De virgem a grávida

Marina Lima escreveu no encarte de seu álbum de mesmo nome:

É 1991.
Talvez seja o tempo mais brilhante e atravessado pela noite que esse mundo já viu. Eu tenho 35 anos. Às vezes quando eu digo isso alguém rapidamente responde: “Mas não parece”, como se fosse ruim ter mais de 30 anos. Mas para mim não é assim. Para mim a infância, a adolescência, os 20 anos, eu os vivi até o fim para chegar a esta idade. Eu tenho 35 anos em 1991 e não há nada melhor do que isso.

Em 1987 ela lançara o álbum Virgem, onde há a música de mesmo nome, dela e do irmão Antônio Cícero. Já este de 91 é aberto (depois de uma vinheta de Ela e Eu, de Caetano Veloso) por Grávida, de Arnaldo Antunes. A primeira e obvia leitura é de que Marina traz ao público seu amadurecimento – o que é verdade, e que se aprofundará no álbum seguinte, O Chamado, o mais pessoal de sua carreira. Mas há outras possibilidades.

Uma vez assisti uma entrevista com Caetano Veloso em que as perguntas eram feitas por outras personalidades, músicos, escritores. Herbert Vianna perguntou algo sobre como é que se fazia para conseguir continuar achando motivação e inspiração para compor depois de anos e anos de carreira. Caetano disse que a melhor resposta que conseguia pensar era citando um filósofo (que esqueci totalmente qual é): é preciso gostar das coisas. A partir desta postura emocional é possível escrevê-las e cantá-las, e redescobri-las.

Virgem é uma canção de amor. Na verdade, uma canção sobre o fim de um relacionamento, o que não deixa de ser estranho – uma virgem terminando uma relação? A virgindade não pode ser senão figurada. A letra começa com uma espécie de justificativa:

As coisas não precisam de você
Quem disse que eu tinha de precisar?

A partir daí, o que há é uma lista de lugares da cidade do Rio de Janeiro, e nenhum precisa do amor que se foi. Marina personaliza a cidade, e o que era uma justificativa se torna uma identificação total. Marina é a cidade e suas coisas, a ponto de justapor seu nome com o do Hotel, e afirmar no último verso: o farol da ilha procura agora outros olhos e armadilhas. Ora, como outros olhos? Porque os olhos da Marina agora são o farol.

Grávida também se constrói como uma lista de coisas, criando múltiplas variações inesperadas a partir de uma simples afirmação. Soa surrealista pelas associações absurdas. Não é por acaso. Um dos trabalhos do artista é exatamente procurar as relações inesperadas entre as coisas. Mas é possível ir mais fundo. É possível pensar no artista como alguém que se emprenha de realidade. E o que vai parir depois é sua própria visão particular, que, como nos sonhos, será uma transfiguração desta realidade. Grávida tem em seu arranjo algo desta atmosfera de sonho, com os dedilhados de guitarra e uma cama de teclados que permanecem mesmo sob o solo de sax e as viradas da bateria.

Marina dá à luz – sobre a mesma cidade que encarnou em Virgem – as mais diferentes coisas, de um furacão a uma bolha de sabão, a fúria e a delicadeza, quase em sequencia. Como a realidade é múltipla, a arte também. E o artista aceita esta variedade e a usa a seu favor. Como disse Caetano, o artista gosta das coisas, engravida delas, e depois as ilumina com luzes novas, renovando nosso olhar sobre elas. Ao fim deste processo, está vazio, novamente virgem. E volta novamente seus faróis, à procura de outros olhos e armadilhas.

Virgem

Grávida

Anúncios

11 comentários em “De virgem a grávida

  1. Jessica Albuquerque disse:

    Achei seu blog pelo Google e me sinto surpresa com qualidade do conteúdo. Parabéns!

  2. dani disse:

    Vim pelo link do youtube…adorei o texto. Grávidas de sonhos, de projetos, de angústias…de arte. Essa música é de uma delicadeza ímpar. Sempre a ouço em momentos diferentes, e dessa vez queria compartilhar outras impressões.
    Um abraço

  3. Kate Oliveira disse:

    Adorei a forma leve e eficaz que você utilizou na construção de seu blog. Parabéns, pois a leitura do mesmo me abriu a cabeça para novas perspectivas de interpretação de músicas que fazem parte da minha vida.

  4. Daisy Rosa Alves disse:

    Amo esta música me toca profundamente me identifico bastante,Marina sabe o uqe tem que fazer,e faz!

  5. caioares1 disse:

    Dando meu pitaco: em “Grávida” parece-me que ela está prenhe, fértil, de novas idéias, campo aberto para novas sementes e tentativas. Parece-me coerente que, ao terminar um relacionamento, ela esteja “Virgem”, querendo fazer-provar tudo de novo, como se numa primeira vez. Claro, não se espera que assim seja (ninguém é tão inocente a ponto de deixar tudo pra trás), mas nada melhor do que uma primeira vez, de novo.

  6. Muito bacana o texto! Pra mim, Grávida, além da prenhez, expressa a necessidade de expelir tudo aquilo que já não cabe em si, “dar à luz” não seria necessariamente liberar coisas boas, mas simplesmente por pra fora.

  7. Rafael Feitosa disse:

    Túlio, adorei sua interpretação. Reflito sobre o significado desta letra sempre que a ouço (e lá se vão alguns anos)… é praticamente impossível escutá-la sem atenção. Sempre via o termo “Grávida” como alguém à espera de alguma coisa, em frente à iminência de algo a acontecer (ou na esperança desse “algo” acontecer), como os quadros de Edward Hopper. Já os elementos dos quais a personagem está grávida, seriam elementos figurativos, por exemplo: “um avião”, seria a chegada de alguém; “um furacão” (uma catástrofe metafórica), “uma nota musical” (uma inspiração artística), e por aí vai, mil e uma interpretações são possíveis.

    Parabéns pelo blog! Pretendo visita-lo mais vezes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s