Por que analisar música popular?

Philip Tagg é pesquisador de musicologia, professor da Faculdade de Música da Universidade de Montreal, e – o que importa aqui – autor de um método de análise da música popular que leva em consideração todos os seus detalhes – letra, melodia, interpretação, arranjo, baseado no conceito de musemas – análogamente aos fonemas, que são as partículas elementares da formação das palavras (em termos fonéticos), os musemas seriam as menores partículas com significação da organização musical, e, ao isolá-los e analisar sua combinação, é possível fazer descobertas surpreendentes. Sua análise da música da abertura da série televisiva Kojak e, mais tarde, da canção Fernando, do grupo ABBA, trouxeram-lhe reconhecimento no meio acadêmico, e popularizaram seu método.

O que transponho aqui são trechos do início de um artigo dele, publicado em 2003 numa revista especializada. A tradução para o português é de Martha Tupinambá de Ulhôa, professora da Uni-Rio com quem tive aula, e uma das que levam adiante estes estudos no Brasil. Devo trazer mais escritos dele aos poucos (incluindo análises, se der), assim como de outros como Luiz Tatit, que criou um método de análise mais simples e muito interessante, baseado apenas em letra e melodia, e talvez  mais aplicável à canção brasileira de MPB.

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Um dos problemas iniciais em qualquer campo de estudo novo é a atitude de incredulidade que se encontra. O estudo sério da música popular não é uma exceção à regra. Ele é sempre confrontado com uma atitude de suspeita irônica sugerindo que há qualquer coisa estranha em levar “diversão” a sério ou achar “graça” em “coisas sérias”. Tais atitudes são de considerável interesse quando se discutem os propósitos e métodos de análise da música popular e serve como uma introdução excelente para este artigo.

Ao anunciar a primeira Conferência Internacional de Pesquisa da Música Popular, ocorrida em Amsterdan, em junho de 1981, o The Times Diary imprimiu a manchete Going Dutch – The Donnish Disciples of Pop (nota do Túlio: há dois trocadilhos aqui. Dutsh significa holandês, mas pode também ser uma escrita indecifrável; donnish pode ser sério, mas também emproado. Então a manchete está entre Na Holanda, os sérios estudiosos do Pop, e Indecifrável – os pretensiosos estudantes do Pop). A julgar pelo generoso uso de aspas, sics e expressões do tipo “acredite se quiser”, o redator do Times estava um tanto intrigado pela idéia de pessoas se juntarem para discutir seriamentesobre um fenômeno que a mente comum ocidental provavelmente passa em torno de 25% de sua vida registrando, monitorando e codificando. Deve-se acrescentar que o The Times estava ainda mais incrédulo sobre a publicação “O Anuário da Música Popular (sic)” (o sic é do jornalista), no qual este artigo “sério” sobre algo “divertido” iria aparecer.

Ao anunciar a mesma conferência sobre a pesquisa da música popular, o New Musical Express foi tão espirituoso e mordaz que o trecho merece ser transcrito na sua íntegra:

Enquanto isso, no final de semana em Amsterdan, altas cabeças dos quatro cantos da Terra (Sid & Doris Bonkers) vão se encontrar para a primeira Conferência Internacional de Pesquisa da Música Popular na Universidade de Amsterdan. No intervalo de festas de queijos e vinho, jovens homens e mulheres sérios com barbicha e óculos discutirão assuntos tão vitais quanto “Deus, moralidade e significado nas canções recentes de Bob Dylan”. Vai ser de morrer de rir…

(outra nota do Túlio:  Sid & Doris Bonkers são uma piada referencial. São personagens criados por uma revista satírica inglesa, os dois únicos torcedores de um time fictício. Aí, toda vez que alguém quer ironizar uma quantidade de público, usa este artifício. Aqui no Brasil, corresponde aos 17 leitores e meio do Agamenon Mendes Pedreira – um é anão)

(…)

Essa convergência de opinião entre tais companheiros improváveis como o The Times e o NME sobre a incongruidade imaginada da música popular como uma área de estudos sérios implica em pelo menos uma de duas coisas: ou a música popular é tão desprezível que não possa ser levada a sério (improvável, uma vez que jornalistas pop obviamente dependem da música popular para sua sobrevivência), ou os acadêmicos estão tão sem jeito – resmungando distraídos longas palavras latinas, usando becas em suas torres de marfim – que a perspectiva de eles tentarem lidar com algo tão importante quanto a música popular é igualmente absurda. Entretanto, o The Times e o NME não estão sozinhos em questionar a habilidade da intelectualidade tradicional em lidar com música popular. Aqui eles juntam forças com um grande número de músicos, intelectuais e acadêmicos interessados em música.

(…)

Estudar a música popular é uma questão interdisciplinar. A musicologia ainda está atrasada em relação a outras disciplinas na área, especialmente a Sociologia. O musicólogo está, assim, em vantagem e desvantagem. A vantagem é que ele pode se basear na pesquisa sociológica para dar à análise uma perspectiva apropriada. De fato, deve-se colocar, de início, que nenhuma análise do discurso musical pode-se considerar completa sem a consideração dos aspectos linguisticos, econômicos, históricos, técnicos, rituais, gestuais, visuais, psicológicos e sociais relevantes para o gênero, função, estilo, situação de (re)performance e atitude de escuta conectado com o evento sonoro sendo estudado. A desvantagem é que “análise de conteúdo musicológico” no campo da música popular é uma área subdesenvolvida e algo de uma conexão meio perdida.

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