Jazz, choro e uma pergunta

Já ouvi diversas vezes a afirmação de que o choro teria no Brasil uma, digamos, função, análoga à do jazz, por suas características propícias à improvisação. Seria o estilo musical popular instrumental por excelência, bom para separar os homens dos meninos. No entanto, sempre impliquei um bocado com esta sentença.

E isto porque jazz e choro tem, não apenas histórias, mas também formatos e desenvolvimentos destes formatos completamente diferentes. Em comum, o fato de terem surgido no mesmo momento histórico – a virada do século XX – a partir da fusão de música negra, vinda dos escravos na América, com européia. Mas a partir daí só encontro divergências.

O Jazz é um camaleão, um estilo musical em constante mutação. Desde o ragtime e a fase de Nova Orleans, ele já passou pelo swing, pelo bebop, pelo cool, já se tornou elétrico e se misturou com diversos outros estilos musicais, da bossa ao rap. Um tema de jazz é tão bom quanto for mais premissivo para a improvisação, embora a canção seja extremamente bem vinda. O jazz testou o modalismo, tornou-se experimental, chegou ao atonalismo, enfim, abriu-se e expandiu-se.

Enquanto isso, o choro é, em termos formais, praticamente o mesmo que era no século XIX, nos maravilhosos temas de Ernesto Nazareth. Tive aulas de composição popular com uma pessoa de certo renome na área, que ensinou que o formato admissível é ABACA, sendo que de parte para parte deve haver modulação para tom vizinho. Já sei que vão dizer que é preciso conhecer a forma para melhor desafiá-la – não era no que esta professora acreditava. Tenho certeza de que na Escola Portátil de Música o assunto não é tratado desta maneira rígida. Ainda assim, percebo que muito pouco se ousa em termos de composição nesta área. Muito menos do que Pixinguinha ousou ao compor Carinhoso, um tema tão diferente da maioria das composições da época que ele nem o gravou, e que só veio a público muitos anos depois.

Não tenho dúvida de que o choro, enquanto gênero musical, está muito vivo em execução, e turmas novas como o Tirapoeira contribuem em muito para isto. Mas noto que o repertório dos dois primeiros álbuns do Tirapoeira é de regravações. O segundo, então, não tem clássicos do choro, mas da MPB, o que dá a impressão de que, para poder variar de formato, eles foram obrigados a sair do choro e ir procurar em outro lugar.

Então, a pergunta: onde estão os novos compositores de choro? Onde estão os novos choros? Deixo no ar, porque não sei a resposta. Se alguém tiver, é favor comentar, mesmo que seja para dizer que estou falando bobagem.

Jupiter, com John Coltrane – do álbum Interestrellar Space

Arabiando, de Esmeraldino Sales, com Tirapoeira

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4 comentários em “Jazz, choro e uma pergunta

  1. Eduardo disse:

    Gostei da abordagem, Túlio. E mesmo sendo leigo, concordo contigo com base no que ouço (e já ouvi) de ambos.

    (Votei no teu Blog no Topblog.)

    Abraço!

  2. tuliovillaca disse:

    Valeu pelo voto, Edu. Olha, depois que eu publiquei o artigo, até lembrei de um chorão que tem conseguido bons resultados em composição, que é o Henrique Cazes. Mas dá a impressão de ser alguém isolado, e mesmo assim, com avanços muito pequenos em perspectiva com o jazz. Pode ser que a comparação seja injusta, por N motivos. Ainda assim, a pergunta permanece. Abração.

  3. gilberto disse:

    Um Choro
    Belo Horizonte: Godofredo Guedes e Beto Guedes
    da página do relâmpago elétrico.

    Muito bom o seu blog.
    O meu é uma mera lista do youtube sem pretensão.

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