Milton e o Eterno Retorno da melodia – O tema de Pablo

Um bocado mais de Milton Nascimento. Especificamente, sobre algo que ele volta  meia faz em suas composições, e que me interessa particularmente, que é usar o mesmo tema instrumental em duas ou mais canções, de diversas formas. Muitos compositores citam a si mesmos, e assim tentam conferir algum tipo de unidade a sua obra. Mas geralmente estas citações se dão na letra, não na melodia, e muito menos nos arranjos. Ao fazer isso, Milton carrega de uma canção para outra significados diversos, agrega em uma a lembrança da outra, mas de forma mais sutil que na citação da letra. Em dois posts, trarei dois exemplos desta técnica. Eis o primeiro.

Pablo é uma canção de 1973. Na verdade, são duas. Pablo I, (a que nos interessa) construída sobre uma base de piano, é uma canção singela de Milton e Ronaldo Bastos em que ele usa um artifício característico: a segunda parte modula para tom menor, e o contraste vai se acentuando até desembocar numa instabilidade harmônica de suspense (aqui reforçada pelas cordas vertiginosas) e voltar ao tom inicial numa espécie de redenção (aqui, com o coro de crianças). A mesma estratégia foi usada por ele anos depois na versão de La Bamba que, com letra, acabou gravada por Maria Rita com o nome A Festa. Por coincidência, A Festa é também o subtítulo da segunda Pablo.

Pablo – Milton Nascimento – versão em inglês do álbum Journey to Dawn, de 1979 (escolhi esta versão em vez da original, do álbum Milagre dos Peixes, por esta ter um arranjo bem mais amadurecido, mas com o mesmo tema no acompanhamento. A primeira gravação, em compensação, é cantada por um menino, o que é um dado importante. Outra coisa: as duas canções Pablo foram gravadas na mesma faixa, emendadas. Isolei Pablo I na edição.)

Em 1993, Milton lançou o álbum Angelus, que à época chegou a ser saudado como um terceiro Clube da Esquina internacionalizado, tamanho o calibre das participações – Peter Gabriel, Herbie Hancock, James Taylor, Pat Metheny, Jon Anderson, Wayne Shorter. Nele, há duas versões da pequena canção – quase uma vinheta – Sofro Calado, dele e de Régis Faria. A primeira aparece bem no meio do álbum, e é exclusivamente arranjada pelas vozes de Milton sobre percussão.

Sofro Calado – primeira versão

Já a segunda, que encerra o álbum, tem como base exatamente o tema de Pablo, tocado ao piano, evocando diretamente as gravações de 1973 e 79.

Sofro Calado – segunda versão

A versão cantada sobre as vozes está em modo menor, o que faz com que o intervalo inicial ascendente da palavra sofro fique também menor. É quase uma blue note, a nota característica do blues que é propositalmente desafinada para baixo. As vozes em falsete de Milton sobrepostas no arranjo são gemidos de sofrimento que sublinham a letra.

A versão cantada sobre o piano está em modo maior, e o plano da retomada do tom que descrevi então é realizado ao longo do álbum, como uma canção dividida estrtegicamente em duas. O álbum em si é “trazido para dentro” da música, sendo posto entre as duas versões. A suavidade do piano original de Pablo, com sua letra de fortes metáforas, sugere a identidade entre as canções, colocando Pablo como a primeira pessoa das duas histórias. O menino que cantou sua própria história em 1973 tornou-se adulto, sofre de amor, mas se consola na infância que continua dentro de si. O sofrimento da primeira gravação ganha uma dimensão de redenção.

Meu nome é Pablo
Como um trator é vermelho
Incêndio nos cabelos
Pó de nuvem nos sapatos
Meu nome é Pablo
Nasci num rio qualquer
Meu nome é rio
E rio é meu corpo
Meu nome é vento
E vento é meu corpo
Incêndio nos cabelos
Pó de nuvem nos sapatos
Como um trator é vermelho
Pablo é meu nome
Meu nome é pedra
E pedra é meu corpo

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6 comentários em “Milton e o Eterno Retorno da melodia – O tema de Pablo

  1. Janaina Marquesini disse:

    “E pedra é meu corpo” parece que Milton repete também as intenções nas suas letras, na canção Saídas e Bandeiras ele diz “O que era pedra vira corpo”, na última parte, depois de “O que era sonho vira terra”, depois “O que era terra vira pedra” e por último vira corpo. Sou apaixonada por Milton, parabéns pela análise das melodias!

    • Bem notado, Janaina. Essas transmutações sucessivas das Saídas e Bandeiras me lembram um pouco referências religiosas, como as de Jesus transformando água em vinho e na Última Ceia dizendo que o vinho é o seu sangue. Mas no caso de Pablo, acho que é mais o sentido de uma fusão com os elementos, como se o Pablo fosse em si uma força da natureza. Enfim, elucubrações… Seja sempre bem vinda, abraços.

  2. Marcelo França disse:

    Túlio, Os escravos de Jó e Caxangá são a mesma música?

  3. Walter Cruz disse:

    Que bela análise 🙂

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