Milton e o Eterno Retorno da Melodia – o Tema de Cais

Cais é a segunda canção do álbum Clube da Esquina I, de 1972, parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Além da canção propriamente dita, ou tão importante quanto ela, o tema apresentado ao piano pelo próprio Milton no fim da faixa tornou-se emblemático.

Cais – do álbum Clube da Esquina I

O tema se apoia em um intervalo dissonante de segunda maior martelado na mão esquerda, enquanto a direita, e depois a voz, traçam a melodia. Não é apresentado inteiramente, mas decai em fade.

O tema retorna no mesmo álbum, numa das faixas finais, Um Gosto de Sol. Continua baseado no mesmo ostinato, mas agora transposto para cordas (o piano soa ao fundo), e é apresentado inteiro, ou seja, com uma segunda parte típica do Milton, em que a harmonia permanece em suspenso como que desequilibrada, para depois voltar com tudo à primeira parte (veja no post anterior).

Um Gosto de Sol – gravação do álbum Milton Nascimento ao Vivo, de 1983, com Gal Costa

A estratégia da reapresentação do tema de uma música inicial em outra música no fim serve para dar unidade ao álbum, e foi muito usada por grupos de rock progressivo da época como o Genesis (veja aqui sobre a relação do rock progressivo com o Clube da Esquina). Mas há algo mais aí.

Em 1978, Milton e Lô Borges gravam o Clube da Esquina II. O álbum já se inicia referencial – um coro à capela canta um trecho de San Vicente, do Clube da Esquina I, antes mesmo da primeira faixa. Mas é na música que encerra o álbum que a ligação se completa.

Que Bom, Amigo – do álbum Clube da Esquina II

Que bom, amigo é uma canção inteiramente construída sobre o tema de Cais. A melodia da canção soa intercalada com a do tema, fazendo um jogo de canto e contracanto. Mas não apenas a óbvia ligação entre os álbuns é reforçada. Há também um jogo de relações entre as três canções.

Cais, em sua letra, narra uma aventura fundamentalmente solitária. “Para quem quer se soltar invento o cais / Invento mais que a solidão me dá”. O piano toca igualmente solitário no fim do arranjo.

Um gosto de sol é acompanhada somente pelo piano. No entanto, ao final (o arranjo de 83 segue o original) as cordas se somam a ele emoldurando o encontro. “Alguém que vi de passagem / Numa cidade estrangeira / Lembrou os sonhos que eu tinha / E esqueci sobre a mesa”.  É o complemento do pensamento, do caminho percorrido solitariamente à descoberta do outro. Seria um bom encerramento para a idéia. Mas Milton volta a ela anos depois.

Com Que bom, amigo Milton consegue dar um passo à frente. O que era um encontro fortuito e de passagem se torna efetivamente uma comunhão. Nesta canção, o tema é indissolúvel da própria composição, sublinhando a letra que repete quase tautológica: “Que bom, amigo / poder saber outra vez que estás comigo / dizer com certeza outra vez a palavra amigo / se bem que isso nunca deixou de ser”. É, agora sim, a celebração do ideal coletivista que caracteriza o Clube e que levou Milton e Lô a convidarem novos participantes para este segundo álbum. O que era um grupo de amigos agora é uma congregação.

Milton sempre afirma que o Clube da Esquina é muito maior que seus participantes originais. Ele seguiu à risca este pensamento tocando com músicos de variadas vertentes – de nomes do jazz a estrelas pop como os grupos RPM e Duran Duran, e apadrinhando cantoras como Clara Sandroni e Maria Rita. Esta diversidade não o impede de ter uma obra profundamente particular. O uso reiterado de temas como os que abordei são uma de suas assinaturas. Um reconhecimento de si e do outro. Um modo de possibilitar o encontro.

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8 comentários em “Milton e o Eterno Retorno da Melodia – o Tema de Cais

  1. Luiz disse:

    Muito boas suas análises, rs. O tema também aparece, ligeiramente disfarçado, em Carro de Boi, Geraes (1976), entre um “Clube” e outro. Abraços!

  2. Valdir DM disse:

    Túlio:

    Muito boa a tua análise. Esse tema, que aparece nas três músicas, é, pelo menos para mim, de uma rara beleza. Às vezes me ouço cantarolando ou assobiando, com intervalos, por um dia inteiro. Tão bom quanto os melhores temas de Tchaikovsky, Beethoven, Brahms, Mozart, Lizt, etc.

    Vou procurar a tua análise de “Clube da Esquina nº 2”, a música toda (e a letra) extremamente bela…

    • Obrigado, Valdir. Concordo integralmente, o tema é tão bom quanto uma Ode à Alegria ou uma Primavera de Vivaldi. Agora, a análise das canções Clube da Esquina 1 e 2 vou ficar te devendo. Mas é uma ótima sugestão, acaba de entrar na fila. Grande abraço.

  3. Rafael Mori disse:

    O tema também é “parafraseado” em “Outro Cais”, no disco “Os Borges”.

    • Verdade, Rafael, um pouco estilizado, mas está lá, e faz todo o sentido. Quando escrevi este post, decidi me ater às gravações do Milton, sei lá por que. Outro Cais, já a partir do título, parece uma porta lateral à sequência de canções com o tema, merece atenção também, até porque é linda… Abraços.

  4. Guto Pera disse:

    Eu amo esse tema. Ele é grandioso, vai subindo e parece desaguar num vale verde. Ao mesmo tempo descrever em imagens aprisiona o tema que é maior que isso. A repetição faz parecer que eu estou num sonho que já tive.
    Não sei, o nome dele devia ser o único do mundo grafado todo em maiúsculas: MILTON NASCIMENTO.
    Belo texto.

  5. Michel Couto disse:

    Excelente análise, camarada. Você tem a cifra de Que bom amigo?

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