João, o radical – parte 2

João Gilberto é compositor bissexto. Não é a parte mais importante de sua obra, sem dúvida. Mas exatamente por sua escassa produção, cada composição sua ganha muito maior relevância, por se revestir de múltiplos possíveis significados. E assim comentaristas e exegetas tentam decifrar se Um Abraço no Bonfá é uma homenagem, uma ironia por citar um grande trecho de O Barbinha Branca, do próprio Bonfá e Tom Jobim, uma brincadeira pelo fato de a peça instrumental ser tão cheia de pestanas que os dedos do violonista ficam doendo. E vai por aí afora.

Mas há duas composição de João que podem ser consideradas sínteses de seu trabalho, pela correlação que tem com seu estilo: Bim Bom e Hoba-lá-lá são canções praticamente gêmeas, embora de estilos diferentes à primeira vista: uma, um baião; outra, bolero. Ambos gêneros aparentemente alheios à Bossa-Nova, e até contraditórios a ela. Os bolerões grandiloquêntes eram a tônica das rádios pré-Bossa, com vozeirões e exageros interpretativos que às vezes chegavam às raias do absurdo, e que a Bossa ajudou a eliminar. E o baião era, na época (Bim Bom é de 1956) outra aintítese da Bossa (se é que ela pode ter duas antíteses). Ruy Castro, em Chega de Saudade – História e Histórias da Bossa-Nova, se refere ao baião da forma mais pejorativa possível, tratando-o por “aquele ritmo que, para alguns, só servia como coreografia para se matar uma barata no canto da sala”, além de chamar abertamente a sanfona de Luiz Gonzaga de “cafona” (claro que as idiossincrazias do Ruy Castro também tem lugar aí). Onde é que a Bossa-Nova acha um lugar aí? E principalmente, por que é que João Gilberto escolheu exatamente estes rítmos para compor?

Talvez exatamente por isso, para mostrar que, embora a Bossa-Nova seja fundamentalmente samba, não é o samba. Para mostrar que ela é, muito mais que um estilo musical, uma visão específica do fazer musical, da relação com a música. Muito mais que é-sal-é-sol-é-sul. Quando Nara Leão rompe com o movimento que adorava seus joelhos e vai gravar Zé Kéti, ela está fazendo Bossa-Nova, mais do que os que continuaram cantando os barquinhos. João faz a mesma coisa, mas à sua maneira, ao gravar Pra que discutir com madame?, ou Preconceito.

As duas canções em pauta são minúsculas. As letras, à primeira vista, não dizem nada. A estrutura de ambas é a mesma, e pode ser resumida assim: uma onomatopéia, uma auto-referencia, uma referência ao coração, e acabou.

E amor, o hó-bá-lá-lá, hó-bá-lá-lá uma canção,
Quem ouvir o hó-bá-lá-lá, terra feliz o coração
O amor encontrará ouvindo esta canção alguém compreenderá seu coração
Vem ouvir, o hó-bá-lá-lá, hó-bá-lá-lá esta canção

e

É só isso o meu baião
E nao tem mais nada não
O meu coração pediu assim, só… Bim bom.

Tom Zé, numa entrevista no Programa do Jô, (lá vou eu falar disso de novo. O vídeo está aqui no blog, no post Funk, Freud, Feitiço, as Foguentas e as fogueiras da Santa Inquisição) classifica o refrão de Atoladinha como um metarefrão microtonal e polisemiótico. Esqueçamos o microtonal. Estas duas canções são metarefrões – referem-se a si próprias – e polissemióticas. São refrões que resumem todos os refrões, canções que resumem todas as canções. Hoba-la-la e Bim Bom, de certa forma, são a mesma canção, sob formas pouco diversas, próximas de uma canção primordial, platônica. Estarem inseridas no contexto da Bossa-Nova, sendo de ritmos tão diversos , só reforça esta universalidade. Por serem, não exatamente tão simples, mas sim tão sintéticas, prestam-se a experiências como as que derivam de Bim Bom, que apresento aqui: Adriana Partimpim a mescla com Olodum para crianças; Caetano e José Miguel Wisnik a metabolizam em abstrações para um espetáculo de dança. São vestimentas belas e diferentes para a canção radical que João criou.

Faz sentido que João tenha composto tão pouco, depois de criar estas duas canções. Ele passou e passa o resto da vida a pegar outras canções e aproximá-las o mais possível da canção ideal que passou tão perto de alcançar com estas.  De fato, quando perguntado porque não compõe mais, ele responde: “Mas há tanta coisa bonita a ser consertada!” E ele, coerente com suas composições, não escolhe gênero. Atualmente, sua magistral gravação do bolero Estate toca na novela. É João tentando novamente alcançar a canção por excelência, ou desvelar a nós a diversidade que esta canção pode tomar. Se Bim Bom e Hoba-la-la são formas da mesma canção, segundo João, todas as canções são um pouco Hoba-la-la e Bim Bão: um pouco onomatopéia, um pouco auto-referência, um pouco (ou muito) coração.

Hoba-la-la – João Gilberto

Bim bom  – João Gilberto

Bim Bom – Adriana Partimpim & Olodum

É só isso – Caetano Veloso e José Miguel Wisnik

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3 comentários em “João, o radical – parte 2

  1. Joao Leao disse:

    gostei bastante da sua análise sobre o João Gilberto (parte 1 e parte 2)! Muito bom! estou fazendo um trabalho de pesquisa sobre os arranjos de João Gilberto, seu jeito de tocar violão e todas essas coisas que nós já conhecemos… e é sempre enriquecedor conhecer novos pontos de vista.

    Realmente essas duas canções dele são importantíssimas para entender o resto de sua obra. Também gosto muito de Undiú, apesar de não ter letra, ela tem um clima parecido com Ho-ba-la-lá também, vale a pena ser citada!

    abraços!
    João Leão

    • tuliovillaca disse:

      Olá, João. Eu é que fico feliz por ajudar, sempre às órdens, que é para isso que o blog serve. Falei destas duas porque tem letra e são integralmente do João. Mas Undiú realmente é um prodígio da capacidade do João de reduzir até o osso, sendo originalmente um poema do Jorge Amado chamado “Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco, em Juazeiro”(!) O João conseguiu acabar com a letra e com o título… e ainda por cima ela é toda modal. Dia desses faço uma análise dela aqui. Abraços.

  2. Antonio disse:

    Oi Tulio, estou procurando essa letra de Indiu, a cancao foi composta por Moacir Santos que se encarregou da banda sonora do filme. Consta que foi toda cantada em coral.. Eu acabei de aprender a tocar e cantar Indiu na voz e violao e gostava de fazer uma versao usando a letra de JOrge Amado. Qualquer ajuda e bem vinda 🙂

    Antonio
    makuma@gmail.com

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