Divagar, devagarinho

Há uns quinze anos, a MTV fez uma enquete informal com vários músicos americanos, perguntando como eles achavam que seria a música popular do futuro, cada um dizendo espontaneamente o que achava. A resposta mais ouvida dizia que a música do futuro seria parecida com o que Peter Gabriel já fazia na época. Como ele acaba de lançar um álbum novo, só posso presumir que o futuro chegou.

Pois chegou de uma maneira bastante surpreendente, e nem poderia ser de outra forma, em se tratando de Peter Gabriel. Chegou na forma de um álbum de regravações de músicas de outros artistas, sem guitarras nem qualquer tipo de percussão – no guitar, no drum. Mesmo canções pesadas ou de levadas mais rápidas, de David Bowie ou Paul Simon, são cantadas num tom mais solene ou intimista, com cordas, sopros, orquestra. Ué, isto é a música do futuro?

Heroes com David Bowie

Heroes com Peter Gabriel

The boy in the bubble com Paul Simon

The boy in the bubble com Peter Gabriel

Por coincidência, ou não, dois lançamentos nacionais recentes seguem linhas paralelas a esta: Vagarosa, segundo disco da paulista Céu, e Slow Music,  da Joyce. Em ambos a idéia, explorada de maneiras diferentes, é a mesma: reduzir o tempo, acalmar, escutar, saborear. Joyce (que agora assina Joyce Moreno) diz que teve a idéia do disco ao saber do manifesto Slow Food, do chef italiano Carlo Petrini, reação à fast food sem gosto (ou com flavorizantes artificiais) e sem alma. O trabalho de Céu vai por caminho similar, embora ganhe uma sonoridade muito diferente meio anos 70 (só meio): arranjos detalhados, feitos para serem ouvidos com calma e com fones.

Entrevista com Joyce sobre o álbum Slow Music: parte 1, parte 2 e parte 3.

Em 1995, a dupla sueca Roxette (que canta em inglês, claro) lançou uma coletânea de sucessos chamada Don’t bore us, get to the chorus! Ou em sueco, Não enche e vai pro refrão! Sendo já uma coletânea de pretensas melhores músicas, não sobra muita coisa… Mas para além da realista autocrítica da banda, há a constatação da fast food que se tornou boa parte da música popular, não apenas na Suécia. A velocidade não está apenas na ascenção e queda de astros, mas também da música propriamente dita – ritmos, solos de guitarra – e senão a velocidade, a intensidade – cantoras se esgoelando, horror a pausas. E os flavorizantes artificiais – os clichês.

Pois estes trabalhos listados vão contra a maré. A idéia não é novidade – Eric Clapton já se intitulou Mr. Slow Hand, por exemplo. Sem falar em Martinho da Vila, que me empresta o título devidamente adaptado. Mas lembram que, se a música pode trazer o transe, pode também embalar suavemente. Que, nas palavras de Joyce, o chiaroscuro, o acridoce tem seu lugar. Claro que na música do futuro há espaço para um bom bate-estaca. Mas, com o perdão da citação,

Se você dançar a noite inteira não significa dar bobeira
De manhã se alienar ou esquecer.
É a busca do supremo equilíbrio, num processo inteligente sua mente
clarear sem perceber.

(Não sei se no futuro há lugar para Oswaldo Montenegro. Mas nada como um clichê no lugar certo).

Cangote, com a Céu.

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