Crítica social na música: procurando pêlo em ovo?

Copio este post do Blog do Ronaldo. O blog está meio desativado, o texto é antigo, mas toca em algo que tenho interesse em discutir, este blog não é jornalístico e não tem obrigação de “gancho” para tratar de qualquer assunto. Trago para comentar depois, como já resolvi transformar em tradição instantânea por aqui. Quem quiser se aventurar, esteja à vontade, claro. Já adianto que não concordo integralmente, acho que o buraco é mais embaixo (o ponto de interrogação no título é meu). Mas ei-lo.

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Algumas décadas atrás era comum fazer música de protesto. Desde Woodstock até Imagine (a canção que mudaria o mundo), passando pelo messianismo do mascote favorito da ONU, Bono Vox. Para não falar nos punks “potrestando contra o sistema”.

Esse tempo passou. Todo mundo se deu conta de que guitarra alguma mudaria o mundo, nem mesmo se fosse incendiada e sodomizada no palco.

Mas ficou um estranho cacoete em alguns: uma necessidade quase patológica de encontrar crítica social em letra de música. Dane-se se nunca foi a intenção do compositor criticar o que quer que seja. Muita gente não aceita outra leitura. É a própria definição de whishful thinking.

Uma vítima certeira desse malabarismo mental é Rogério Skylab. Ele vive enfatizando em entrevistas que não quer saber de política, que não faz crítica social. Nesta entrevista ao UOL ele afirma isso textualmente, é impossível haver ambigüidade. Vejam a transcrição:

(06:19:05) Igres: Rogério, minha mãe é socióloga e, assim como eu, é fã do teu trabalho. Pra você, seu trabalho é mais arte, crítica social ou simplesmente compulsão?

(06:22:19) Rogério Skylab: Igres, destas três definições eu posso garantir o que não é: crítica social. Estou fora da política. O meu trabalho é anti hip hop e anti discursivo. Compulsão com certeza. Arte, acho que é.

E ainda assim, de tempos em tempos surge alguém cantando louvores às críticas sociais dos discos Skylab. Vejam este exemplar, que identifica “uma crítica ácida, violenta, um chute no saco do capitalismo” nas letras. É óbvio que a pré-disposição do cara em chutar o saco do capitalismo é tamanha que ele vai enxergar isso até na obra de Mises.

O pior é que essa mistificação pega. Confesso que eu mesmo, quando ouvi Amo muito tudo isso pela primeira vez, achei que fosse uma crítica ao McDonald’s. Nada disso. Skylab, na mesma entrevista, nega essa intenção, afirmando que adora ir ao McDonald’s.

Ele tem consciência de que a música, uma vez criada e lançada, foge ao controle do criador. Sua obra nunca foi criada como humor, mas nas entrevistas ao Jô a platéia ri o tempo todo (a platéia do Jô sabe fazer alguma coisa a não ser rir?). Faz parte do jogo. Botou no mundo, não é mais seu.

Ao final da perspicaz resenha, o blogueiro supra-citado conclui: ” A música de Rogério Skylab é realmente Fora da Grei!!!”.

E é mesmo. Fora, inclusive, dessa grei esquerdofrênica que não consegue passar 5 minutos sem “potrestar” contra o sistema.

Amo muito tudo isso – Rogério Skylab

P.S. Para registro: Este blog chegou hoje à marca de 1000 visitas. Obrigado pela preferência.

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4 comentários em “Crítica social na música: procurando pêlo em ovo?

  1. Há tempos, pelo menos desde que comecei a me intitular escritor, deixei de tentar descobrir sentido na criação artística e cultural de outros autores. Percebi que o fazia pré-disposto a encontrar críticas sociais ou mensagens implícitas, deixando de lado a poesia pura repassada à obra no instante de sua criação.

    A arte é livre. A crítica também. Mas isto não significa que as duas coexistam intrinsicamente uma a outra.

    Meu pensamento hoje é muito mais liberalmente artístico quando ouço atentamente alguma música. E assim sou mais feliz…

    Ou não…

  2. tuliovillaca disse:

    Fala, Guru. Acho que o importante no fazer artístico é que as coisas estejam a serviço dele, e não o contrário, então fazer música “para criticar” (ou para qualquer outra coisa), em geral só serve mesmo para empobrecer a música.
    Agora, não concordo que não haja crítica. Só acho que as análises que o Ronaldo e o Skylab rechaçam são rasas como um pires. Crítica há, mas passa longe da “música de potresto”… Bem, amanhã ou depois vou botar um texto maior sobre o assunto. Abração.

  3. Concordo que haja “crítica” e “protesto” na criação artística desde que estes sejam fruto de uma espontaneidade criativa, como você bem descreveu em seu comentário.

    Em relação ao Skylab, pouco conheço de seu trabalho e o que já ouvi não me agradou muito. Comentei seu/Ronaldo “post” por ter me identificado com a situação, tendo por vezes sido criticado por tratar de temas sociais e políticos em alguns de meus textos, sendo que isto nunca passou por minha mente ao escrevê-los. Em relação à arte, tudo deve fluir naturamente, sem pré-disposições. Senão não é arte.

    Ontem assisti na TVE um programa sobre Vinicius onde ele falava em uma entrevista porque havia ressucitado o soneto como forma de poesia. Ele dizia que o soneto era o que dava mais liberdade à poesia dentro da prisão que representava.

    Imaginem o que os “esquerdofrênicos que não conseguem passar 5 minutos sem “potrestar” contra o sistema” diriam se tivessem assistido a essa entrevista…

  4. todos devemos ajudar um ao outro ; pois sem ajuda não somos nada.

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