Dois, ou muitos, Severinos, e um voto

O post mais lido deste blog até hoje é sobre crítica social na música – aqui. Não por acaso, sem dúvida. E, embora este blog não seja sobre acontecimentos, não seja jornalístico e não precise de gancho para nada, o assunto me interessa. Volto a ele, por outro viés.

João Cabral de Melo Neto escreveu Morte e Vida Severina entre 1954 e 1955. Narra a saga de um retirante nordestino, fugindo da seca ao longo do Rio Capibaribe. O auto foi musicado em 1966 por Chico Buarque. A canção que se tornou mais famosa é uma ladainha (formato de oração em que as frases são repetidas pelo coro dos fiéis) cantada ao pé da cova de um lavrador assassinado por um dono de terras.

Funeral de um Lavrador – Chico Buarque sobre poesia de João Cabral de Melo Neto (Versão com arranjo de Ennio Morricone)

Tudo em Funeral de um lavrador é constatação. Há muito pouco de revolta, ou nada. O canto em tom menor, melancólico e propositalmente monótono (o arranjo de Morricone ainda é mais cinematográfico; o original do álbum do Chico é monocórdico), não quer cobrar nada. Mas há a lembrança de um desejo de reparação ou justiça: a cova “é a terra que querias ver dividida.” Neste grande poema, João Cabral generaliza o nome Severino de duas formas diferentes: lembrando na própria apresentação do protagonista:

Somos muitos Severinos
Iguais em tudo nesta vida

E além disso, pela transformação da palavra em adjetivo, podendo ser aplicada a outros objetos e situações.

Em 1994, os Paralamas do Sucesso lançaram o álbum Severino, que foi praticamente ignorado no Brasil, incluindo muitos jornais. O Globo, ao ser preterido em uma entrevista exclusiva de lançamento, simplesmente não tocou no assunto Paralamas por quase um ano. Coisas de nossos jornais que não sabem – ou não querem – diferenciar seus interesses do interesse do público.

Herbert Vianna parte do duríssimo retrato traçado por João Cabral para, em várias faixas do álbum, atualizar a visão de um Brasil que mudara muito pouco em 40 anos. À diferença de João Cabral, Herbert não assume a primeira pessoa do nordestino, embora seja pernambucano de nascença. Prefere fazer a oposição entre os despossuídos severinos e os grupos da elite política e econômica do país que permitiram a perpetuação desta situação deste sempre – ou como se diz em Pernambuco, os Cavalcanti e os cavalgados:

Gerando um filho / Fazendo um acerto
Plantando milho / Estou em reunião
Pedindo aumento / Não estrague o meu dia
Passando fome / Diga que eu não estou
Na construção / Num belo apartamento
No hospital / Num restaurante francês
Ajoelhado / Oh, não, é você de novo
Está faltando / Ainda é começo de mês

Não me estrague o dia – Paralamas do Sucesso

Herbert explicita a dicotomia do discurso duplo ao gravar a voz em dois registros diferentes, as frases severinas com melodia reta, apenas um nota, e a seguinte em tom mais agudo e reforçada por dobras.

Este recurso é repetido, de forma diferente, na canção que acusa mais fortemente o diálogo com Morte e Vida Severina. Em O Rio Severino ouve-se alternadamente a voz de Herbert distorcida e quase gritada, como que ouvida pelo rádio, e quase sussurrante, comentando o verso anterior:

Um tísico à míngua espera a tarde inteira pela assistência que não vem
Mas vem de tudo n`água suja, escura e espessa deste Rio Severino, morte e vida vêm
Mas quem não tem abc não pode entender HIV nem cobrir, evitar ou ferver
O rio é um rosário cujas contas são cidades à espera de um Deus que dê

O Rio Severino – Paralamas do Sucesso

A dicotomia entre o meio urbano e uma população rural (identificada com a ida de Severino do campo para a cidade) se reflete no arranjo de O Rio Severino. Herbert, que já havia gravado a música e seu álbum solo Ê Batumaré, pretendia um arranjo de sonoridade regional. Bi e Barone, companheiros de banda, preferiam uma instrumentação mais pesada. O resultado une estas duas possibilidades colocando lado a lado riffs de viola caipira e de guitarra. A pegada roqueira dá à canção o tom de protesto explícito que era implícito na poesia de Cabral.

A capa do álbum Severino, de acordo com o site da banda, “foi a primeira da banda a explicitar a preocupação com um olhar artístico”. O design do artista plástico Gringo Cardia baseia-se na obra de Arthur Bispo do Rosário. Bispo, o despossuído-mor: na Véspera de Natal de 1938, Arthur “foi detido e fichado pela polícia como negro, sem documentos e indigente, e conduzido ao hospício”. Porém, a partir de uma visão em que Deus lhe encomenda a listagem completa de sua Criação para o Juízo Final, Bispo passa a inventariar o mundo, criando uma obra singularíssima e esplendorosa, tendo sido associado a trabalhos de vanguarda do século XX (uma associação interessante entre Bispo e Marcel Duchamp está aqui).

Bispo, de despossuído absoluto, apropriou-se do Universo através da linguagem. Em O Rio Severino, Herbert Vianna pergunta aos berros, a voz distorcida como um locutor de rádio sensacionalista: “O que é que você tem?” A pergunta pode ser interpretada como falando de uma doença (mental?) ou ao pé da letra. Severino retirante (assim como Bispo, nascido em Sergipe e migrante para o Rio) não tem nada, nem mesmo um sobrenome que o diferencie de outros Severinos.

A canção dos Paralamas grita ironias:

É muita gente ingrata reclamando de barriga d`água cheia, são maus cidadãos
É essa gente analfabeta interessada em denegrir a boa imagem da nossa nação
És tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem acesso fácil a todos os teus bens
Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre e reza à espera de um Deus que não vem

A descrição do descaso histórico – por parte de uma parcela diminuta da população em relação a outra, gigantesca e hoje não apenas no campo, mas nas cidades – como prevê uma cigana no auto de João Cabral, sobre um recém-nascido – pode parecer simples recurso metafórico, e mesmo demagógico. Porém, por incríveis que sejam, são traduções em palavras de um discurso audível e subjacente na campanha presidencial que assistimos, por ser não apenas uma atribuição de culpa, mas um diagnóstico histórico.

Deixo para o fim do artigo uma declaração de voto. Passando propositadamente ao largo do festival de acusações de parte a parte, e dos deslizes éticos ou crimes (dependendo do discurso e do interesse), votarei em Dilma Rouseff para presidente. Porque considero, numa perspectiva histórica, que as pessoas descritas por João Cabral de Melo Neto e por quem clamaram os Paralamas nas canções acima pela primeira vez foram vistas e tiveram alguns direitos simples que são desdenhados por outra parcela da população, que não abre mão destes mesmos direitos por nada. Uma parcela que considera que nada que foi feito serve se não houver educação, mas que não gostaria de perder a TV por assinatura, e se compraz em considerar alienado o voto diferente do seu, como afirmou firmemente Maria Rita Kehl em seu artigo Dois Pesos, e foi demitida do jornal Estado de São Paulo por isso. (veja aqui). Voto, como grande parte do país, simplesmente para além de uma condenação de governos anteriores, porque quero a continuidade deste foco, e porque percebo que grande parte das forças que se identificam com as partes que destaquei em negrito nas letras de Herbert Vianna se agruparam em torno da candidatura de José Serra. E considero que o Brasil já passou desta fase. Votei por uma nova fase no primeiro turno, com Marina Silva. E voto no segundo pela melhoria possível, e contra a volta ao poder de quem o teve por 500 anos. Meu voto é severino. Apenas mais um. Mas vale tanto quanto qualquer outro. E, como disse João Cabral, somos muitos.

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2 comentários em “Dois, ou muitos, Severinos, e um voto

  1. Edu disse:

    Alguém mencionou (acho que em meu blog) que a alternância de poder é saudável, e nisso concordo, desde que seja possível altenar propiciando estágios melhores de condições de vida da população (que inclui os Severinos). Já no futebol, tanto faz para nós, cariocas, que o RS alterne quase que indefinidamente seus campeões entre duas principais equipes do estado; mas o que será que os gaúchos (principalmente os torcedores do Brasil de Pelotas e do Juventude) acham disso?

    Dia chegará, acredito, em que nossos artistas cantarão/contarão histórias inspirados no amor, na felicidade e na plenitude do povo; mas de verdade, e não aquelas canções ufanistas ou alienadas que serviam propositalmente ou não à ditadura militar. Obviamente, para isso, TODOS os brasileiros precisam conduzir a nação, evitando repetir os erros do passado.

    “Este é um país que vai pra frente!”

    • E aí, Edu. Olha, acho pluralidade de opiniões bem mais importante que alternância de poder. Os tucanos só acham boa a alternância em nível nacional – em SP e MG, neca. Agora, se tivéssemos uma oposição responsável por aqui, em vez de 30 denúncias falsas para duas ou três verdadeiras como os jornais imparciais fizeram, teríamos uma fiscalização real do governo, o que serviria no mínimo para que o novo governo fosse melhor, ganhasse quem ganhasse. Do jeito que se fez, se o Serra ganha o governo atual fica demonizado (o que é absurdo), e se a Dilma ganha fica inteiramente absolvido (o que é igualmente absurdo). A única candidatura que teve isenção de opinião foi a Marina – votei nela. Agora, voto Dilma pesando prós e contras – voto crítico, mas convicto.

      Sobre o segundo parágrafo, o Millôr tem uma frase ótima, que no mundo perfeito não haveria humoristas, que vivem do erro alheio, do defeito, da falha. Mas então, sem humoristas, não seria um mundo perfeito, acrescento eu. Sou um otimista nato, mas acho que sempre haverá erros a serem corrigidos, injustiças a serem reparadas. E os artistas sempre terão o que cantar, seja apontando o erro, seja apontando a utopia. O que pode ser a mesma coisa, se o artista for bom. Abraços.

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