A anti-canção Revolution 9

Ouvindo o Álbum Branco, meu preferido dos Beatles. Sei que entro em terreno perigoso aqui, cada um tem seu preferido, as análises divergem, mas assumo o risco de fazer a minha. Fiquei muito tempo entre este e o Sargent Pepers. Hoje, tenho a impressão de que o Sargent Peppers é, digamos, barroco, e o Álbum Branco é clássico. Ou que o Sargent Peppers está para Memórias Póstumas de Brás Cubas como o Álbum Branco está para Dom Casmurro. Ou seja, o primeiro é um rompimento, uma – vá lá – quebra de paradigma, cheio de detalhes que apontam cada um em uma direção. Cada descoberta sonora dos rapazes parece gritar por atenção, sendo quase mais importantes que as músicas que as abrigam.

Já o Álbum Branco me soa o momento em que todas estas novidades se incorporam de verdade ao processo criativo. Não há mais a impressão de “atirar para todos os lados”, ainda que continuem as descobertas. O álbum me parece mais homogêneo musicalmente – de se espantar, já que é duplo -, as peças me parecem estar mais no lugar, a serviço das canções que os garotos eram mestres em fazer, ainda que a avaliação posterior de Lennon seja de que o disco é “John e uma banda de fundo, Paul e uma banda de fundo” etc. Se a cara do Sargent Peppers é ter todas as caras, a do Álbum Branco é não ter cara, como fica explícito em suas capas: uma povoada por uma multidão e com um nome fictício, a outra sem nada, nem mesmo o nome da banda (só mais tarde passou a ter o “The Beatles” em relevo no LP).

(Parêntesis para histórinha: uma vez, numa aula de canto, assisti a alguns alunos que preparavam repertório do compositor inglês John Dowland… do século XVI. Fiquei espantadíssimo ao perceber que trechos inteiros das peças para canto e alaúde tinham uma sonoridade muito próxima dos Beatles. Dei-me conta então de como as canções deles tem a capacidade de ressoar muito, muito fundo, fazendo o amálgama do ritmo “negro” do rock com três séculos de tradição da canção.)

Come Again, de John Dowland, com Sting e Edin Karamazov

For No One, Beatles.

(Imagine os arranjos destas duas canções trocados entre si. Depois, sigamos.)

Mas então, o que faz Revolution 9 quase no fim deste álbum? A primeira audição desta colagem musical dá a impressão de defeito no disco, ou de uma brincadeira de mau gosto. Mesmo sabendo que a faixa não é algo absolutamente inédito e que usa técnicas da música experimental concreta da época (Stockhausen, por exemplo), a música parece um corpo estranho no disco, como um borrão no canto de um quadro de Rembrandt. O que faz a coisa mais distante possível de uma canção no meio de um punhado de canções?

Ora, exatamente isto. John Lennon (seu autor, junto com Yoko Ono. A autoria Lennon/McCartney se deve ao antigo trato dos dois) a colocou ali, contra a vontade de Paul, possivelmente para ser o contraponto do álbum. No entanto, Revolution 9 faz referência em seu título à música que o abre, Revolution 1, e, mesmo se terem nada em comum tematicamente, partiu de um take não aproveitados dela sua construção. Tem também pedaços distorcidos ou tocados de trás para frente de várias outras canções do álbum, misturados e quase indistinguíveis, além de conversas do produtor do grupo George Martin, de Yoko, de George Harisson. Ou seja, é uma não-canção que se alimenta das canções do disco, como um sonho de alguém que vivenciasse sua produção.

Lennon, em 1974, gravou #9 Dream, em que canta o seguinte:

On a river of sound
Thru the mirror go round, round
I thought I could feel
Music touching my soul, something warm, sudden cold
The spirit dance was unfolding

Há controvérsias sobre se #9 Dream teria mesmo relação com Revolution 9 (Lennon, nascido num dia 9, gostava mesmo do número), mas a idéia de “um rio sonoro girando no espelho”  e a atmosfera de sonho explícita em ambas as músicas – de maneiras diferentes, é claro – as aproxima bastante.

Os Beatles foram os criadores de canções por excelência. Até mesmo nos momentos mais experimentais, a arquitetura de suas composições é invejável, a ponto de continuarem até hoje  influenciando bandas (vide Oasis e companhia). Revolution 9 representa uma reação violenta contra as amarras que esta forma lhes impôs ao longo do tempo (talvez também uma reação tardia ao ‘bom-mocismo’), provavelmente a reação mais profunda de todas que tiveram, pois nesta eles subvertem completamente o formato que os consagrou. Usando as canções que criaram, criam a coisa mais distante possível das canções que os eternizaram, como que zombando de si mesmos. Colocada estrategicamente como penúltima faixa do álbum, ela é ao mesmo tempo um clímax e um anti-climax, o ponto de radicalismo extremo e a reversão (ou superação) de todas as expectativas. Por este ponto de vista, ela está exatamente no lugar em que deveria estar.

E esta sensação se confirma para mim na faixa seguinte, a última do álbum. Good Night é, mais que uma canção, um legítimo acalanto composto por Lennon para o filho Julian, então com 5 anos, embalado nas cordas mais suaves que se possa imaginar. Depois do tremendo mergulho no caos, os rapazes foram piedosos com o ouvinte, consolando-o pelo mundo sem sentido que já constatavam na primeira faixa, Revolution 1, em que dizem “Inclua-me fora disso” para partidários de uma ‘Nova Ordem’. Acordando do pesadelo de Revolution 9, não há nada como ouvir Ringo Starr (logo ele!) sussurando: “Good nigth everybody, everywhere”. Em qualquer tempo, acrescento eu, quarenta anos depois.

Revolution 9

Good Nigth

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