O dia em que Vicente Celestino deu as costas ao microfone

No início era a ária. A canção popular, em termos de formato (sequencia de estrofes e refrão, repetições, etc.), é derivada direta do momento da ópera em que o personagem expressa seus sentimentos. Em contraste, o outro integrante fundamental da ópera, o recitativo, é apoiado no rítmo da fala, mais irregular, e era geralmente usado para expressar a ação (seria o avô do rap? Fica para outro dia). Mas eram as árias, com suas melodias que “pegavam” nos ouvidos, os grandes sucessos de todas as óperas, ainda hoje. Até quem não sabe nada de ópera sabe cantarolar O sole mio– especialmente depois de Elvis Presley transformá-la em It’s now or never.

Mas a ópera não influenciou a canção apenas no formato. Em seus primórdios, também a interpretação era condicionada pela origem, especialmente em se tratando de vencer com a voz o volume de uma orquestra e se fazer ouvir pelo público, numa época sem amplificação. Quando surgiu o primeiro processo de gravação, isto não mudou em nada. O processo era mecânico, sem microfones. O som entrava por uma concha acústica (como dos antigos gramofones) e uma agulha então “imprimia” o som, inicialmente em um cilindro de cera, e só mais tarde nos discos 78 rotações. Para que este processo ocorrese, o som tinha de ser forte – detalhes ficavam de lado. Daí, cantores de estilo operístico levavam grande vantagem. A tecnologia estava de acordo com a forma artística, ou pelo menos não atrapalhava.

Neste contexto é que surge o nosso herói, a “Voz Orgulho do Brasil”. Vicente Celestino nasceu em 1894, e gravou seu primeiro disco em 1916. Nos anos 20, foi o maior ídolo da música brasileira, com sucessos em sequencia. Era fã de Caruso, que tinha a mesma idade dele, considerado o maior tenor operístico de todos os tempos. Gravou 52 canções em 28 discos neste período. Tudo ia muito bem, até que a tecnologia avançou, e a canção começou também a mudar.

Em 1927, chegou ao Brasil o processo de gravação elétrico, com microfone. Agora, (quase) todos os detalhes da música iam gravados,  não era mais necessário cantar tão alto. Pelo contrário, com os novos equipamentos, delicados e pouco desenvolvidos ainda, o som alto demais fazia “estourar” a gravação, assim como luz demais numa foto faz a imagem ficar borrada. O que era vantagem virou prejuízo. Ainda havia espaço para vozes potentes como a de Francisco Alves, que entre 1927 e 1930 gravou 421 músicas! Mas o que receberia o apelido de “Rei da Voz” não cantava com a interpretação operística de Vicente, que soltava a voz mesmo para marchinhas. E ainda apareceu Mário Reis, o primeiro cantor brasileiro a cantar com voz coloquial, como quem conversa com o ouvinte, e privilegiando a divisão rítimca. Não por acaso, foi dos primeiros a gravar o “samba novo” de Ismael Silva, que estabeleceu o que o samba é hoje. Não por acaso, é ídolo de João Gilberto.

Tudo isto só foi possível graças ao desenvolvimento tecnológico das gravações. Mas como ficou Vicente Celestino nesta história? Vicente não quis abrir mão de sua interpretação desabrida. Nem poderia, pois era sua marca registrada, perfeitamente adequada a seu repertório, que incluiria O Ébrio e Coração de Mãe, canções de dramaticidade exagerada (embora não se restringisse a elas). A única maneira de conseguir gravar sem abandonar seu estilo foi virar de costas, e passar a gravar voltado para a parede.

Isto não durou para sempre, é claro. Não muito tempo depois, os microfones foram aperfeiçoados, e voltou a ser possível gravar de frente para eles. Mas o gesto de Vicente Celestino, de dar as costas à tecnologia, ficou como símbolo do avanço técnico guiando – ou pelo menos permitindo – o desenvolvimento do formato da canção. Vicente não parou. Morreu em 1968, quando ia para uma participação em um show de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na década de 50, gravou Tom Jobim (Se todos fossem iguais a você, pré-bossa, adequadíssima a seu vozeirão). Mas nunca mais teve a popularidade da primeira fase de sua carreira.  As canções mudaram, mas principalmene as vozes que as cantavam. Foi uma página da história da música brasileira que virou. Outras já apontavam mais à frente.

Porta Aberta, com Vicente Celestino – do filme O Ébrio, de 1946

Novo Amor, de Ismael Silva, com Mário Reis

A noite em que Vicente Celestino morreu, com Péricles Cavalcanti

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5 comentários em “O dia em que Vicente Celestino deu as costas ao microfone

  1. Vitor Paulo Kanan disse:

    Vicente Celestino o maior tenor baixo que o mundo nao soube aquela epoca reconhecer, por falta de mais dados no mundo musical. A musica estava ape-
    nas comecando a ser entendida e compreendida!

  2. Eliel disse:

    A voz de Vicente Celestino me impressiona. Dos cantores que podem ser tratados como populares, Rayol e os saudosos Francisco Alves, Nelson Gonçalves e Cauby são os que, juntamente com ele, mais me chamam a atenção. É difícil escolher o melhor.

    Belíssimo texto, aliás!

  3. Fernando disse:

    Ótimo texto sobre um dos melhores cantores brasileiros da história. Porém, apenas uma correção. Caruso não tinha a mesma idade do Vicente, ele era 21 anos mais velho. Vicente cresceu ouvindo Caruso que começou a gravar muito por volta de 1900 quando o Vicente ainda era criança.

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