Asfixia da Música Carioca

Peguei este artigo-quase-um desabafo do blog Objeto sim, Objeto não, do Fred Coelho, que já indico na lateral deste blog. Trago porque o fomento da cultura não depende sempre apenas de fazer cultura. Ou porque talvez seja bom discutir o que é mesmo fazer cultura.

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Trilha sonora: “Nêgo, eu to cansada dessa merda. Da minha liberdade clandestina. De estar no meio dessa briga. Da gente estar se apertando. Da ignorância ensandecida. Se esquivando de estatísticas”.

Close: Esses são alguns dos primeiros versos da canção da mui sub estimada banda Eddie (que fez um clássico que pode tranquilamente ser ouvido uma vez por semana eternamente chamado Olinda Original Style) chamada emblematicamente “Eu to cansado dessa merda”.

Argumento: Eu ouço como se fosse o Rio d’Janira falando conosco nas ruas e bares e festas e lares ocupados por fraternidades e famílias de amigos. O papo é simples: as (parcas) casas de show fecham. Simplesmente são DRAGADAS pelo mercado imobiliário, transformadas em prédios sem memória, com vidros verdes nas varandas e salas de ginástica. E assim a cultura musical da cidade – GIGANTESCA – se restringe aos mesmos circuitos, satura os mesmos espaços, canibaliza pelas mesmas pistas. Não há como entender a produção cultural de uma cidade sem entendermos como sua vida noturna funciona, não podemos achar que somos capital cultural sem espaços de PRODUÇÃO E INVESTIMENTO INOVADOR NO RISCO. O Rio está asfixiando culturalmente não do ponto de vista inventivo / criativo / propositivo. O Rio está asfixiando do ponto de vista da circulação e difusão de sua população. Falemos apenas de um ponto, de uma asfixia: o caso da música carioca.

Foco: desde o fim do Ballroom a Zona Sul carioca era carente de um palco pequeno, bem localizado, em que novas bandas pudessem experimentar. A banda que eu tive no fim do século XX, a Máquina do Mundo, tocou no Ballroom. Duas vezes. E na mesma época Chico Sciense fez um show avassalador lá. Mundo Livre lançou seus discos. Pedro Luís e sua Parede lançaram com bela festa seu Astronauta Tupi. A Orquestra Imperial se inventou. São espaços assim que criam CENAS, que fomentam PARCERIAS, que propiciam o RISCO fundamental na criação piração estética artística poética. O Cinemateque, mesmo com seu pouco espaço, voltou a proporcionar isso. E já acabou. Bandas fizeram residências, muitos e muitos desconhecidos tocaram no palco que muitos e muitos grandes nomes também pisaram. Uma galera estava começando a mergulhar no prazer de ter um espaço seu, de encontro e troca de músicas. E acabou. E pronto. Igual ao Ballroom.

Aí fecham também a Estrela da Lapa que, mesmo sem ser uma casa de referência, era uma casa de shows na Lapa cuja programação não era voltada majoritariamente para o samba, um local para novos trabalhos. Foi-se, para dar lugar ao “Bar da Boa”. Vamos bem, deixa estar, põe mais um osso na sopa e deixa andar…

Onde fazer shows no Rio, nessas condições, hoje em dia? Onde tocar sem ser nas grandes casas de telefonia ou cartão de crédito ou megarenas etc e tal? E não podemos mais contar com o Circo Voador, onde a programação está cada vez mais internacionalizada no vácuo dos festivais de segundo semestre no Rio e na rebarba das atrações tocando em São Paulo. A Fundição Progresso também já traz uma programação de massas, sem poder atender shows para 150, 200 pessoas. Tornou-se também uma mega arena. Então, onde tocar? O Odisséia ainda é uma alternativa, mas é grande para as bandas que se arriscavam no Cinemateque. Sérgio Porto, com programação sempre no vai não vai, sem continuidade por questões políticas; Pista 3, apertado e e não foi pensado como casa de show, onde bandas fazem na raça e no amor ao rock; O pequeníssimo Espaço Multifoco é uma alternativa? O novo Bola Preta com seu pé direito imenso e sua história no samba abrigará o rock e a nova música? Tem o novo teatro do Oi Futuro Ipanema, que está se estabelecendo como novo espaço de shows, mas no esquema teatrão. Tem também os palcos como Teatro da Caixa Econômica, mais ao centro, provavelmente comprometido com outras prioridades do que novas bandas, assim como no CCBB. Enfim, onde grupos novos ou músicos de público sólido, porém pequenos podem tocar hoje em dia no Rio? A carência de palcos é GRITANTE na cidade mais musical do país. Ou Melhor, será que ainda somos? Questões de sociologia da cultura e de ação política (ou falta de).

Contraste: capa do segundo caderno de segunda-feira: a cena de São Paulo. Veja bem, não é a cena paulistana, é a cena da cidade de São Paulo porque vários músicos de SP não são paulistas. Estão em SP porque, entre outros motivos, lá se pode trabalhar, se constituiu um circuito, formou-se um público, desdobrou-se em gravadoras e selos, transformou-se em álbuns sensacionais, expandiram sua cena para o Brasil e o mundo. Simples. E por que? Porque tinham um local, alguns locais, como o Studio SP, que permitiu que esses até outrora desconhecidos se apresentassem frequentemente. Aí formam bandas entre eles, criam músicas juntos, colaboram constantemente nos discos uns dos outros. Constitui-se um MOVIMENTO a partir dessa MOVIMENTAÇÃO que é proporcionada, entre outros fatores, pelo espaço do risco disponível para os novos. São Paulo é a capital cultural do país?

Não digo que nada disso não ocorra na nossa cidade. A banda Binário se desmontou em uma série de outras bandas e trabalhos como Lettuce, Ordinário Groove trio, Rabotinik, que se aproximam da cena ao redor do Amor, de Nina Becker, Silvia Machete, produzindo o mesmo efeito que o desmonte do Acabou La Tequila fez anos atrás, desaguando em + 2, Canastra, Autoramas, Nervoso e outras e outras bandas. As parcerias existem, mas a cena é breve, é endógena, não se expande. Aliás, se expande em São Paulo, como o caso dos Autoramas, sucesso mundial, turnês européias e nenhum lugar com público para tocar no Rio. Por que? As pessoas trabalham, produzem, criam, mas ficam guardados em breves shows em poucos espaços com poucas pessoas. O que fazer?

Rumo a uma nova visão.

Eu tô cansado dessa merda – Banda Eddie

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