Desbravando a MBH – música brasileira hoje

Achei este artigo no blog Diginóis, do músico Lucas Santtana, artigo que ele trouxera da Revista da Melissa (a sandália, esta mesma. Tentativa de se posicionar junto ao público jovem, essas coisas), artigo este escrito por Chico Dub sobre os prolíficos nomes novos da música brasileira, exercício de futurologia de araque. Espero que seja de araque mesmo. Uma coisa já é presente: tem mesmo muito japonês entendendo mais e melhor a música brasileira que muito brasileiro. Ah, Chico Dub também é encontrado aqui.

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São Paulo Capital, 2028.

Hiroshige Sugimoto, Takira Murakami, Tetsuo Kurosawa, Wado Nakamura e Misato Suzuki visitam o Brasil pela primeira vez. Na verdade mesmo, é a primeira vez que esses jovens de 20 e poucos anos deixam seu país natal. Os porquês de visitar o Brasil (além de São Paulo, o grupo de japoneses ainda iria visitar o Rio, Brasília, Recife e as praias de Natal) são muitos. As belezas naturais, os jogos de futebol dos campeonatos regionais (dois são vascaínos, dois são palmeirenses e o quinto, coitado, torce para Flamengo, atualmente na segunda divisão do Brasileiro), e a irreverência do Carnaval, são motivos mais do que óbvios. Mas a principal motivação da trip é o chamado garimpo musical.

Como bons japoneses que são, Sugimoto, Murakami, Kurosawa, Nakamura e Suziki são ávidos colecionadores de música brasileira. Mesmo na faixa dos 20, qualquer um deles sabe mais sobre o Brasil do que a média local. E o que eles estão fazendo agora nos sebos da Augusta, da Móoca e do Centro de São Paulo? Procurando discos originais brasileiros do final do século 20 e início do século 21, a coqueluche do hype de todo e qualquer blogueiro de relevância na blogosfera mundial.

Hiroshige Sugimoto, 22, é amante da cena de tecnobrega e eletro melody do Pará. Feliz da vida, ele acaba de conseguir Tecnoguitarradas, do Pio Lobato, o primeiro disco do La Pupuña e, finalmente, uma série de compilações com os principais hits das aparelhagens de Belém, como o Tecnoshow e o Príncipe Negro.

Foi duro. Mas Takira Murakami, 20, enfim conseguiu botar suas mãos nos principais discos da cena mangue beat e pós-mangue beat de Recife. Coisas de Chico e Nação, é claro, mais Mundo Livre (este com autógrafo do Fred Zero Quatro e tudo), Otto, Orquestra Contemporânea de Olinda, o lindo primeiro disco do Monbojó, Eddie, e vários outros.

Tetsuo Kurosawa,19, é do rock. Absolutamente fanático por Forgotten Boys, Autoramas (não perde um show deles em Toquio) e Black Drawing Chalks, Kurosawa recentemente passou a nutrir carinho por uma certa cena instrumental, cheia de climas, de bandas como Hurtmold (o disco Mestro, de 2004, é a melhor coisa que ele já ouviu), Rabotnik, Pata de Elefante, Guizado, Macaco Bong.

Wado Nakamura, 20, não tem esse nome à toa. Seu pai, um velho fã dos sons brasileiros, o batizou em homenagem a este artista curitibano-alagoano. Mas se engana quem acha que é só de Wado e de seu soberbo disco Atlântico Negro, que Wado, o Nakamura, está interessado. Sua pesquisa musical abrange artistas que se aprofundam na questão da canção e abraçam todo e qualquer tipo de influência, sem preconceito. Seja ele samba, afoxé, rock, dub, afrobeat, funk carioca. Por esse motivo, Wado sequer pestanejou em gastar 350 dólares pelos originais de 3 sessions in a greenhouse e o radical Sem nostalgia, ambos do bahiano-carioca Lucas Santtana.

A única garota do grupo, Misato Suzuki, 24, é fã do que se convencionou chamar de “novas divas”. Roberta Sá, Céu (Vagarosa toca todo santo dia, de cabo a rabo, no seu Iphone 19G último modelo), Mariana Aydar, Karina Buhr, Tiê. Mallu Magalhães não conta. Cantora de maior sucesso do Brasil, Mallu já visitou o Japão dezenas de vezes. Ah, não precisa nem dizer que Susuki é fã incondicional de Los Hermanos. E de Vanguart também.

Rio de Janeiro, 2010

A brincadeira ou exercício de futurologia acima, foi apenas uma maneira criada para elogiar a brilhante música produzida hoje em dia no Brasil. Sem contar as bandas citadas, ainda temos Cidadão Instigado, Lulina, o trio +2, o pessoal do Instituto, Momo, João Brasil, Rômulo Fróis, Thiago Petit, Curumim, Móveis Coloniais de Acajú, Do Amor, Nina Becker, Jonas Sá. Agradeça aos céus por viver numa das eras mais férteis da história de nossa música.

Vivemos num mundo cheio de facilidades tecnológicas que envolvem produção musical, ambiente colaborativo e acesso a informação. Tudo muito bom, tudo muito bem. Só que nem tudo são flores no mundo 2.0. A efêmeridade das coisas nunca foi tão grande. 24 horas estão longe de serem suficiente para absorver a quantidade de coisa que é produzida. É impossível absorver tanta coisa ao mesmoatodahoradeumavezsó.

Mesmo com editais de cultura financiando a produção de discos e shows, programas de TV que se dedicam a cobrir a cena (Experimente, do Multishow, e o Pelas Tabelas, da TV Cultura, são alguns exemplos), e festivais de música do Acre ao Rio Grande do Sul, a sensação que dá é que começar uma carreira musical nunca foi tão fácil e difícil ao mesmo tempo.

Sem querer pagar de nacionalista (mas pagando), você já baixou hoje algum mp3 de um artista nacional? Não? E essa semana? Também não?! Olha. Se eu fosse você, prestava mais atenção aos shows que estão rolando na sua cidade. Procure sobre música nacional em blogs na web. Baixe discos, leia resenhas, corra atrás, pesquisa, comente, colabore, aplauda, xingue. Senão, corre o risco de você se tocar no tempo que perdeu daqui há mais ou menos uns 20 anos, depois de um bando de japoneses começar a hypar o que você nunca deu bola.

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4 comentários em “Desbravando a MBH – música brasileira hoje

  1. Eduardo disse:

    Amo Roberta Sá! Mas ouço Ana Cañas também, Céu… Sururu na Roda… Agora estou conhecendo Monique Kessus (a moça esteve no programa Som Brasil da última sexta, em homenagem a Marcos Valle).
    Tem mais gente, mas o tempo está corrido para lembrar agora…

    Abraço!

    • Pois olhe, Edu, eu não conheço todos os nomes citados, e tenho minhas reservas quanto a esta história de “novas divas”, acho que muitas delas ainda tem que comer feijão um tempo para isso. Mas o incrível para mim é que esta diversidade está passando quase toda ao largo das mídias convencionais, em sua grande maioria. Fora a MPB FM, que toca alguns desses nomes, mas aposta nos mais “convencionais” (Roberta Sá sim, Wado não, Macaco Bong nem pensar). Até mesmo a mais “pop” desses nomes, a Mallu, estourou na net, no Youtube. Claro que isto não significa falta de estratégia de marketing, muito pelo contrário. Só que os públicos atingidos por esse pessoal são aina muito restritos. Será que em 2028 eles serão reconhecidos como o as gerações 59 (bossa), 69 (tropicália), e outras são reconhecidas hoje, atingirão um público mais amplo? É a pergunta.

  2. Janaina Marquesini disse:

    Também concordo sobre o balaio das “novas divas” gosto da Roberta, mas me incomodo com a escola de cantar Marisa Monte. Seria bom se surgissem novas, Aracis, Elizeths, Dalvas, Elis e Maísas… mas não. Elas insistem em copiar Marisa, insistem em ser iguais, isso chega a ser irritante. Eu arrisco em responder a pergunta, em 2028 não haverá referências de hoje, isso se a produção musical continuar assim, aposto no resgate da cultura popular. Pode ser uma belo marco e uma grande salvação para nossos tempos.

    • Pois é, Janaina, acho que faz falta uma Cassia Eller nessa nova geração, uma que saia do contexto com uma voz tão pessoal e inimitável que deixe na cara como as outras são iguais demais. A quantidade de clones da Ana Carolina (de quem nem gosto) hoje chega a ser espantosa. Mas acho que algumas acabarão achando caminhos – a Céu é uma que acho que já vai achando. Talvez seja só questão de maturação, tomara. Abraços.

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