Flores ao vento, pedras rolando

Bob Dylan foi chamado de traidor pela platéia ao abandonar o que chamavam de canções protesto. Reagiu ironicamente. Se antes negava que suas canções eram de protesto, passou a dizer que continuava a fazê-las, agora mais que nunca.

O que se dizia de Dylan é que ele fora capaz de  captar em sua música o espírito de uma época, aquilo que todos queriam dizer e não sabiam como. Ele próprio reconhece isto no magnífico documentário de Martin Scorcese No direction home. Os EUA se apaixonaram por Dylan, e canções como Blowin’ in the wind causavam comoção – ainda causam – ao tratar de tempos de mudança que chegavam.

Lembrei de Bob Dylan ao assistir a entrevista dada por Geraldo Vandré àquele que é hoje o melhor reporter do Brasil (não confundir com jornalista), Geneton Moraes Neto, a primeira em décadas para a TV. Vandré fez canções memoráveis, que foram igualmente capazes de ser crônicas exatas de momentos históricos do Brasil, como Disparada e Canção da Despedida, parcerias com Théo de Barros e com o xará Geraldo Azevedo.

Mas foi com Pra não dizer que não falei das flores que Vandré mobilizou todo um país em torno de si, o que talvez tenha sido ao mesmo tempo sua glória e sua ruína. Caminhando, como ela foi chamada, tornou-se um hino antimilitarista. Vandré afirma categoricamente a Geneton: Não sou militarista. Também não sou anti. E também: Não faço canção de protesto. Fazia música brasileira.

Caminhando foi levada ao público no Festival da Canção de 1968. Bob Dylan já havia aderido à guitarra três anos antes, ao lançar o álbum Highway 61 Revisited, que continha, entre outras, a revolucionária Like a Rolling Stone. Dylan fora vaiado, mas aqui quem eram vaiados eram os concorrentes de Vandré, Chico Buarque e Tom Jobim, autores de Sabiá, que Vandré faz questão de defender: Pra vocês que continuam pensando que me apóiam vaiando… (…) A vida não se resume em festivais. Seu incômodo com a oposição que se criava era visível. Como Caetano já berrara no ano anterior, a platéia não estava entendendo, ou melhor, só entendia o que queria entender.

Vandré fez Pra não dizer que não falei das flores com uma característica singular: a canção tem o ritmo ternário, o mais improvável para um hino. Hinos tem em geral ritmos quaternários, apropriados para marchar. Caminhando, apesar do nome, não é uma marcha. A letra, revista imparcialmente,  dá razão a ele, em versos como Pelas ruas marchando indecisos cordões. O andamento da canção é andante (desculpem o trocadilho involuntário, mas é isso mesmo), mas caminhar não é marchar, o ritmo não é igual para todos. Apesar disso, no festival Vandré martela o violão (errando acordes inclusive) a ponto de transformar compasso ternário em unário. A canção muda seu sentido, torna-se apta à marcha. Depois Vandré a gravaria no ritmo ternário mais claro, mas era tarde.

Em dezembro daquele ano, Vandré sumiu. Na verdade, fugiu do país no carnaval do ano seguinte. Continuou sua carreira do exílio gravando em 1970 Das terras de Benvirá, que só foi lançado alguns anos depois. E quase só. Voltou do exílio em 1973, dizendo: Quero agora só fazer canções de amor e paz. Há desconfianças sérias de que tenha sido coagido pelos militares a dizer isso. Ele nega. Hoje vive num indecifrável mundo particular.

Geneton: Em que país vive Geraldo Vandré?

Vandré: “Vive num Brasil que não está aqui. Geraldo Vandré vive no Brasil. Eu até me atreveria a dizer que quem não vive no Brasil é a maioria dos brasileiros. A quase totalidade dos brasileiros não vive mais no Brasil. Vive num amontoado”.

Geneton: Você se considera, então, uma espécie de exilado que vive dentro do Brasil ?

Vandré: “Estou exilado até hoje. Ainda não voltei. Eu estou exilado e afastado das atividades que eu tinha até 1968 no Brasil. Eu me afastei. Não retornei”.

Bob Dylan, acuado pela imposição de um público subitamente imenso, recusou-se a caber no rótulo do cantor de protesto, e reinventou-se, enfrentando a ira de seguidores fanáticos, e soube novamente fazer a síntese de seu tempo. Vandré passou pela mesma cobrança de todo um país, e igualmente recusou-se a cumprir o papel que lhe era imposto.

Mas Vandré não se reinventou, ao menos para o público. Deixou de ser o que era, e não se tornou outra coisa. Sua canção captou tempos de mudança, mas ele preferiu não mudar. Não fez a hora, e decidiu esperar acontecer, mas suas Terras de Benvirá não vieram. Tem o direito. Mas o Brasil que está aqui, embora ele ache que não, tem saudade do Vandré que disse à platéia furiosa: a nossa função é fazer canções. Mesmo que seja para nunca entendê-las completamente. São as melhores.

Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré ao vivo em 1968

Like a Rolling Stone – Bob Dylan ao vivo em 1966

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