A Gaiola das Cabeçudas e a Análise Musical

O humorista Marcelo Adnet comanda o programa Comédia MTV, onde eventualmente são apresentados clips criados pelo programa. Na linha de humor do grupo inglês Monty Phyton, influência confessa, costumam misturar referências díspares, como colocar na voz de gangsta rappers canções de témática infantil. Então, há algumas semanas, apresentaram a Gaiola das Cabeçudas:

Vendo este vídeo (e rindo um bocado), fiquei pensando no artigo abaixo, que mostra as reações de incredulidade da imprensa a uma Conferência de análise de música popular, e fiquei pensando o porquê disso.

A verdade é que música popular é algo muito recente historicamente, e isto porque a forma principal de sua propagação é recente também. A música chamada clássica tem na partitura sua forma original de registro; a chamada folclórica tem como caracterísitca a transmissão oral, boca-a-ouvido, pai-para-filho. A primeira tem autor definido, a segunda não. A música popular fica onde?

Bem no meio do caminho. A música popular tem autor, mas seu registro por excelência não é a partitura, e sim a gravação. E esta tem apenas pouco mais de um século de existência. Isto não quer dizer que não houvesse música popular antes. Chiquinha Gonzaga compunha canções para musicais; quem gostava, comprava a partitura para canto e piano e tocava nos saraus. Era o máximo que se podia conseguir, e o sucesso da canção se media pelo número de partituras vendidas. Só com a gravação e a rádio difusão é que a canção popular – não folclórica – vai alcançar novos públicos.

E daí? Daí que, ao longo do tempo, foi criada toda uma técnica de análise voltada para a composição clássica, extremamente desenvolvida hoje em dia; para a música folclórica logo se movimentaram os antropólogos, e criou-se a disciplina da etnomusicologia (nome que não me agrada, mas enfim…). E para a música popular… O que fazer com a música popular? Em que gaveta ela entra?

E aí a música popular virou uma filha enjeitada, ou talvez como a fábula do corvo que queria ser pavão. Não era aceito entre os pavões porque era preto, nem entre os corvos com aquele rabo postiço. A música popular não se presta à análise da forma pela escrita na partitura, porque esta é só uma base para o ato da interpretação, e pode mudar de milhões de maneiras, até ficar quase irreconhecível (vide improvisos de jazz, só para dar um exemplo). E não é folclórica não apenas porque porque pagam-se direitos autorais (às vezes não…), mas porque há nela uma visão individual de mundo. Das milhões de interpretações de uma canção popular, todas, em tese, partem do mesmo ponto de partida. Já numa canção folclórica, cada interpretação parte da interpretação anterior, o que leva à sua mutação constante.

Tive uma namorada (cujo nome calo para não envergonhá-la pelo que vou contar) que só ouvia rock. Quando mostrei um disco de Alceu Valença a ela, reagiu indignada: “Não gosto de música folclórica!”

Absurdo? Mas não nos parece tão absurdo chamar de “maestro” um músico popular muito talentoso. Tom Jobim, está combinado, era o “Maestro”, mesmo tendo conduzido de fato uma orquestra pouquíssimas vezes na vida, e sempre em arranjos orquestrais de obras suas. Ora, arranjos orquestrais de música popular são… música popular. Maestro, mesmo significando “mestre” em italiano, não é um título de nobreza, é um cargo. Tom Jobim foi um genial músico popular.  Não foi maestro. Poucos pensariam em chamar de “maestros”, em italiano, os diretores (mestres) de bateria das escolas de samba, ou Neguinho do Samba, coordenador do Olodum e criador do rítmo samba-reagge, pessoas que conduzem grupos orquestrais de proporções e complexidade sinfônicas. Ah, mas a música que produzem está mais “próxima” da folclórica…

(Já a palavra “mestre” aplicada à arte popular tem uma acepção talvez mais apropriada, já que neste caso o saber é realmente ensinado diretamente. O artista neste caso é também sempre professor. Interessante ver a mesma palavra aplicada com significados diferentes em cada caso. Mas digressiono.)

Falta agora a pergunta: o que este vídeo com uma paródia de funkeiros fazendo um monte de citações eruditas de araque tem a ver com esta história? Ora, é uma resposta malcriada aos que consideram a música popular simplória, “pouco profunda”, sem interesse acadêmico, que acham que ela não estaria à altura de uma investigação intelectual. Tomando o estilo de música mais estigmatizado de todos, para muitos sinônimo de música baixa, grosseira, de última qualidade, e acrescentando à força nomes e mais nomes de referências intelectualizadas, Adnet faz ao mesmo tempo humor nonsense, escrachado e poderosamente irônico. É como se a música perguntasse aos acadêmicos: “Tá bom de intelectual pra vocês?” Esgarçando até o limite do absurdo a dicotomia erudito/popular, Adnet explicita o quanto esta dicotomia pode ser absurda ela mesma, ao pretender criar uma hierarquia na produção artística e ignorar a via de mão tripla entre estas categorias, desde sempre. O que já é assunto para outro dia.

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