Fulano de Tal – Vida e Obra

Em 1988, Cazuza voltou ao Brasil, depois de um curto período nos EUA, e lançou o álbum Ideologia. Nele havia a canção Boas Novas, que dizia:

Senhoras e senhores, trago boas novas
Eu vi a cara da morte, e ela estava viva!

No entanto, Cazuza oficialmente estava apenas recuperando-se de uma pneumonia que se complicara um pouco. Ele só admitiria publicamente ser portador do HIV no ano seguinte. Isto não o impediu, neste trabalho como eu todos os anteriores e posteriores, de colocar abertamente sua vida particular tanto em suas composições como na escolha de repertório alheio, como ao cantar Luz Negra, de Nelson Cavaquinho, a ponto de a revista Veja tê-lo colocado na capa – uma foto de quando pesava 40 quilos – com a manchete Uma vítima da Aids agoniza em praça pública, que causou enorme repercussão.

Cazuza foi um exemplo, como Michael Jackson no artigo abaixo, de artistas que são pratos cheios para exegetas, por colocarem – ou parecerem colocar, em certos casos – suas experiências reais, vividas, em sua obra. Isto dá ao seu trabalho artístico um sabor especial que vai bem além do valor estético: a sensação de penetrar na sua intimidade, pois suas canções são também, de certa forma, confissões. Mas para isto, em tese, é necessário que suas vidas sejam muito interessantes, é claro. Ou que sejam tornadas muito interessantes, e temos diversos exemplos de artistas que, independente do mérito de suas obras, sabem como ninguém utilizar a mídia a seu favor “criando” fatos pessoais para a promoção de sua arte. Mas o que dizer de uma vida absolutamente comum? Será capaz de suscitar uma boa canção?

Um Dia Útil, com Maurício Pereira:

Por outro lado, há uma espécie de senso (ou lugar?) comum de que a arte consiste na “expressão de sentimentos e emoções”. É óbvio que o artista, para criar, usa a si mesmo como matéria prima – seus conhecimentos, experiência, vivências (um amigo meu não pode ouvir ninguém dizer “Na minha opinião…” sem interromper: “Claro que é a sua, de quem mais?). Daí a considerar que obrigatoriamente as vivências relatadas são dele… Chico Buarque, célebre, entre outras coisas, por suas canções sob o ponto de vista feminino, que o diga.

O Meu Amor, com Chico Buarque:

Noel Rosa compôs Três Apitos para uma namorada chamada Josefina, que começara a trabalhar numa fábrica de botões no Andaraí. Noel foi procurá-la em seu carro velho, pensou que trabalhava em outra fábrica próxima, de tecidos.  A história desta confusão pode ser lida neste ótimo artigo.

Noel Rosa, em Três Apitos, fez uma descrição precisa das transformações profundas por que passavam o Rio de Janeiro e o Brasil na década de 30: a rápida industrialização da zona norte, as condições precárias do proletariado (“você no inverno/ sem meias vai para o trabalho”), a proliferação do automóvel, a popularização da publicidade (“quando a fábrica apita/ faz reclame de você”), enfim, uma nova cidade que se punha de pé. Esta análise econômico-social pode ser lida neste ótimo artigo.

Três Apitos é uma obra-prima porque, aliada à sua sensacional qualidade técnica e expressiva (colocando a palavra “grito” na nota mais aguda da música, por exemplo), traz algo do que o artista Noel Rosa era e do que ele via. Traz suas vivências transfiguradas, sua visão de mundo estilizada, e se torna bem maior que ambas. Se é verdade que sempre há uma parcela do público que quer o sangue do artista, cabe a ele realizar o milagre cotidiano da transformação deste sangue em vinho para oferecê-lo ao público. Sua vida não precisa ser espetacular para que sua obra o seja. Seu sangue não durará; o vinho, se tiver qualidade, ficará mais saboroso ao envelhecer, e sobreviverá a ele.

Três Apitos, de Noel Rosa, com Tom Jobim:

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3 comentários em “Fulano de Tal – Vida e Obra

  1. Eduardo disse:

    Uma vida comum só rende uma boa música (ou uma obra inteira) se o artista for incomum. Os ingredientes de um bolo, por exemplo, podem ser os mesmos, mas se ele vai ficar bom, regular ou ruim dependerá de quem e de o como fará.
    Vejo alguns (poucos) compositores de samba, de ontem e de hoje, como um bom exemplo disso. Generalizando, vindo ou frequentando ambientes normalmente de vida muito simples, eles fizeram a transformação de água (ou sangue, como você otimamente disse) em vinho. Paulinho da Viola, um deles, sabe fazer isso com maestria.

  2. tuliovillaca disse:

    Pois é, Edu. A gente vive numa época de espetacularização de tudo, chega a ser difícil distinguir o que é obra do que é vida. Uma vez passei um trabalho numa escola de nível médio, que era escolher um artista – qualquer um – e analisar a obra e relacionar com a vida, segundo os parâmetros que eu dei. Teve gente que escolheu até Silvio Santos…

    E de resto, se uma vida interessante fosse condição para a obra, Bach estava mal. Foi funcionário de uma igreja protestante a vida toda, com vinte (VINTE!) filhos para cuidar. Se ele conseguiu fazer a obra que fez, acho que qualquer um por obscuro que seja, é capaz…

    • philadelfo disse:

      20 filhos! Meu Deus! Se ele tivesse se separado hoje seriam 20 pensões! Realmente, a genialidade de uma pessoa está nos detalhes. Adoro este espaço aqui.

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