Para Barret e Waters

Uma vez, faz tempo, folheando uma dessas publicações que contam a história do rock (esta era uma enciclopédia inglesa, em sua edição brasileira), levei um susto ao dar de cara com um capítulo inteiro da parte nacional dedicada… ao Clube da Esquina.

Que o Clube da Esquina já devia muito aos Beatles, não era novidade, em especial pelas mãos de Lô Borges, autor de Para Lennon e McCartney. Mas Minas Gerais foi também terreno fértil para o rock progressivo desde a década de 1970. Grupos como O Terço, que gerou mais tarde o 14 Bis, e mais recentemente o Sagrado Coração da Terra, de Marcos Vianna, conseguiram uma boa projeção (este enveredando pelo terreno da chamada new age). Mas o grupo Som Imaginário, ao acompanhar Milton no álbum Milagre dos Peixes ao vivo, de 1973, foi quem traçou mais fortemente esta relação.

Pelo Som Imaginário passaram nomes e mais nomes da música brasileira – Wagner Tiso, Tavito, Robertinho Silva, Zé Rodrix, Naná Vasconcelos, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Paulo Braga, entre outros. E sua sonoridade era pautada em grande parte pela corrente musical que abrigava Pink Floyd, Genesis, Jethro Tull, pelas experimentações que estas bandas realizavam procurando sonoridades novas e aliando a um virtuosismo instrumental uma postura (a chamada atitude rock) combativa e contestatória .

Mathilda Mother é uma canção do primeiro álbum do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn, de 1967, de autoria de Syd Barret. Importante notar que este álbum foi gravado simultaneamente e no estúdio ao lado de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e que houve uma certa troca de informações entre as duas bandas. Isto talvez tenha levado os Beatles ao forte experimentalismo do Sgt. Peppers, e tenha servido para realçar para o Pink Floyd a importância das canções.

Pink Floyd – Mathilda Mother

Bodas é a primeira canção de Milagre dos Peixes ao vivo, que é aberto por Matança do Porco / Xá Mate, sendo a primeira também o nome de um álbum do Som Imaginário. A sonoridade dos instrumentos – teclado, guitarras, até a bateria – segue de perto a do Pink Floyd. Embora seja uma balada, existe uma violência no arranjo que acompanha a descrição sangrenta feita por Milton. Até mesmo a flauta de Nivaldo Ornelas (em outras faixas ele toca sax) encontra correspondência na tocada por Peter Gabriel no Genesis e Ian Anderson no Jethro Tull.

Bodas – Milton Nascimento

Milton diz:

Foi um lance muito interessante, porque eu nunca fui intimista, sempre fui muito aberto. Pelo contrário, eu estive e vivi muito perto do rock, da música pop, o tempo todo. O trabalho com o Som Imaginário para mim foi como se fosse um trabalho de cinema, de teatro… vestimos nossa música com uma roupagem elétrica. Foi uma época importantíssima, muito bonita…

É importante notar uma semelhança entre as duas canções, compartilhada por várias outras do repertório tanto progressivo quando do Clube da Esquina: as referências à realeza como artifício para a crítica política. Na Inglaterra, uma realeza até hoje, as letras remetiam a contos de fada e chegavam ao surrealismo, enquanto aqui elas utilizam referência históricas. Porém, manifestavam um inconformismo comum aos jovens ingleses dois anos antes da explosão do movimento punk (que, ironicamente, tomaria um caminho musical oposto ao do progressivo) e aos brasileiros sob uma ditadura. Se lá os contos de fadas falavam de uma realidade virada pelo avesso, aqui o poder do rei era exercido pelo governo autoritário – mas não só. A força das metáforas da letra de Ruy Guerra (e das de Barret, por tabela) pode ser avaliada por esta outra declaração de Milton:

É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. (…) A própria EMI chegou a censurar internamente obras minhas. A música chamada “Bodas” tecia alguns comentários não muito elogiosos à rainha da Inglaterra, que por sinal ainda é a maior acionista da EMI. Aí eles acharam que não ia pegar bem; eles foram os censores, daí sempre tive que usar aquele negócio: “Quer? Não quer, me libera!”.

A transformação da palavra mata de substantivo em verbo pela voz de Milton – uma incitação de linchamento – pode ter mais afinidades que aparenta com as histórias lisérgicas do Pink Floyd, especialmente se levarmos em conta sua moldura instrumental. Como diz a letra de Mathilda Mother, as palavras têm diferentes significados. (…) Você só tem que ler as linhas. Elas estão rabiscadas em preto e tudo brilha.

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7 comentários em “Para Barret e Waters

  1. Márcio Blog Armazém disse:

    Olá amigo, adorei seu blog e gostaria de te fazer um convite. Tenho um projeto e sonho de unir todos os blogs de música e cultura pop, vou continuar visitando seu blog e fazendo comentários sobre aquilo que você postar, se você puder amigo, faça o mesmo, vamos fazer uma grande corrente e cada dia mais conquistar novos amigos!Se puder visite meu blog, vamos chamar mais amigos para construir nosso próprio universo com muita diversão e pensamento próprio, sem cópias!!

    Parabéns e obrigado.

    Abração..

    Márcio – Blog Armazém

  2. Olá, Márcio. Olha, por coincidência, há poucos dias achei um grupo do Google que se propõe exatmente a esta interação. Chama-se Rede Brasileira de Blogs de Música (pomposo, não?), e fica em http://groups.google.com.br/group/rede-brasileira-de-blogs-de-musica?hl=pt-br . Entra lá, acho que dá para trocar informações interessantes. Vou passar no Armazém. Abraços.

  3. Música impressionante. Aparentemente para mim remetia a um passado colonial e imperialista de destruição, violência, extermínio e do abuso com o consequente esgotamento da natureza. Claro que logo após compreendi que era uma metáfora sobre a ditadura, mas não sabia dessa parada da EMI e da rainha. Vivendo e aprendendo, ou melhor, lendo e aprendendo.
    A transformação da ambiguidade de matar também é notória… mas me parecia mais uma ordem imperialista proveniente do capitão…não necessariamente uma incitação ao linchamento. Aliás, a figura do capitão também é interessante, me parece que ele age a contragosto ( tristeza, pra ver o capitao sorrindo, triste vai embora) a mando do interesse da corte.
    Também pensei em uma metáfora em relação à música e cultura brasileira…sendo esta substituída pelo padrão estrangeiro, aí representada pelo inglês, em detrimento da cultura nacional. LEtra riquíssima que possibilita várias interpretações!
    abraços.

    • Olá, Ricardo. Pois é, arte boa é assim, permite novas leituras a cada vez. Tenho para mim que o Milton na verdade não pensaria de jeito nenhum em incitar um linchamento, claro, mas mais talvez uma denúncia da violência, digamos assim.Quanto à tristeza, me remete a alguns historiadores como Paulo Prado e o Sérgio Buarque de Holanda, que falam de uma tristeza (o “banzo”) que teria sido trazida pelos colonizadores. E por aí vai…

      Por sinal, bom o seu blog, vou dar uma passada lá com mais calma depois, baixar uns Mutantes, entre outros… Abraços.

  4. O álbum milagre dos peixes ao vivo é lindo . A introdução de a matança do porco, xá mate e bodas, todas interligadas, é maravilhoso… as orquestrações, solos, Toninho Horta e Wagner Tiso em plena forma… cria-se mesmo um “clima” de desolação e nostalgia no fim de xá mate, acho que algo bem condizente com o “banzo”, tristeza. Eles de fato conseguem expressar isso na música.
    A comparação com Pink Floyd também é bem legal. Uma banda que faz um som parecido com essa primeira fase do Floyd no Brasil é o Violeta de Outono. Pude ver um concerto deles ano passado, e fiquei maravilhado com o espetáculo…
    Muitas vezes parece-me que não prestigiamos os artistas daqui. O próprio Milton nessa fase e o Som imaginário são artistas de primeira e pouco se fala sobre eles. Aliás, o disco que encontrei do Violeta para vender era importado…que ironia.
    Obrigado também pelos elogios ao blog! É um trabalho árduo ficar pegando um álbum, analisando, escrevendo,e elogios acabam sendo sempre uma motivação a mais.

    abraço

  5. Liza disse:

    O contrabaixista Luiz Alves também!!!

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