Eu sou da Lira, não posso negar

Lira Paulistana foi o título do último livro de poesia de Mário de Andrade. Foi também o nome de um teatro e centro cultural – e também selo fonográfico – que concentrou as ações de um grupo de artistas que acabou denominado, meio contra a vontade, de Vanguarda Paulista. Tinham linhas de ação bem diferentes entre si – Arrigo Barnabé com forte influência da música erudita contemporânea, grupos Língua de Trapo e Premeditando o Breque usando o humor, Rumo e Itamar Assumpção apostando numa linha mais discursiva, de maneiras diferentes.

Mas uma coisa percebo em comum de alguma maneira em todos estes: a maneira de usarem os clichês (aliás, o Premê em seu primeiro álbum, Quase Lindo, gravou Mascando Clichê) com absoluta propriedade e virando-os pelo avesso. Todos, ou quase todos, sempre tiveram muita consciência do jogo que é a composição musical, sabendo identificar as peças de montagem e brincar de usar as mesmas e as vezes desgastadas peças de maneira diferente, mas sempre lembrando sem nenhuma vergonha o fato de serem peças velhas, o que dá à musica desse pessoal ao mesmo tempo um estranhamento de coisas familiares – como chegar em casa e encontrar o sofá de cabeça para baixo – e uma verve crítica bem humorada, tom que predomina em todos os artistas que citei, seja exacerbando e caricaturando estes clichês…

Carnaval do Geraldo – Rumo

…seja misturando-os, com uma letra-clichê de um gênero e o acompanhamento-clichê de outro.

Pinga com Limão – Premeditando o Breque

Mas este olhar estranhador tem seu preço: o preço da independência, ou, como a imprensa muitas vezes prefere chamar, da marginalidade. Ao criticar, às vezes abertamente, a mídia cultural e suas escolhas massificantes, e preferência da simplificação da obra de arte em troca de uma pretensa universalização de público, eles automaticamente se colocaram – ou foram colocados – à margem desta mídia.

E é exatamente na época do aparecimento desta turma, na virada da década de 80, que esta mídia vai tomar forma e autonomia no sentido de “criar” os artistas que queria veicular, colocando os critérios mercadológicos bem à frente dos artísticos. Um processo que só se reforçou, desde a época em que se tornou obrigatório para qualquer cantor ou grupo de sucesso gravar canções da dupla Michael Sullivan/ Paulo Massadas, e que deixou de lado os trabalhos que não se enquadravam nas diretrizes das grandes gravadoras e rádios. O resultado desta política vemos aí todo dia, tanto esteticamente quanto na decadência deste modelo de empresa.

Itamar Assupção fez uma das críticas mais diretas a este estado de coisas, na música que abre seu último álbum. Nela, há um diagnóstico preciso da questão da indústria cultural e suas imbricações políticas e econômicas:

Cultura Lira Paulistana – Itamar Assumpção

Algumas frases desta letra lapidar fazem uma análise histórica

A ditadura pulou fora da política
E como a dita cuja é craca é crica
Foi grudar bem na cultura
Nova forma de censura

E, realmente, é no regime militar que acontece a estruturação descrita mais acima, o que renderia estudos socioeconômicos dos processos que levaram a isso, incluindo a concentração de poder nas gravadoras. Chico Buarque experimentou este processo quando rompeu contrato com a Phonogram, gravadora que fazia gentilmente as vontades do regime quanto à censura, e assinou contrato com a Ariola, onde gravou seu álbum Almanaque. Pois às vésperas do lançamento do álbum, a gravadora nacional foi comprada… pela Phonogram! O que levou Chico a compor A voz do dono e o dono da voz, gravada nesse disco. No pano de fundo desta história está a concentração de poder nas mãos as gravadoras por interesse econômico e político – nunca cultural.

Mais adiante Itamar faz uma inusitada previsão, ao afirmar que “Onde era Pixinguinha, Elizeth, Macalé e o Zé Kéti ficou Tiririca pura”. Quando lembramos que Tiririca (que á época acabara de surgir na mídia com a pseudocanção Florentina) hoje é candidato a deputado por São Paulo e que deve ser eleito com recorde de votos, percebe-se que a ditadura agora tenta seu caminho de volta: inicialmente política, tornou-se estética e agora volta à política. Depois que a cultura tornou-se mero espetáculo, vivemos hoje também a espetacularização da política. Como tiririca também é o nome de uma erva daninha, fica clara a opinião de Itamar sobre o assunto.

É possível achar a visão de Itamar saudosista demais, ainda mais ao ouvir um “socorro, Elis Regina!”. Mas a força do trabalho de Itamar, morto em 2003 com apenas 53 anos, nega veementemente esta impressão. Seu último trabalho, gravado com Naná Vasconcelos e lançado postumamente em 2004, reforça esta visão otimista no título: Isto vai dar repercussão. A Lira Paulistana, mais do que apenas protestar, imprime a multilateralidade em suas próprias criações. Pois Cultura sabe que existem milhões de outras culturas.

Mais detalhes da história do Chico aqui.

Artigo Vanguarda Paulista: apontamentos para uma crítica musical, de José Adriano Fenerick – aqui.

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