista

  1. Só você mesmo,pra perceber estes inter-textos e a metalinguagem que há em certas músicas.gostei muito.

  2. As boas obras de arte sempre dialogam entre si, isso é o que mais as enriquece talvez. Obrigado pelo elogio, abraço.

  3. Anaranto disse:

    O texto revela muito desconhecimento sobre a música. Na época do lançamento do disco O Descobrimento do Brasil o movimento punk estava bem longe do auge. A letra revoltada de Perfeição foi uma tentativa de recuperar a popularidade legionária dos Tempos punk da banda, passados a uns bons anos.

  4. Anaranto disse:

    A citação “Já tentei muitas coisas de heroína a Jesus” é da musica L AGE DOR, NÃO de A Montanha Mágica

  5. Anaranto disse:

    Mas, num arroubo de humildade, deixo-me dizer que não tinha percebido a semelhança melódica

    • Anaranto, obrigado pela leitura atenta. Corrigi os lapsos: a expressão “10 anos depois” sumiu na transcrição da revista pra cá e nunca tinha notado, e o título da música estava trocado, uma desatenção. Quanto à citação que é o tema do texto, imito sua humildade ficando feliz em ser útil. Saudações.

  6. Ricardo disse:

    Túlio, muito perspicaz de sua parte em identificar a semelhança entre as melodias. Apesar de eu ser de uma época posterior, conheço muito bem as duas músicas mas não havia me atentado à este detalhe. E o texto é maravilhoso. Meus parabéns, meu amigo.

  7. Clécio Aguiar disse:

    O disco descobrimento do Brasil, é do ano de 1993 e estourou em 1994. E a música Perfeiçao está nesse álbum. Não em 1989 , que a Legiao estava estourada com os sucessos de pais e filhos , há tempos, e etc ,
    do disco As quatro estações.

  8. Sempre que eu ouvia essa parte da música, na minha juventude, me reportava outra, mas não sabia qual. Agora eu o sei. É interessante a figura do “religioso” nas músicas de Renato Russo. Você já escreveu sobre isso? Merece uma pesquisa. Apesar do tom budista de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, porventura não vemos aí um passo do Evangelho, quando ele diz que “o caminho é um só”, uma alusão a Jesus in João 14.6: Eu sou o caminho…”?

    Marcelo Henrique
    João Pessoa-PB

  9. Paulo Victor disse:

    Sempre procurei a citação na música, até pensei que pudesse ser alguma sequência de acordes, mas nunca encontrei nada. Muito bom saber onde está a citação, pois ouvindo ela agora me veio novamente a dúvida, até que eu tive a grande ideia de perguntar ao Google.
    Muito bom.

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