Repente contemporâneo e outros desafios

O repente nordestino e de seu pai na tradição, o cordel, inspiraram obras não apenas musicais, como O Auto da Compadecida e Morte e Vida Severina. Mas quando se trata de passar o repente para o formato da canção popular, é interessante ver como as características de ambas se amalgamam nas necessárias adaptações.

O repente nordestino se caracteriza pelo improviso, muitas vezes facilitado pelo uso de um mote, ou seja, uma frase que é repetida no fim do verso e que serve de guia na construção. Geralmente o improviso se dá sobre um tema dado com antecedência e que é desenvolvido de forma mais ou menos imprevista, pela óbvia dificuldade de fazer isso improvisando com rima, dificuldade minorada quando é contada uma história com começo, meio e fim conhecidos. Por outro lado, um repente é necessariamente longo, e a capacidade de estendê-lo (mantendo-o interessante, claro) é uma das medidas do talento do cantador.

Com a canção a história é outra. Sua estrutura é muito mais organizada, mesmo sem a presença de um refrão – que até pode existir no repente, como uma folga para o improvisador. Uma canção precisa ser concisa, e portanto não há nela espaço para o lento e elíptico desenvolvimento do cordel. Para compensar, o fato de ser previamente composta dá a ela a vantagem de poder se aprofundar muito mais no que diz, mesmo utilizando a sintaxe poética tradicional.

Um repente pode falar de qualquer coisa, e é muito comum que se fale de assuntos do noticiário. Da última vez que fui à Feira de São Cristóvão, há poucas semanas, encontrei histórias de cordel à venda narrando a história do goleiro Bruno, do Flamengo, e de Elisa Samúdio. E há também os repentes satíricos, em que algo ou alguém é ridicularizado, e descendente talvez das cantigas de escárnio medievais. Bienal, de Zeca Baleiro, escolhe este caminho, e consegue uma junção impressionante: adapta o formato folclórico em música popular para falar de arte erudita – só que, no caso, artes plásticas. Na verdade, sua crítica não se volta contra a arte, mas contra certos artistas mais preocupados com concepção que com composição, e que se descolam da possibilidade de comunicação em prol de experimentalismos. Mas faz isso se colocando como o próprio artista/repentista, e sua crítica ao mesmo tempo devastadora e hilariante e vem bem a propósito no blog, já que a Bienal de São Paulo está acontecendo (mas vem sendo bastante elogiada, ao contrário da do ano passado).

Bienal, de Zeca Baleiro, com ele e Zé Ramalho

Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta

Meu conceito parece, à primeira vista,
Um barrococó figurativo neo-expressionista
Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista
calcado da revalorização da natureza morta

Minha mãe certa vez disse-me um dia,
Vendo minha obra exposta na galeria,
“Meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia
E muito mais feio que um hipopótamo insone”

Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o segundo caderno,
Calcular o produto bruto interno,
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone,
Rodopiando na fúria do ciclone,
Reinvento o céu e o inferno

Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte desmaterializada no presente contexto
Reciclando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana

Com a graça de Deus e Basquiat
Nova York, me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana

Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina

Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria

Zeca Baleiro aproveita bastante das características do repente, inclusive o uso de um vocabulário empolado que normalmente surpreende nos cantadores populares, e que aqui é usado para realçar a inteligibilidade do trabalho do artista plástico/personagem. Mas outra possibilidade da transcrição repente-canção é seguida por Zé Ramalho em seu próprio trabalho, ao cruzá-lo com a poética de compositores do rock como Bob Dylan, ao mesmo tempo se apropriando do formato da peleja, o enfrentamento entre dois personagens que é tema recorrente do cordel, e da temática religiosa e apocalíptica disseminada no Nordeste, conseguindo da síntese destes elementos uma poética coalhada de simbolismos e cheia de desdobramentos inclusive políticos – aliás, uma leitura desta letra tendo em mente as eleições próximas é algo que recomendo fortemente. Não para tentar identificar representantes de Deus e do Diabo entre os candidatos, já que estes são igualados no fim da segunda estrofe, mas para pensar nos “vaqueiros que tangem a humanidade” – tema de Admirável Gado Novo, do mesmo álbum – e no “tom da conversa” que ouvimos nos últimos tempos. E quem tiver ouvidos de ouvir, que ouça.

A Peleja do Diabo com o Dono do Céu – Zé Ramalho

Com tanto dinheiro girando no mundo
Quem tem pede muito quem não tem pede mais
Cobiçam a terra e toda a riqueza
Do reino dos homens e dos animais
Cobiçam até a planície dos sonhos
Lugares eternos para descansar
A terra do verde que foi prometido
Até que se canse de tanto esperar
Que eu não vim de longe para me enganar

O tempo do homem, a mulher, o filho
O gado novilho urra no curral
Vaqueiros que tangem a humanidade
Em cada cidade e em cada capital
Em cada pessoa de procedimento
Em cada lamento palavras de sal
A nau que flutua no leito do rio
Conduz à velhice, conduz à moral
Assim como deus, parabéns o mal

Já que tudo depende da boa vontade
É de caridade que eu quero falar
Daquela esmola da cuia tremendo
Ou mato ou me rendo é lei natural
Num muro de cal espirrado de sangue
De lama, de mangue, de rouge e batom
O tom da conversa que ouço me criva
De setas e facas e favos de mel
É a peleja do diabo com o dono do céu

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