Falando em censura

Ao comentar no post anterior sobre o processo que levou ao fim da censura no momento da redemocratização em 1985/86, lembrei da historia da música Bichos Escrotos, do antológico álbum dos Titãs Cabeça Dinossauro, que era tocada pelo grupo em shows desde 1982. Em Cabeça Dinossauro os Titãs apontam para todas as direções – Polícia, Igreja, Família, Estado, em cada título há um ataque violento a uma instituição. À influência do desencanto pós-punk se junta uma politização que finalmente encontra um canal de escoamento.

No entanto, apenas uma música teve a radiofusão proibida, justamente Bichos Escrotos. E o motivo desta proibição não teve nada de ideológico ou político, mas apenas a presença da expressão “vão se foder!” no meio da letra. Assim que as rádios descobriram isso, fizeram uma versão sem voz neste trecho, e a música saltou para os primeiros lugares das paradas.

Engraçado foi como as rádios descobriram. Escutei na época uma entrevista dos Titãs na Rádio Transamérica, em que eles contaram ter conversado com o censor e que ele havia dito que, retirando o palavrão, a música seria liberada. A incredulidade do locutor que os estrevistava foi nítida. No dia seguinte, a versão sem o palavrão já estava tocando.

O que ele não havia se dado conta era que, com o país redemocratizado, a censura não era mais aquela (e realmente ela foi totalmente desativada pelo governo Sarney). Não havendo mais questões ideológicas para serem vigiadas, mas com a máquina ainda montada, ela voltou-se para questões morais, e acabou criando estas situações meio ridículas. Os Titãs não foram a única banda a ter músicas censuradas. Faroeste Caboclo e Conexão Amazônica, da Legião Urbana, também o foram, seja por se referirem ao tráfico de drogas, seja apenas pela presença de um palavrão na letra, o que não impediu a primeira de ser apresentada no horário nobre da Rede Globo (sem o palavrão. Renato Russo soltou uma risada ao cantar “olha pra cá, seu sem vergonha sem vergonha”). Mas deixo uma análise maior dela para outro dia, que ela merece.

Voltando aos Titãs, não posso deixar de achar que o censor atirou no que viu e acertou no que não viu. Bichos Escrotos é a faixa mais devastadora de um álbum devastador. Mas é interessante que, entre tantas músicas com críticas acerbas, a mais virulenta de todas tenha sido uma crítica estética. Bichos Escrotos se volta violentamente contra “oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo”, contra uma certa beleza fácil, uma infantilização do público.

Lembro de Caetano Veloso numa de suas muitas avaliação da Tropicália, dizendo que, enquanto a corrente principal da música brasileira continuava buscando o belo, eles passaram a se interessar também pelo que era, de alguma forma, feio. A perseguição da ditadura sobre Chico Buarque se deu por causa da mensagem de suas músicas. Já em relação a Caetano e Gil, o desconforto era principalmente estético. Nas canções deles havia muito menos contestação direta, mas eles pintavam um mundo de cores incompatíveis com as do autoritarismo. Eles foram exilados por uma questão estética que a ditadura não sabia nem mesmo verbalizar.

Em 1986, o que ocorre em Cabeça Dinossauro é uma espécie de passagem de bastão. A geração do BRock – ou uma parte dela – se apropria da crítica da geração anterior, e a verbaliza de várias maneiras. Bichos Escrotos está perfeitamente alinhada a esta visão. Como comento aqui citando os próprios Titãs, a crítica estética frequentemente tem o poder de ir mais fundo que a política. Parece que é bem o caso. O censor que proibiu a música por causa de um palavrão, no fundo, talvez não tivesse noção exata do que estava proibindo. Os Titãs, em pleno florescimento da democracia, a exercitavam desnudando o reacionarismo de suas instituições, mostrando o quanto não eram democráticas. E em Bichos Escrotos radicalizam o discurso – no sentido de ir à raiz – pisoteando furiosamente também o elogio destas instituições, conclamando os ratos a entrarem “nos sapatos dos cidadãos civilizados”. A censura talvez não tivesse noção exata do que realmente a incomodava, mas Paulo Miklos sabia bem porque estava gritando.

Bichos Escrotos – Titãs

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