Duplo sentido, se é que você me entende

Estava outro dia numa casa de festas infantil com minha filha, do jeito que estas festas são: salgadinhos gordurosos, animadores infantis que chamam os pais para pagar mico, e aquelas músicas que não tem nada de infantis, como Beyoncée e Michael Jackson. Até que em determinado momento começou tocar um refrão do grupo Exaltasamba que dizia:

O jeito é dar uma fugidinha com você
O jeito é dar uma fugida com você
Se você quer
Saber o que vai acontecer
Primeiro a gente foge
Depois a gente vê.

Instantaneamente fiquei furioso por uma música de duplo sentido como esta tocar numa festa infantil. E logo em seguida fiquei sem saber se me indignava mais ou deixava para lá ao perceber que ninguém mais no salão lotado tinha percebido sequer a música que saía distorcida dos auto-falantes – ou talvez não tenham se importado.

Continuo achando, sem medo de parecer moralista, que aquela música não estava no lugar certo. Mas não é possível ignorar a tradição brasileira de duplos sentidos em canções. A lista de músicas do carnaval baiano com estas características já seria infinita. Meio por acaso, encontrei um artigo de 1986 do jornalista Aramis Millarch, falecido em 1992, defendendo a música Julieta, que fazia um sucesso enorme naquele ano e é composta exclusivamente de estrofes em que se desenha uma conotação sexual para mudar a rima em cima da hora. Exemplos:

O velho e a velha foram buscar água na bica
A velha escorregou e o velho passou-lhe a perna

Eu conheço uma menina que se chama Julieta
Ela tem o dedo fino de tanto tocar corneta

Julieta – Sandro Becker

Há coisas a ponderar aqui. Não é por acaso que uma canção como esta tomou as rádios justo no ano de 1986. O país então acabava de sair de uma ditadura de 20 anos, a que correspondeu uma censura não apenas política, mas moral, e que ainda agia. No mesmo ano, o grupo de rock Camisa de Vênus teve praticamente todas as músicas de seu álbum Viva – Ao Vivo censuradas e o próprio álbum recolhido das lojas – o que só aumentou a procura do público e fez com que no álbum seguinte, Correndo o Risco, eles colocassem uma nota de agradecimento aos censores. Portanto, é compreensível que, numa atmosfera de desanuviamento da pressão moral do regime, um desses forrós de trocadilhos ingênuos, populares no Nordeste havia décadas, extrapolasse seus limites e fosse ouvido em todo o país.

Mas esta tradição vem de bem mais longe. Para não recuar ainda mais no tempo, paro nas marchinhas de carnaval. É bem verdade que a grande maioria delas era ainda mais ingênua que os forrós citados acima. Aliás, o uso carnavalesco da marcha, de certa forma, já é uma desvirtuação do seu uso original, o militar. Pode-se dizer que a marcha carnavalesca é, em si mesma, um duplo sentido, por passar para o ambiente de celebração o que deveria ser pura disciplina. É um pouco como se cada bloco estivesse ali para ridicularizar o pelotão, cantando versões burlescas da marcha, apropriando-se do ritmo para fazer piada. A graça então é justamente manter este primeiro vínculo, é o que permite a marchinha ser divertida. A escatologia, neste caso, representaria um rompimento que tiraria o charme da marcha. O duplo sentido é bem vindo, desde que sutil.

Nós, Os Carecas – Anjos do Inferno

Hoje, há quem defenda que estamos perdendo a capacidade de compreender as segundas intenções, o que faz com que hoje as músicas de carnaval baiano não sejam duplo sentido. Afinal, que outro sentido pode ter uma letra que diz (fechem os ouvidos, crianças) “ralou a tcheca no chão, desceu com a mão no tabaco, perereca pra frente e pra trás, esfregou a xana todinha no asfalto”? (O nome da canção é Xoxó tá no chão, da banda Fuska Virado).

Mas volta e meia lembro do Nelson Rodrigues. No livro autobiográfico A menina sem estrela, ele relembra o carnaval de 1920, o primeiro depois da terrível pandemia de gripe espanhola que chegou ao Brasil em 1918, dizimando cerca de 300 mil pessoas e atingindo em menos de um ano 65% da população do Rio de Janeiro. A população fugiu em massa para o interior, cadáveres insepultos se amontoavam nas ruas porque não havia mão-de-obra para recolhê-los, e os trabalhadores disponíveis tinham medo de se contaminar. Quando finalmente a doença recuou, o carnaval serviu como uma reconquista da cidade pelos seus habitantes, e a alegria tomou a forma de uma festa que Nelson, com sua costumeira eloquência, descreve quase como uma orgia de Baco. Pois a marcha de maior sucesso deste carnaval tinha a seguinte letra:

Cavalheiros: Na minha casa não racha lenha
Damas: Na minha racha, na minha racha

Cavalheiros: Na minha casa não falta água
Damas: Na minha abunda, na minha abunda

Damas: Na minha casa não pica fumo
Cavalheiros: Na minha pica, na minha pica

O que de certa forma induz a pensar que o fenômeno dos excessos seja cíclico, de acordo com as necessidades históricas. Isto não significa uma aprovação irrestrita dos axés que banalizam o corpo e a sexualidade, o que dá pano para outro post, outro dia. Mas diante do maior sucesso do carnaval em 1920, não tenho mais cara de posar de moralista. Bem, desde que minha filha não esteja presente…

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17 comentários em “Duplo sentido, se é que você me entende

  1. Eduardo disse:

    Muito bons os texto e as pesquisas.
    Realmente, o mais difícil é manter algum controle sobre o que as cianças vêem e ouvem, fora de nossas casas. Ainda bem que elas (as mais novinhas) ainda são ingênuas, ou não tem um vocabulário tão extenso.

  2. Eduardo disse:

    Digo, cRianças.

  3. Eduardo disse:

    Ah, desconheço a versão original de “Julieta”; mas no que eu já tinha ouvido, e no vídeo postado, ela não toca corneta, mas sim, piano. O que não faz tanta diferença…

  4. Oi, Edu. Engraçado como o post no fundo nem era tanto sobre o que as crianças escutam, e mais sobre esta, digamos, tradição, do duplo sentido na música brasileira. Mas todos os comentários feitos no Facebook foram na mesma direção que o seu, o que comprova que esta não é uma preocupação apenas minha – graças a Deus, aliás. E me deu vontade de fazer um post mais á frente especificamente sobre música para crianças, coisa fundamental para a nossa geração – inclusive para os solteiros com sobrinhos… Abração.

  5. Uma das soluções para esse problema (evitar que nossos filhos ouçam – e gostem – dessas “músicas”) é a que tomei, entre outras: criei em meus filhos o gosto pela boa música, mas boa mesmo, de qualidade na letra, melodia, voz, instrumentos, etc. Daí que Toquinho, Vinicius, e mais um tanto de outros cantores de excelente qualidade (nacionais e internacionais – o que acaba despertando e facilitando o aprendizado de uma língua estrangeira, de quebra), são presença obrigatória aqui em casa. Quanto ao duplo sentido nas marchinhas e outras composições musicais, isso vem desde a Idade Média, nas famosas “cantigas” , especialmente as satíricas de escárnio e de maldizer, onde se abusava dos famosos trocadilhos. Grande abraço a todos.

  6. Moyses Abbud disse:

    Túlio, suas observações são consistentes e me fazem pensar no quanto a população em geral coloca para a infância situações apropriadas a adultos e sem nenhum questionamento. Sobre esse tipo de coisa conversei com educadores e minha surpresa -a grande maioria deles pensa que crianças podem ouvir e dançar (sensualmente) essas músicas pois a maldade está é na cabeça dos adultos. Pasmei-me.

  7. Tulio, minha experiência diz que sua estratégia funciona. Cresci ouvindo boa música, entre as infantis Os Saltimbancos do Chico e Arca de Noé do Vinícuis. Na época da invasão do Menudo preferia os Beatles e minha tolerância a musica ruim é bem baixa hoje. Mas não resisto e chamo sua atenção para a letra de “Aula de Piano” do Vinicuis na Arca de Noé:
    Aula de Piano
    Vinicius de Moraes

    Depois do almoço na sala vazia
    A mãe subia pra se recostar
    E no passado que a sala escondia
    A menininha ficava a esperar
    O professor de piano chegava
    E começava uma nova lição
    E a menininha, tão bonitinha
    Enchia a casa feito um clarim
    Abria o peito, mandava brasa
    E solfejava assim:

    Ai, ai, ai
    Lá, sol, fá, mi, ré
    Tira a não daí
    Dó, dó, ré, dó, si
    Aqui não dá pé
    Mi, mi, fá, mi, ré
    E agora o sol, fá
    Pra lição acabar

    Diz o refrão quem não chora não mama
    Veio o sucesso e a consagração
    Que finalmente deitaram na fama
    Tendo atingido a total perfeição
    Nunca se viu tanta variedade
    A quatro mãos em concertos de amor
    Mas na verdade tinham saudade
    De quando ele era seu professor
    E quando ela, menina e bela
    Abria o berrador
    Ai, ai, ai,
    Lá, sol, fá, mi, ré

    Se é que você me entende…

  8. A estratégia é do Antônio.

  9. Antônio, Moyses, Mariana: as participações de vocês, sempre bem vindas, confirmaram o que havia comentado com o Edu lá em cima: a preocupação com a formação (não apenas) musical das crianças é assunto premente, urgente. Eu acabei tratando dele no blog pouco tempo depois deste post. O artigo “Existe música para crianças?” está em https://tuliovillaca.wordpress.com/2010/11/05/existe-musica-para-criancas/, caso se interessem. Abraços em todos e voltem sempre.

  10. RONALDO disse:

    uma coisa é musicas de duplo sentido que vc faz enbutida nas letras aquela maneira de entedela outra é falar de modo claro e indecente as imoralidades! alem do quê musicas de duplo sentido não defendem drogas e crime organizado o funk não é musica nem cultura tá contaminando nossa sociedade é uma droga virtual que ta destruindo os jovens na cara dos nossos governantes como diria Renato Russo: QUE PAÍS É ESSE?

    • Ronaldo, deixo a resposta para Danilo Dunas, músico e mestre e doutorando em Criminologia pela Universidade de São Paulo. A resposta original foi para um artigo na Folha de São Paulo, escrito pelo colunista Vladimir Safatle:
      “Atualmente os bailes funk ainda são tratados como assunto da Secretaria de Segurança Pública, indicando que o Estado, assim como resistiu a reconhecer o valor cultural do samba e da capoeira, ainda não reconheceu o valor cultural do funk. Se há um gênero musical que se desenvolve de forma vigorosa à margem da “indústria cultural”, é o funk, assim como o tecnobrega e outros estilos musicais das periferias do Brasil.

      Se, por um lado, algumas letras de funk reafirmam valores hegemônicos e opressivos, como o consumismo e o machismo, por outro, muitas letras de funk, e o próprio baile, desestabilizam visões de mundo e contestam o status quo. A estética do funk é transgressora justamente porque questiona o bom gosto e os padrões de qualidade vigentes. Nenhum gênero aborda tantos tabus sexuais quanto o funk. Tratando de temas como tráfico e violência, o funk incomoda o bem-viver de grande parte da população.

      O antropólogo Hermano Vianna mostrou que a subversão do baile funk está no fato de ele não ter uma função na sociedade produtiva, um sentido, a não ser propiciar a diversão, o bem-viver, para milhares de pessoas. O bem-viver de alguns, porém, representa uma ofensa para outros. Se Platão expulsou artistas de sua cidade ideal e Rousseau brigou para que não abrissem um teatro em Genebra, hoje são os bailes funk que são proibidos pelo Poder Público. Oxalá possam ser um dia financiados pela Secretaria de Cultura.”

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