É pra você, é o Chico Buarque

Uma vez ouvi do José Miguel Wisnik uma curiosa anotação sobre a obra de Chico Buarque. Ele tratou da atualização do Chico como cronista do cotidiano fazendo a relação de três canções de épocas diferentes que tem como elemento importante o mesmo objeto: o telefone. Em cada uma delas, são traçadas relações diversas entre o aparelho e os personagens das canções, mas sempre ilustrando a capacidade do Chico de se utilizar desta atualização das relações de forma dramática, funcional nos enredos que canta.

Bye Bye, Brasil, dele com Roberto Menescal e feita em 1978 para o filme homônimo de Cacá Diegues, é inteiramente construída sobre um diálogo – na verdade um monólogo – telefônico. A ligação é um DDD feita de um orelhão com fichas, ressaltando e ironizando, no espírito do filme, a propaganda de um Brasil grande e integrado feita pelo governo militar.

Anos Dourados, composta com Tom Jobim em 1986 para a série homônima da Rede Globo (mas a letra não ficou pronta a tempo), tem toda a trama da letra partindo de uma mensagem deixada na secretária eletrônica da ex-amante, depois de anos. Nesta, a crítica política ou social é deixada um pouco de lado, embora se possa fazer uma ilação de classe social – em 86, não era tão comum ter secretária eletrônica, pois nem mesmo telefones eram tão assessíveis. Mas o principal aqui é o aparelho, como na anterior, ressaltando uma distância que, se em Bye Bye Brasil era física, agora é, digamos, psicológica.

Iracema voou, apenas de Chico, composta em 1998 para o álbum As Cidades, tem no telefone um coadjuvante, em contraste com as outras duas. Mas um coadjuvante de luxo. Iracema, ex-empregada doméstica emigrada para os EUA, faz ligações DDI a cobrar para o ex-patrão. Aqui, volta a ironia fina de Chico a retratar uma questão social, a ida de brasileiros para o chamado primeiro mundo, onde vivem clandestinos das sobras do capitalismo desenvolvido – e ainda assim melhor do que aqui. O contraste civilizatório é expresso pelo anagrama Iracema/ América, e o telefone então, em vez de ser o símbolo de um afastamento, é, ao contrario, o meio real de uma reaproximação com sua cultura, seu passado, sua origem.

Wisnik, na época em que o ouvi fazer estas considerações (muito mais resumidas que aqui, onde as desenvolvi), não tinha como imaginar onde iriam as novas tecnologias, uma vez que celulares ainda eram uma relativa novidade. Mas as três canções de Chico cobrem um período de vinte anos – e já se passaram mais oito. Está na época de ele fazer uma canção que use os celulares como elemento, fazendo mais uma vez a atualização da crônica de seu tempo. Mal posso esperar para saber como será.

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2 comentários em “É pra você, é o Chico Buarque

  1. Ele já falou da internet, em ‘”Nina”, de 2011…

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