O Estrangeiro Caetano – uma coluna política

Caetano na Rolling Stone

Caetano Veloso sempre gostou de fazer canções-manifesto. Podres Poderes, Vamo Comê, Fora de Ordem, são exemplos de letras enormes em que ele consegue colocar seu pensamento político bem articulado na música sem soar panfletário, como quando perguntava em 1987: “Quem vai equacionar as pressões do PT e da UDR e fazer dessa vergonha uma nação?” Hoje, com o PT no poder e a ex-União Democrática Ruralista atendendo antendendo pelo nome CNA – Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil, estas pressões continuam mal equacionadas…

O Estrangeiro é a primeira faixa de seu álbum de 1989. A letra elíptica e referencial descreve uma situação muito simples: Caetano caminha pela Praia de Botafogo, e logo atrás dele “um velho com cabelos nas narinas e uma menina ainda adolescente e muito linda” conversam. Caetano ouve a conversa e percebe o discurso reacionário implícito no que dizem, expondo-o e denunciando-o. Mais de vinte anos depois, novamente em época de eleição presidencial (em 89 Collor venceu Lula), a análise política de Caetano soa muito atual, e isto porque o discurso conservador, que permaneceu mais ou menos submerso ao longo dos últimos anos, volta a se fazer ouvir.

Ninguém espere deste artigo um libelo em favor deste ou daquele candidato. Aliás, nem de Caetano, que segue “mais sozinho caminhando contra o vento” (citando outra música sua, Alegria Alegria), mas apenas a constatação da reorganização das mesmas forças políticas que apoiaram a campanha pela deposição de Getulio Vargas, o golpe militar de 1964, Collor em 1989, e hoje estão agrupadas, em boa parte por falta de outra opção, na candidatura de José Serra. Não são a voz dominante de sua campanha, e não representam o pensamento majoritário da direita atual. Na verdade, talvez não passem de uma minoria barulhenta. Mas fazem barulho.

A canção de Caetano também faz barulho. Foi produzida, como todo o álbum, pela dupla Ambitious Lovers, formada pelos americanos Peter Sherer e Arto Lindsay, o que deu uma sonoridade industrial ao arranjo, carregado de tensão devido principalmente à guitarra distorcida de Arto. No mesmo álbum, Caetano trata dos “Outros Românticos”, que “cultuavam outra idade média, situada no futuro” Em O Estrangeiro, Caetano disseca as “utopias radicais” que cita em Os Outros Românticos:

É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos.

O jornalista Pedro Alexandre Sanches publicou na revista Carta Capital, e reproduziu em seu  blog, uma reportagem sobre o livro “Brutalidade Jardim – A Tropicália e o Surgimento da Contracultura Brasileira”, do brasilianista Cristopher Dunn. Não por acaso, o olhar estrangeiro é útil para apontar detalhes despercebidos por quem vivencia a História “por dentro”. Ele transcreve trechos de uma carta de Gilberto Gil recusando, do exílio, um prêmio do MIS – Museu da Imagem e do Som – pelo samba “Aquele Abraço”. Gil vocifera:

Que fique claro para os que cortaram minha onda e minha barba que Aquele Abraço não significa que eu tenha me ‘regenerado’, que eu tenha me tornado ‘bom crioulo puxador de samba’ como eles querem que sejam todos os negros que realmente ‘sabem qual é o seu lugar’. Eu não sei qual é o meu, e não estou em lugar nenhum; não estou mais servindo à mesa dos senhores brancos, e nem estou mais triste na senzala em que eles estão transformando o Brasil.

A recusa genuína de Gil, em 1969, a se colocar “no seu lugar” numa sociedade em que “riscar os índios, nada esperar dos pretos” era um discurso aceito como possível, ecoa mesmo hoje, quando seu discurso perdeu a agressividade (mas não a contundência). É contra estas forças que Caetano, aí sim, faz uma espécie de libelo pós-apocalíptico (“O mundo desde o fim”) reafirmando sua posição independente em relação a este pensamento totalitário, seja de esquerda ou de direita, o que lhe valeu as vaias do Maracanazinho quando apresentou É Proibido Proibir no III FIC, Festival Internacional da Canção, em 1968, e seu famoso discurso: “Vocês não estão entendendo nada!” “Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores!” (a peça Roda Viva, de Chico Buarque, fora invadida pelo Comando de Caça aos Comunistas, que espancara o elenco e depredara o cenário).

Caetano opõe, ao romantismo de uma geração que quis mudar o mundo, Os Outros Românticos, a “utopia radical” da organização católica Tradição, Família e Propriedade. Não para tomar partido, mas para apontar as deficiências da visão de cada um. Em O Estrangeiro, ele desmascara o discurso proto-facista que defende a tortura como aceitável em alguma situação, que defende a criminalização e até a internação forçada do usuário de maconha, que alega defender a democracia usando argumentos que a agridem. Caetano exercita o olhar de estranhamento fundamental para a compreensão das redes de pensamento que ainda dominam a sociedade atual, não para demolir alguma, mas para abrir espaço para novas afirmações: “E no entanto era um sim. E foi e era e é e será sim.”

O Estrangeiro

Os outros românticos

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10 comentários em “O Estrangeiro Caetano – uma coluna política

  1. dufas disse:

    Concordo contigo. Caetano, ironicamente para alguns, mostrou-se um excelente compositor de canções políticas, verdadeiros manifestos, como os que vc lembrou no início do post. É até hoje tão contestado porque se recusa a caber num escaninho único. Mesmo não concordando sempre, nem com tudo, eu adoro.
    (Helê)

    • tuliovillaca disse:

      Helena, sem querer se saudosista ou coisa do tipo, o fato é que não consigo lembrar de nenhum compositor de gerações posteriores ao Caetano que consiga tecer canções com a quantidade de referências intelectuais bem posicionadas e a propósito como ele faz, e sem necessariamente soar pedante. Li uma vez um brasilianista afirmando que na década de 70, os compositores populares tomaram o lugar dos intelectuais no Brasil. Acho que faz todo o sentido.

  2. Assis Furriel disse:

    Beleza de resenha, Tulio!

    Escrevi algo sobre o Caetano no meu último post. Curiosamente, sem saber do seu, falei exatamente sobre essa sua característica de citar outros autores, de olhar o seu mundo e criticar, falar, apontar… O Caetano, apesar de polêmico, é gênio e concordo com você, não vejo ninguém no mesmo nível de argumentação política. Caetano traz essa marca desde sempre. Gostei muito do seu texto. No meu, falo mais das referencias musicais. Meu texto é mais singelo. Não tem essa beleza sofisticada que tem o seu. Mas é um exercício legal. Quem sabe melhora. Passa lá pra ler. Parabéns amigo!

    • Eu já havia lido seu artigo, Chico! Saber citar sem repetir é difícil. O que se vê mais é gente usando a obra dos outros como muleta, sem acrescentar nada ao que já foi dito. O Caetano sabe fazer isso espetacularmente. Abração.

  3. biosas disse:

    A musica estrangeiro realmente é uma beleza, uma das criações de Caetano mais espetaculares e temáticas políticas intrigantes: “o antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baia de Guanabara pareceu-lhe uma boca banguela”. O disco é maravilhoso contem algumas canções deliciosas: Jenipapo Absoluto e por aí vai. Ass; biosas

    • Biosas, o que acho mais interessante no Caetano é, paradoxalmente, o fato de ele não ser um músico consumado, como ele mesmo faz questão de admitir. Isto significa que sua obra tem valor tanto pelos desdobramentos estéticos para além do musical estrito quanto por aspectos políticos, filosóficos, antropológicos, e por aí vai. Ele mesmo se considera uma pessoa que pensa e que, por acaso, caiu no universo musical para se expressar – ele queria ser cineasta. Isto, em vez de empobrecer seu trabalho, acaba lhe dando mais desdobramentos. É um caso pouco comum, acredito. Sorte nossa. Abraços.

      • biosas disse:

        É por aí túlio. Estamos falando de um dos maiores artistas de nossos tempos. O estico filosófico cae traz em sua bagagem muita coisa boa, antropofagia até tropicália, nem vou falar mais nada, só ai, um caldeirão de cultura. Ass; biosas

  4. Thiago Mariano disse:

    Na verdade, Túlio, com sua explicação da canção eu tive uma impressão provinciana da canção. Ainda acho que nem tudo na canção se resume a essa impressão que você passou, mas supondo que seja, acho reduz muito as peripécias gramaticais do Caetano nela. Pra dizer o que tu disse era melhor falar como ele fala em outras mais condizentes com o que ele é politicamente. Um pseudo-intelectual de mão cheia que adora falar besteiras. Me explico: na verdade o que eu adoro no Caetano é a postura de artista que ele incorpora em algumas canções, mas artista musical. O artista quando fala de antropologia ou física ou futebol tem direito a tudo e mais um pouco, porque fala de um lugar autêntico. Um não-politico ou não-boleiro falar de politica ou de futebol com os mesmos argumentos dos exímios boleiros e políticos é ridículo e desnecessários. Sem falar que o artista é maior que a politica, e deve mostrar em sua arte a insuficiência da politica, por exemplo, em abarcar o todo, mostrar caminhos, etc., coisa que a arte pode fazer com maestria. Falando em apontar caminhos, o Caetano como politico me cheira a um velho politico, cheio de respeito politico pelos companheiros ou comparsas. Sabe aquele respeito pelos adversários? Como se não houvesse guerra séria declarada? É isso. Ele não aponta caminhos, nunca. Como você falou ele somente aponta pontos de vista, e pontos sempre já dados… E termina seu refrão com aê, êa, olê, olá. Gosto mais do Gil e do Chico, nesse sentido.

    • Thiago, sem querer defender o Caetano – até porque ele não prcisa de defensores -, não sei se concordo com você quanto à, digamos, intelectualidade dele. Já o vi várias vezes justamente se posicionando como um não-intelectual, como recentemente na polêmica causada pela crítica do Roberto Schwarz ao livro Verdade Tropical. Não enxergo o Caetano como político – na verdade o Gil o seria mais, tendo sido ministro e vereador em Salvador, e sim exatamente como você disse, sendo “maior que a politica, e deve mostrar em sua arte a insuficiência da politica, por exemplo, em abarcar o todo”. E concordo plenamente com você quando diz que “nem tudo na canção se resume a essa impressão que” eu passei. Fiz uma aplicação referente à candidatura do Serra a presidente, por exemplo, que é absolutamente pontual. Me parece que o Caetano, quando fala da política – como de muitas outras coisas – fala do lugar da estética, que é o, digamos, apropriado como artista, impedindo que se torne um politiqueiro ou dietante em tudo. Quanto a propor alternativas, um verso de outra canção como “equacionar as pressões do PT e da UDR (União Democrática Ruralista, hoje a sigla mudou) e fazer dessa vergonha uma nação”, me parecem bastante diretos, até o risco de se tornarem datados. De resto, não sei se a função do artista é propor caminhos de forma tão imediata, mas isto é outra discussão. Obrigado pelas ponderações e pelas discordâncias, que é desse debate que a gente se alimenta. Abraços.

  5. […] from the perspective of ethnopoetics and anthropology. And here is a blog post that discusses a political interpretation of the […]

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