Funk, Freud, feitiço, as Foguentas e as fogueiras da Santa Inquisição

Conforme prometi, trago para o blog o segundo artigo que escrevi para a revista virtual Arte Institucional nº5. Ei-lo.

Outro dia desses estava descendo a rua para ir à padaria, quando ouvi uma música saindo de uma casa onde acontecia uma festa. A música dizia:

Se o mágico faz mágica a feiticeira faz feitiço
Que que isso,
Que que isso,
Ô feiticeira o que tem pra me dizer ?
– Vou fazer teu boneco desaparecer
Mas na mágica que eu faço olha o meu boneco cresce
Mas na mágica que eu faço olha o meu boneco cresce
– O feitiço que eu faço boneco desaparece
Que que isso feiticeira é magia ou é vodu?
– Vai fica enfeitiçado quando eu empinar o bumbum

Não preciso dizer que se tratava de um digno representante do assim chamado funk carioca. Minha primeira reação foi simplesmente achar graça. Porém, a cada vez que a ouvia novamente – pois é claro que eu parei para ouvir – mais eu gostava da música, e mais me lembrava do Tom Zé.

Tom Zé é um gênio da raça. Dito isto, voltemos ao assunto. Nos últimos tempos, ele voltou a atenção para o que chamou de “metarrefrão microtonal e polissemiótico” do funk “Atoladinha”, de Mc Bola de Fogo e as Foguentas. Sua participação no talkshow do Jô Soares reverberou no meio musical pela análise da melodia ascendente por quartos de tom, mas levantou mesmo a platéia pelo elogio da afirmação feminina pela sexualidade, ao identificar neste refrão uma reação feminina à castração judaico-cristã que proíbe a mulher de gozar.

Então chegamos ao funk que ouvi no caminho da padaria. Na sequencia do título deste artigo a próxima parada é Freud, com o mote dado por Tom Zé. A teoria psicanalítica clássica afirma que “a descoberta das diferenças anatômicas entre os sexos (presença ou ausência de pênis) motiva a inveja do pênis nas meninas e a angústia de castração nos meninos, pois o complexo de castração centraliza-se na fantasia de que o pênis da menina foi cortado”. O período do desenvolvimento em que isto se dá é chamado de fase fálica, aproximadamente entre os 2 e os 5 anos.

Voltemos ao funk em questão. A simbologia fálica é óbvia, mas há algo importante a ser acrescentado: o fato de a mulher estar no comando, ao fazer o “boneco desaparecer”. Ora, naverdade ela se apropria do pênis. Agora é ela que tem o poder.

Tudo isto poderia servir de argumento (e eventualmente é mesmo usado como) aos críticos do funk. Afinal, a análise está partindo de uma fase sexual da primeira infância… Acontece que a fase fálica é muito próxima, em termos psíquicos, da fase genital, atingida na puberdade. “O desejo de ter um pênis e a aparente descoberta de que lhe falta ‘algo’ constituem um momento crítico no desenvolvimento feminino. Segundo Freud: ‘A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina’”.

É quando chegamos em nossa próxima parada: o feitiço. Se a primeira coisa que este funk me lembrou foi Tom Zé, a segunda foram as bruxas da Idade Média. Explico: entre as inúmeras crenças nos poderes das feiticeiras na época, estava a de que elas tinham a vagina dentada! Ou seja, teriam a capacidade de decepar o pênis dos homens no ato sexual.

Além disso, as bruxas eram comumente associadas a Lilith, que na mitologia católica medieval era considerada a primeira mulher de Adão. Ela teria sido criada junto com ele (ou seja, em pé de igualdade), no sexto dia da Criação divina, mas teria se recusado a se submeter a Adão permitindo que ele ficasse por cima no ato sexual. Então, Lilith teria deixado Adão e o Paraíso e se unido a Lúcifer, e Deus então teria criado Eva da costela de Adão. As feiticeiras seriam filhas não de Eva, mas de Lilith.

Por último, notemos uma sutileza insuspeita na letra: a diferenciação entre a mágica e o feitiço. O funk “Que que isso” é apresentado pelo Mc Mágico e por Suzi Feiticeira. A mágica realizada pelo homem é caracterizada como um truque. Já o feitiço dela é real. A mágica dele tem efeito apenas sobre ele mesmo. O feitiço dela tem efeito sobre ele.

Na entrevista ao Jô Soares, Tom Zé fornece uma estatística quase incrível: 68% das estudantes da USP, meca da civilização, nunca teriam tido um orgasmo. A reação de Jô dá a deixa para a relação sexo/religião: “Nem na USP! Na PUC, então, nem pensar!” A proibição do gozo feminino e a fixação de seu papel submisso tiveram na Santa Inquisição (última parada do título do artigo) um ponto culminante. Uma mulher se recusando a este papel foi passível de pena de morte. Tom Zé denuncia esta proibição até os dias atuais, tabu quebrado pela funkeira Tati Quebra-Barraco, e por Mc Bola de Fogo e as Foguentas em “Atoladinha”. “Que que isso” decifra e traça sinteticamente o roteiro da mulher se apropriando da própria sexualidade, amadurecendo simbolicamente da fase fálica/infantil para a genital/adulta, conquistando sua igualdade com o homem negada desde o Velho Testamento, se apropriando do pênis e chegando junto. Juntinho.

(Meus agradecimentos a Paula Ceci, pela revisão dos conceitos psicanalíticos, e Vani Ribeiro, pelo link do Tom Zé no Jô.)

As citações de Psicanálise foram retiradas de Psiquiatria Geral.

Tom Zé no Jô:

http://www.youtube.com/watch?v=hubD31XaHqU
Atoladinha (erradamente creditada a Tati Quebra Barraco e Mc Sandrinho):
http://www.youtube.com/watch?v=Nk6r9EmePxs
Que que isso:

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6 comentários em “Funk, Freud, feitiço, as Foguentas e as fogueiras da Santa Inquisição

  1. Eduardo disse:

    Nossa! A análise foi profunda. Eu não conseguiria ir tão fundo, principalmente por não ter boa vontade para escutar estes funks. O ritmo não me agrada aos ouvidos, e as vozes e as letras, menos ainda. Preconceito? Um pouco, talvez, mas se tenho opção, prefiro ouvir outras coisas, em volume mais baixo.
    No entanto, gostei desse cruzamento (ops!) “psicossexual” que você e Tom Zé fizeram.

    Há uns dois anos, numa festa família, aniversário de uma amiga, uma das convidadas deu uma “canja” cantando duas canções, surpreendendo a todos – inclusive a anfitriã – que até então dançavam ao som de uma micro-orquestra. Ela era uma famosa cantora de funk (havia feito shows na Europa recentemente, onde conhecera minha amiga), que antes de “entoar” suas “melodias” recheadas de “palavrões”, pediu simplesmente para que as crianças presentes tapassem os ouvidos. Foi de engraçado a constrangedor em questão de segundos; por sorte da maioria dos convidados, durou pouco. Nem por um instante pensei em Freud mas, agora, imagino que ele esteve presente…

  2. tuliovillaca disse:

    Edu, olhe, se eu estivesse na festa com minha filha eu não ia gostar nem um pouco, acredite. Não sou ouvinte assíduo de funk – aliás, os que citei são até velhos. Só acho que não dá para ignorá-los como fenômeno cultural representativo, não adianta dizer “isto não é música” e deixar apra lá, como coisa da “gentalha, gentalha!”. Até porque nas festas “família” não, mas nas buates, o pessoal adora terminar a noite ao som da música da gentalha…

  3. Renatinha disse:

    Dois anos depois…rs Tulio, querido, saque uma dúvida minha, que nada sei tecnicamente de música: o funk, em termos “técnicos”, é considerado música? Ou seja, preenche os requisitos técnicos? O que falta? Porque eu consigo reconhecer e bem a importância do funk, mas fico sempre com a pulga atrás da orelha quando rola essa discussão de é música/ não é música…que aliás, acho uma bobagem, mas como não sou musicista…deixo sempre pra lá. bjs!

  4. Renatinha disse:

    Aliás, adorei a análise. Posso compartilhar?

  5. Oi, Renata. Primeiro: sim, o que se faz com som ordenado é música. Tem aquela história de que música precisa ter ritmo, melodia e harmonia, mas o conceito destas três coisas varia com o tempo, e se formos ouvir sem preconceito, funk tem estas três coisas – melodia microtonal, como o Tom Zé aponta, harmonia bem simples mas frequentemente modal (ou seja, fora da tradição harmônica ocidental) e ritmo, muito ritmo. O que leva alguém a dizer que funk não é música é puro preconceito, é no sentido de dizer que não é arte, como se apenas a arte feita dentro do contexto cultural europeu fosse válida. Há sim desdobramentos nos argumentos, mas a base é esta. E obviamente pode espalhar por aí, esteja à vontade. Abraços.

  6. Mc Sandrinho disse:

    Aqui e o mc Sandrinho o verdadeiro e unico compositor da atoladinha que e registrada e partiturada em meu nome tirei a sua duvida agora!

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