E o que que deu? Funk na cabeça

Em algum momento de 1991, assisti uma passagem de som de Jorge Ben Jor. Grande coisa, dirão. Mas tive a oportunidade de ver um momento de virada na carreira dele e da música brasileira em geral sendo gestada.

Ben Jor havia mudado de nome havia dois anos. Havia lançado um álbum (chamado Benjor, ainda junto, e por sinal muito subestimado) que não fizera sucesso quase nenhum. Aliás, não fazia muito sucesso havia tempo, andava meio que no ostracismo. A grande descoberta do sambalanço – ou samba-rock, como ele mesmo preferia, feita na década de 60, parecia distante. Seguidores como Bebeto passaram a fazer mais sucesso que ele reciclando e arredondando seus clichês (praia e sol, Maracanã, futebol, domingo). Em Verdade Tropical, Caetano lembra o álbum de 1967 de Jorge Ben, O Bidu – Silêncio no Blooklin, e o impacto que teve nele e em Gil (leia o trecho integral aqui):

O que ele fazia agora era um uso da guitarra elétrica que ao mesmo tempo o aproximava dos blues e rock e revelava melhor a essência do samba tal como ela podia manifestar-se nele.

Porém, em 1991, as descobertas ritmicas que haviam causado tanta polêmica anos antes pareciam assimiladas. Até que ouvi o que ouvi. Era uma base funqueada de apenas dois acordes, que ia se estendendo indefinidamente, pontuada por metais na melhor tradição de James Brown. Só que algo mais lenta, mais balançada, mais… samba? Mais Jorge Ben. Agora, Ben Jor. Sobre esta base, ele ia improvisando para testar o som, cantando trechos de várias músicas, inclusive do álbum de 89, além de outros versos que eu não conhecia, com referências ao noticiário  político da época, entre muitas outras coisas.

Mas o que me impressionou foi exatamente o ritmo, que era decididamente algo novo. Uma mistura de várias coisas exatamente no ponto em que nenhum deles sobressaia, a não ser o funk, o tempero que dava um gosto especial. Percebi que o Jorge Ben havia se reinventado em Ben Jor, incorporando um elemento novo à sua música atualizando a síntese que conseguira fazer mais de 20 anos antes. Apesar de curiosíssimo, não pude ficar para o show (era um evento na Fundição Progresso com múltiplas apresentações, de uma das quais fiz parte). Mas fiquei esperando, porque aquilo ia aparecer mais cedo ou mais tarde.

Não deu outra. Já deve ter ficado claro de que música estou falando. W/Brasil,  feita de encomenda para uma agência de propaganda, tem uma letra que se caracteriza pela justaposição de referências e que, ouvida retrospectivamente, revela-se um bocado corajosa. Ben Jor faz uma junção (só) aparentemente inusitada de registros político/elitista com outros populares e até gírias do tráfico de drogas. Collor, então enfrentando o processo de impeachment, é chamado com sarcasmo de “o belo” e retratado como surfista de trem, e Bernardo Cabral, o Ministro da Justiça que teve de pedir demissão quando foi descoberto seu caso com a Ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, é alvo de gozação. É a contraposição de dois mundos, o de uma política que parece não ter relação com o real, e o real propriamente dito (a Feira de Acari, famosa na época por vender produtos roubados e contrabandeados e saudada na letra ironicamente como “um mistério”). E, como se não bastasse, popularizando o apelido de síndico para Tim Maia.

Mas não foi isso, e sim a descoberta rítmica da levada de dois acordes, que fez de W/Brasil um sucesso estrondoso ao ser lançada no álbum Live in Rio, em 1992, e recolocou Ben Jor no lugar que lhe cabe, de criador e recriador do Samba Esquema Novo (nome seu primeiro álbum). W/Brasil é um ponto de inflexão para a música brasileira na década de 90 em diante, que influenciou desde os péssimos grupos de pagode surgidos a partir de 94, sucessos para os novos públicos que compravam discos devido ao Plano Real, até uma nova turma que despontava no Rio como Planet Hemp e Farofa Carioca, como a chave da porta entregue a quem chegou depois. Em todos os cantos pode-se ouvir os ecos da levada de W/ Brasil até hoje. Foi quando o samba-rock virou samba-funk. E ficou claro que ele pode virar samba-qualquer coisa que se queira. Desde que haja alguém como o Benjor para acertar o ponto.

W/Brasil – Jorge Ben Jor

Uma análise de Mas que Nada, canção do primeiro álbum do ainda Jorge Ben, pode ser lida em O samba esquema novo de Jorge Ben Jor,  de Alam D’Ávila do Nascimento, clicando aqui.

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12 comentários em “E o que que deu? Funk na cabeça

  1. Fala Túlio!!
    Curti o texto do Guinga-Jobim! Faz todo o sentido isso que vc fala… O do Jorge Ben, que é um dos meus grandes ídolos, tá bacana também. Gosto muito do modo com seu blog abre espaço para outras páginas e sites. E é impressionante como vc produz com rapidez!
    Tô acompanhando com prazer!
    Grande abraço!!
    Paulo.

  2. Nandra Bites Rios disse:

    Precisava de uma explicação sobre essa música para um documentário jornalítico e encontrei!!!!!!!!!!!! Muito obrigada! Nandra Bites

  3. Susana disse:

    Show, Túlio!
    Parabéns pelo trabalho.
    Estou fazendo um estudo sobre a hibridização de culturas em Jorge Ben, falar desse cara é sempre bom, né =D
    Abraço.

  4. Fernando Proença disse:

    Há uns dias ouvi W Brasil e parei pra tentar dar sentido aos versos, alguns são meio óbvios mas teu texto foi muito esclarecedor. Parabéns

  5. Fernando Proença disse:

    Só continuo com uma dúvida, quem é a tia Léia?

    • Fernando, essa é difícil. O que eu achei foi a seguinte referência: Seria Léa Penteado, que, em 1992, como secretária de eventos da cidade do Rio de Janeiro, o escalou para um show de aniversário da cidade. Ao saber que ela teria que percorrer cinco bairros de helicóptero, o Benjor fez a brincadeira com ela na música. Foi o que ele afirmou numa entrevista na revista Capricho. Ou seja, mais uma das piadas referenciais internas da canção, mas que, como várias outras, acaba explicitando contradições diversas. Abraço e volte sempre.

  6. Fernando Proença disse:

    A explicação faz todo o sentido, obrigado.

  7. Gabriel disse:

    Nossa, agora eu consegui entender a letra. Na primeira vez que ouvi eu achei engraçado e sem sentido. Mas agora começo a entender que Jorge Bem Jor é simplesmente fantástico.
    Obrigado Túlio

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