Blues e Baião, canções do exílio

Não só eles, claro. Ainda vou escrever aqui sobre as canções, especialmente sambas, que cantam as maiores tristezas e desesperos com “o peito em festa e o coração a gargalhar”, como dizia meu pai. O samba também nasceu um pouco canto da saudade de casa, mas acabou se disseminando tanto em tantas e tão diferentes formas, influenciando coco, cateretê e por aí vai. O banzo ainda está lá, mas menos perceptível à primeira vista.

Blues e baião, não. Continuaram, de alguma forma, ligados a seu objeto original: a distância de casa, real ou metafórica, eventualmente simbolizada pela mulher amada, casa distante no espaço ou no tempo e que pode até não ter sido conhecida, mas apenas lembrada pelos mais velhos, como no caso dos escravos americanos (e não só eles). Mas o canto traz embutido em si a esperança da volta, e mesmo sua afirmação, no caso dos migrantes do nordeste brasileiro, fugidos da seca.

Entre suas grandes diferenças, outras duas semelhanças musicais: uma, a adaptação desta saudade a instrumentos trazidos de fora, pelo colonizador. No blues, o violão de cordas de aço, logo eletrificado em guitarra; no baião, o acordeão das festividades européias, de sotaque transfigurado. Junto a estes condutores harmônicos, a adaptação possível da percussão em bateria (com o empréstimo do baixo do jazz, também devidamente eletrificado), ou a zabumba e um vergalhão de obra dobrado em três pelo peão.

E a harmonia propriamente dita. Não pode ser apenas coincidência que ambos os estilos sejam baseados em uma escala com o sétimo grau abaixado (parêntesis explicativo que pode ser pulado se você é músico: uma escala “normal” tem sete notas, escolhidas entre as doze existentes, com intervalos que podem ser de um ou dois dos chamados meios-tons. Na escala maior, a distância entre a última nota – o si – e a que inicia a oitava seguinte – o dó de novo – é de meio tom, a menor distância, o que dá a sensação de finalização – pa,pararara… pam pam! Se a escala tem o sétimo tom abaixado, este efeito não é possível, e a sensação de fim não acontece).

Baião e blues se baseiam em um acorde que não se resolve, se sustentam na instabilidade. A harmonia tradicional de uma canção realiza um percurso determinado: depois de diversas aventuras e desventuras, há a volta triunfal para a casa, o acorde de descanso, a sensação de ponto final. Neste caso, não. O último acorde fica no ar, continua suspenso. A volta para casa é eternamente adiada. A harmonia segue exilada, migrante. Sonha um dia voltar para casa. Enquanto isso, dança, namora, festeja, vive, para não chorar. Ou, nas palavras  de um bluezeiro-mor: “Saudade, meu remédio é cantar”.

I’ll be back someday, com Howlin’ Wolf

17 légua e meia, com Luiz Gonzaga

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