João, o radical – parte 1

Sou amigo do João Gilberto. No Facebook, claro. E é claro que já soube também que não deve ser ele, graças a uma reportagem duvidosa da Revista Veja, que transforma declarações dele ao longo de dez meses em uma espécie de entrevista sem perguntas, e, fiel à sua atual linha editorial mais anedótica que analítica, preocupa-se em pintar um João exótico, sem trazer nada sobre o que realmente importa: sua música.

João inventou um jeito de fazer música que é a síntese de tanta coisa ao mesmo tempo que fica difícil fazer a lista. Ele é o lugar onde a música popular brasileira feita até então se condensa num ponto só, como uma singularidade física, e daí novamente se expande como num big bang. Mas tudo passa por ele, como a areia de uma ampulheta tem de passar pelo centro (desculpando a mistura de metáforas). E tudo o que se faz na música posterior a João se faz, de algum modo, pelos ouvidos dele.

Não é à toa que Milton, Chico, Caetano, Gil e muitos outros já disseram em entrevistas que começaram a tocar violão depois de ouvir o João. Gil, inclusive, tocava acordeão, e mudou quando ouviu Chega de Saudade. Talvez o que aventei no parágrafo anterior explique porque boa parte do grande público gosta dos que gostam de João, mas não do próprio João. Talvez a síntese de informações contida em sua música a torne mesmo difícil de ser decodificada. Caetano, Chico e outros fazem esta decodificação, de certa forma diluindo João ao escolher aspectos de sua música para desenvolver e misturar com outras influências.

Muitos já disseram que as canções de Tom Jobim parecem ter sido feitas para o João. Entendo que, no surgimento da Bossa-Nova, realmente uma catalizava a outra, as duas com o ar de novidade necessário ao momento, mas hoje, cada vez mais, acho que a interpretação de João foi feita para Caymmi, um compositor anterior à Bossa. Não é por acaso que João foi cada vez mais preferindo gravar canções mais antigas, deixando o repertório de Tom um pouco de lado, ao mesmo tempo que Tom, em sua última fase, reuniu um grupo – a Banda Nova – para poder fazer melhor o que já fazia – compor os arranjos junto com as canções. Neste ponto, ele também se distancia de João, haja vista que, no primeiro állbum de João, os arranjos são de Tom.

E o que João faz com as canções antigas, como também faz com as de Tom? Mais ou menos o contrário do que Tom fez, ou seja, em vez de vesti-las com a elegância de um coro feminino, flauta, violoncelo, João as despe. Tira delas tudo o que for acessório. Sobram a melodia, cantada sem nenhum efeito; a harmonia, homogeneizada na parede dos acordes do violão; e o rítmo. Ah, o ritmo. Todas as sutilezas de tempo e contratempo possíveis. É a única concessão a que João se permite. Mas mesmo esta está unicamente a serviço da canção. Eis aí o radicalismo absoluto de João. Como um fotógrafo da Playboy – vá lá, como um Rubens, ele deixa nua a canção, e a registra com todo o requinte – e sem Photoshop. Então a canção aparece inteira, sem disfarces.

E quando a canção foi despida de seus arranjos orquestrais, de seu canto empostado, ela se revela realmente como é – e a escolha de repertório do João é impecável, redescobrindo jóias esquecidas e as reinventando para o público. Várias delas depois foram regravadas por outros artistas, e só então caíram na boca do público – como Sandália de Prata, de Ari Barroso, que depois de passar por João virou Isto aqui o que é, com Caetano, e foi tema de novela.

Eu ainda ia falar aqui sobre duas composições do João, Oba-lá-lá e Bim-bom, que são a síntese da canção como João é a síntese da interpretação, mas vai ficar para outro artigo. Termino comparando três gravações da mesma música, pré, durante e pós-João. Convido o leitor a ouvir como ele “resume” a interpretação de Caymmi, e como o Casuarina e o Moinho “se apossam” do que ele fez com a música, independente do tom festivo que trazem. É um bom exemplo de como ficou impossível fazer música brasileira sem o prisma radical que ele nos legou. 

Rosa Morena com Dorival Caymmi

Rosa Morena com João Gilberto 

Rosa Morena com Casuarina e Moinho 

 

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3 comentários em “João, o radical – parte 1

  1. Apesar de não ser um profundo conhecedor da música popular brasileira, aliás, de nenhum tipo de música, sempre achei João Gilberto marginalizado por crítica e público.

    Vejo nele um gênio, nada menos. E agora apoiado nos conhecimentos musicais do autor deste artigo, alguém que muito respeito artisticamente e como pessoa, fico mais tranquilo com o que achava até então mera percepção sem embasamento técnico.

    Parabéns pelo excelente texto! Fico aguardando o próximo…

    • tuliovillaca disse:

      Fala Guru! Olhe, nem acho que o João seja tãããão marginalizado assim, acho mesmo que a escolha estética dele é que foi fechando aos poucos a porta para uma popularidade do tipo atual – vai a eventos, a música é dançante, cerveja patrocina, essas coisas. Até tentaram transformar a Bossa-nova numa dancinha no começo – ficou canhestro, claro. É uma música muito difícil disfarçada de fácil, e ao mesmo tempo fácil para quem se dispuser a escutar – hoje se ouve muita música, mas se escuta pouco.
      Quando sair a continuação, te aviso. Abração.

  2. Eu sempre achei o joão gilberto super valorizado.eu prefiro cantores com voz.

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