God spells

Assisti ontem um excelente documentário sobre John Lee Hooker. Ao tratar de suas primeiras lembranças e influências, surgiu na tela uma Igreja Protestante cantando uma melodia gospel tradicional, com os típicos coros canto-resposta da congregação, ilustrando as memórias que ele narra e que afirma terem sido condicionantes do blues de que foi um dos formatadores. Não é novidade como este canto religioso, em última instância, originou a música popular americana em suas numerosas vertentes – blues, jazz, rock, funk.

No entanto, ao se ouvir a música que se intitula gospel atualmente, a impressão que tenho é bem diferente. Longe de achar que a música protestante de hoje deveria ser como a de um século atrás, o que acho é justamente o contrário: ela está igual demais, não a seus primórdios, mas a tudo o que está em volta.

(O objetivo deste blog, é bom que se diga, não é falar mal de nada nem ninguém. O que não gosto, ou não acho relevante, não cito, e esta é a maneira que tenho de expressar minha opinião. Mas outra coisa é passar propositalmente ao largo de fenômenos musicais e culturais de importância até mesmo política, e sinto-me à vontade para tratar aqui de qualquer tipo de música popular.)

Talvez não valha a pena tratar das relações entre religião e música, que são literalmente milenares. Seria aprofundar demais a discussão. Baste-me lembrar que esta relação íntima interferiu na evolução da arte, mas não impediu (muito) que ela se desenvolvesse ao longo dos séculos. Em compensação, aviso que vou enveredar por uma análise, digamos, sociológica, do crescimento das Igrejas Pentecostais no Brasil. Vai haver generalizações, aviso também. Espero compensá-las no final.

Não é novidade que as Igrejas chamadas Neopentecostais tem seu público majoritário nas classes mais baixas. Ocorre então um fenômeno de mimetismo social – o pentecostal, geralmente pobre, quer ser aceito como classe um pouco mais alta – não é à toa que na Igreja Universal há um culto específico chamado Corrente dos Empresários. Não vai aqui nenhum preconceito nem reprovação, aspirar melhoras de vida é legítimo. Apenas registro para chegar agora à música evangélica.

Ela será reflexo disso também. Não lhe cabe ser diferente, pelo contrário. Ela serve como identificação social, em dois sentidos diversos. Em termos formais, ou seja, no estilo, ela tem o objetivo de ser igual aos estilos existentes, porque assim provoca também a identificação do ouvinte com os grupos sociais a que aspira.

Mas no conteúdo da letra, ocorre o contrário: toda letra evangélica trata de louvar a Deus, não há outro assunto. Não discuto motivos doutrinários. Mas este conteúdo diferenciado expressa uma vontade oposta à anterior: a afirmação de ser diferente do mundo (estar no mundo sem ser do mundo, como disse Jesus). Ou seja, há uma aparente dicotomia aqui, entre ser igual a todo mundo e se diferenciar Mas esta dicotomia na verdade é superficial, apenas aparente. A aspiração última é ser aceito socialmente, mas por um merecimento transcendente, de fundo moral (que sabemos, não é o que guia a sociedade em suas estratificações…)

Daí a cópia de gêneros – rap, hip-hop, heavy, forró, pagode – com letras de louvor que não tem absolutamente nada a ver com os estilos, são mesmo a negação deles em termos históricos e estéticos. Absoluta descontextualização. é como se estes estilos fossem batizados, purificados – vá, rock, e não torne a pecar! E no entanto, os estilos são seguidos à risca tanto quanto possível. A legitimação moral está na letra, a identificação social toda na parte musical propriamente dita. Aí está a verdadeira dicotomia.

E então, assim como o a pessoa que frequenta a igreja pentecostal se autovaloriza dentro de um sistema de valores absolutamente conservador e em relação a ele, sem se diferenciar, mas ao contrário, se identificando (eu posso estar com eles, sem ser como eles), e passa a usar o terno como um símbolo disso, a música evangélica também se mimetiza de outras, e quanto mais igual às outras, melhor será. Sucessão de clichês propositais, com o objetivo de se fazerem reconhecer, e ao mesmo tempo (pelas letras de louvor) mostrar como pode ser diferente, sendo tão igual.

Incondicional – Oficina G3

É impossível a este gospel hoje ser original ou fecundar o nascimento de novos estilos, como fez na virada do século 20. A perfeição técnica é valorizada, mas seu objetivo não é mais a investigação estética, como o protestante Bach fez um dia ao explorar todas as possibilidades harmônicas em seus corais, por exemplo. Mas é claro que há exceções, honrosíssimas. Para não dizerem que eu escrevi este texto para malhar e não aponto caminhos:

Get away, Jordan – Take Six

O Take Six pega exatamente a tradição gospel original – solo e respostas da congregação – que encantou a infância de John Lee Hooker, e a leva milhas e milhas adiante, sem negar o que é – proud and loud, como eles dizem. Em vez de tentarem corrigir a arte alheia copiando-a, tomam a sua própria arte, e se apoderam dela ainda mais, tornando-a original, nos dois sentidos da palavra: algo que vem de primórdios, e algo que é feito pela primeira vez. Uma boa dicotomia, afinal.

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2 comentários em “God spells

  1. Edu disse:

    Sempre me faltou paciência para ouvir gospel exatamente pela invariabilidade das letras, ainda que um ou outro estilo utilizado me agrade. Dos nacionais que tive paciência para ouvir, restaram Catedral (acho que saiu do rótulo gospel, né?) e Oficina G3 (umas duas ou três canções).
    Dos estrangeiros, é mais fácil gostar, já que meu inglês “ouvido” é quase nulo; aí é só estabelecer se gosto ou não gosto do som produzido.

    (Acredito que minha ignorância musical está diminuindo com a leitura de seu blog… Rsrsrs)

    Abraço!

    • Oi, Edu. Coloquei o Oficina G3 aqui justamente porque tecnicamente eles são bons, e até fogem um pouquinho do padrão. Ainda assim, coloquei-os como exemplo de cliche, porque não fazem nada de diferente de uma banda de rock do estilo deles – fora cantar para Jesus… Já o Catedral, acho meio cópia da Legião demais, honestamente. Cópia do estilo, ainda dá para aguentar, mas de um grupo em particular, para mim não dá. Abraços.

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