Bossa-Nova Totalflex

Uma vez fui parado no Largo da Carioca por uma equipe de reportagem do programa Afinando a Língua, que é apresentado pelo Tony Bellotto no Canal Futura. O programa não é exatamente dedicado à música, antes usa letras musicais para estudar a língua portuguesa. A pergunta que me fizeram: se eu já havia aprendido uma palavra nova ao ouvir uma canção, e qual.

Não sei se a resposta que dei chegou a ser aproveitada. Mas a pergunta serviu para fazer ali mesmo um paralelo de que gostei. Lembrei de Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, em que se canta:

Fotografei você na minha RolleiFlex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Não tinha a menor idéia do que seria uma RolleiFlex, uma câmera fotográfica profissional e sofisticada,  quando conheci a música. Anos depois, soube também das circunstâncias em que esta música foi composta, como resposta aos críticos da nascente Bossa-Nova, e que Tom e Newton riam às gargalhadas dos versos “mudernos” que iam criando, este em particular.

Anos depois, ouvi Navilouca, do primeiro álbum de Pedro Luís e a Parede, em que ele canta:

Fotografei você na minha DragoFlex
De olhar aceso esperando por mim

Pronto, embatuquei de novo, até descobrir que se tratava de um tipo de cama dobravel, feita de armações de metal, molas e cobertura de lona.

Esta foi a resposta que dei. Agora, se foi aproveitada, talvez tenha sido possível perceber uma sutileza da citação do Pedro Luís. No verso original de Desafinado, a RolleiFlex, estando nas mãos de quem fotografa, tem também uma proximidade semântica com ele, sendo um adjunto do sujeito. Já em Navilouca, a DragoFlex está próxima semanticamente (e fisicamente também) à fotografada, e portanto é adjunto do objeto em termos sintáticos. Isto por causa da troca de metade de uma palavra. E acompanhando a análise sintática, a narrativa amorosa também se inverte: de Bossa-Nova de desencontro amoroso, ainda que farsesca, converte-se em promessa de encontro.

Como também Pedro Luís promove diversos encontros nesta canção, tocando bossa na guitarra, colocando no título a revista de poesia fundada por Torquato Neto e Wally Salomão, que teve um único número que Torquato não chegou a ver – suicidou-se antes. Na letra, na melodia, no arranjo, na interpretação que sobe uma oitava e passa ao grito na segunda vez, Pedro Luís faz da Bossa-Nova pedra rolando. Se o Tony Bellotto se interessar, fica a dica.

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