Desliga isso, menino! Isso não é música!

Qual foi a última vez que você ouviu esta frase? A que tipo de música (ou não-música) ela se refere? Será mesmo que este “menino” é uma criança?

Historicamente, a infância é algo que só ganhou importância há cerca de duzentos anos, se tanto. Porém, ao longo do século passado, surge uma nova fase etária: a adolescência. No romance da americana Harper Lee O sol é para todos, passado nos anos 30, a menina Scout, de 8 anos, fica furiosa ao ver a empregada chamar o irmão de 13 anos de “Mr. Jem” pela primeira vez. De repente o Jem se torna Mr. Jem sem passagem intermediária.

Nos anos 50, aparece algo novo: o rock’n roll. Este estilo musical veio acompanhado de uma série de outras manifestações, que incluíram moda, dança, linguagem, e mais tarde mesmo literatura, cinema e artes plásticas foram influenciados. E seu público maior, praticamente desde o início, foi o jovem – a adolescência era então recém-inventada. Terá sido esta a primeira vez em que a frase do título foi ouvida?

Chuck Berry – No particular place to go

Hoje, temos diversas outras manifestações voltadas para o público adolescente ou mesmo feitas por ele, e que podem causar esta mesma reação. Entre elas, o hip-hop foi uma que tomou a frente em termos de visibilidade. Em comum com o rock, há o fato de terem surgido a partir de manifestações da cultura negra, serem usados como forma de protesto contra injustiças sociais e se associarem a padrões de comportamento e a diversas manifestações artísticas. Além disso, ambos foram e são o meio de expressão de parcelas da população que não se faria ouvir de outra forma.

Claro que há sempre a tentativa de apropriação destas linguagens de forma comercial e diluída. Isto ocorreu com o rock diversas vezes. O movimento hip-hop tenta evitar isto, mantendo-se “autêntico”, o que muitas vezes tem o significado de “marginal”, ou seja, fora dos meios de comunicação majoritários e em lugares alternativos – o grafite feito em muros, a dança apresentada na rua. Além disso, trata-se de formatos musicais que muitas vezes procuram chocar, pela agressividade com que são trabalhados. Sua justificativa é que apresentam uma realidade muito dura, e que não poderiam ter uma forma divergente do conteúdo que apresentam.

No entanto, uma das características do movimento hip-hop desde que surgiu, na década de 1970, foi o de ser um meio de evitar que a formação de gangues de rua em Nova Iorque se tornasse um indutor da criminalidade. Através de campeonatos de dança em vez de enfrentamentos com armas, artistas como o DJ Afrika Bambaataa, considerado o padrinho do movimento, ajudaram a canalizar a revolta dos adolescentes da região. Pois, no hip-hop, há a preocupação freqüente entre os MCs de uma “conscientização”, política – o que, por um viés educacional, pode ser algo de imensa valia.

A simplicidade da formação instrumental original do hip-hop – uma pickup de som pré-gravado e uma pessoa com o microfone falando no ritmo – tem em si implícita a mensagem do “faça você mesmo” (que já foi o slogan do movimento punk), de que o fazer artístico está ao alcance de quem se dispuser a isto. Até que ponto o protesto e pedido para que desligue o som não é na verdade um protesto em relação ao direito de expressão do jovem?

Tal confronto se dá tanto nos meios de comunicação de massa quanto dentro de uma família ou escola. Nem sempre é agradável numa família de classe média ouvir dentro de casa a mensagem de outra classe cantada pelo filho mais novo. Porém, esta pode ser a chance de uma compreensão mais ampla do universo do adolescente por parte de pais e educadores; e, por parte do jovem, de questões sociais, econômicas, políticas e de seu lugar no mundo.

Racionais – Tá na chuva (chamo a atenção para o diálogo entre dois MCs, um representando o criminoso e o outro, o discurso dos próprios Racionais)

Anúncios

2 comentários em “Desliga isso, menino! Isso não é música!

  1. Eduardo disse:

    Seu último parágrafo me remete à “Pais e Filhos” (Legião Urbana):
    “Você me diz que seus pais Não entendem / Mas você não entende seus pais…”,
    e reflito no quanto é apropriada uma inversão do raciocínio:
    “Você me diz que seus filhos Não entendem / Mas você não entende seus filhos…”

    Sabedoria Belchiorana: “Minha dor é perceber Que apesar de termos Feito tudo o que fizemos Nós ainda somos Os mesmos e vivemos Como os nossos pais…

  2. tuliovillaca disse:

    Verdade, Edu. Mas eu tentei também ir até mais fundo, porque além da questão geracional há a social, a história da classe média repetindo os padrões da baixa (“É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”) e de como a cultura negra precisa ser embranquecida para poder vender desde Elvis Presley até Vanilla Ice (e aí tem a questão racial ainda por cima). Pais muito frequentemente não entendem isso, mas educadores deveriam ter a obrigação de entender. Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s