O voto – e o que vale agora?

Forró do Largo, de Ivan Lins e Vitor Martins, é do álbum Nos Dias de Hoje, de 1978, um momento em que uma tímida abertura começava a ser vislumbrada no país. É quase toda ela um xote despretensioso, narrando pela centésima vez a história do sujeito que do forró vai para o mato com a menina (Só Luiz Gonzaga deve ter uma dez dessas). E daí acorda dia seguinte sem pai nem mãe. Até que chegamos à última estrofe:

Do forró do largo, o que lhe restou
Foi o “tito” d’eleitor, que ninguém quis lhe roubar
E que naquela hora lhe valeu o que vale agora.
(E o que vale agora?)

Sempre achei engraçado esta crítica política enfiada à força no fim da música. Era uma época em que isto soava justificado, assim como a foto fake de Ivan fichado pela polícia que ilustra a capa do álbum. Mas não custa perguntar de que dias de hoje falamos, afinal, quando manifestos pró-candidatos estão sendo divulgados com nomes igualmente enfiados à força (o de Ivan Lins estava no do Serra, sem autorização).

Mas o que me interessa mesmo é a pergunta final que Ivan repete no fim da canção. Em 1978, Figueiredo foi “eleito” presidente indiretamente pelo Congresso, Congresso este eleito nas circunstâncias que se pode ler aqui. A sensação – correta, em sua maior parte – de que o voto não valia nada, pareceu desfazer-se com a redemocratização, para hoje ameaçar voltar em grande parte da população.

Então, sem a pretensão de fazer uma tese acadêmica, acho que cabe fazer novamente a pergunta da letra de Vitor Martins. E pensar no que o voto de cada um pode contribuir para uma construção de país, se o voto é eficaz, se é suficiente, o que mais se pode e precisa fazer, e como novas formas de manifestação – como as redes sociais, que serviram tanto para propagar a histeria sobre o aborto quanto para ridicularizar a farsa da bolinha de papel – são, ou poderão ser, instrumentos de democracia válidos à medida em que estejam acessíveis a todos, tanto quanto o voto. Pois que o voto é algo que deve ser instrumentalizado por acesso à informação não manipulada por interesses corporativos, coisa que, creio eu, tende a se democratizar, assim como a produção e distribuição de música se democratizou com a derrocada da indústria de disco e as possibilidades da Internet. Algo que talvez não dependa tanto de ações políticas e de controles sociais da mídia (ao qual sou favorável dentro da democracia, mas é outra discussão), e sim de um processo histórico de descentralização da informação que enxergo, para bem e para mal,  inevitável, um anti-1984, anti-anti-utopia.

Enfim, era isso. A meditar para este domingo. E todos os próximos.

Forró do Largo – Ivan Lins

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