E agora, José

Vão falar, e com razão, que não consigo ficar mais de uma semana sem falar de Caetano Veloso aqui no blog (não sou o único, veja aqui). Mas o fato é que esta canção me apareceu avassaladoramente pela frente esta semana. E é uma canção que me impressiona pela unidade de seus elementos, ao mesmo tempo que se abre à interpretação múltipla – como a boa arte é, aliás.

O álbum de Caetano de 1987 está dentro de uma alternância entre sonoridades eletrônicas, mais “pop”, dos Velô e Estrangeiro e a mais crua, acústica, deste e de Circuladô. O próprio Caetano considera que obteve melhores resultados nestes. Esta sonoridade serve à perfeição a esta curta letra que fala de uma crise pessoal.

O título e boa parte das referências da letra de José são bíblicos, coisa rara na obra de Caetano. A parte principal da história de José, vendido pelos irmãos que o invejavam por ser o preferido do pai, está em Genesis 37 (tirei a numeração de versículos aqui). Em negrito, as partes citadas diretamente na letra:

Os irmãos de José foram apascentar os rebanhos de seu pai em Siquém. Israel disse a José: “Teus irmãos guardam os rebanhos em Siquém. Vem: vou mandar-te a eles.” “Eis-me aqui”, respondeu José. “Vai, pois, ver se tudo corre bem a teus irmãos e ao rebanho, e traze-me notícias deles.” Enviou-o do vale de Hebron, e José foi a Siquém. Um homem encontrou-o errando pelo campo: “Que buscas?” perguntou ele. “Busco meus irmãos, respondeu ele. Dize-me onde apascentam os rebanhos.” E o homem respondeu: “Partiram daqui e ouvi-os dizer: Vamos a Dotain.” Partiu então José em busca dos seus irmãos e encontrou-os em Dotain. Eles o viram de longe. Antes que José se aproximasse, combinaram entre si como o haveriam de matar; e disseram: “Eis o sonhador que chega. Vamos, matemo-lo e atiremo-lo numa cisterna; diremos depois que uma fera o devorou; e então veremos de que lhe aproveitaram os seus sonhos.” Ouvindo-o, porém, Rubem, quis livra-lo de suas mãos: “Não lhe tiremos a vida, disse ele. Não derrameis sangue. Jogai-o naquela cisterna, no deserto, mas não levanteis vossa mão contra ele.” Pois Rubem pensava livrá-lo de suas mãos para o reconduzir ao pai. Quando José se aproximou de seus irmãos, eles o despojaram de sua túnica, daquela bela túnica de várias cores que trazia, e jogaram-no numa cisterna velha, que não tinha água. E, sentando-se para comer, eis que, levantando os olhos, viram surgir no horizonte uma caravana de ismaelitas vinda de Galaad. Seus camelos estavam carregados de resina, de bálsamo e de ládano, que transportavam para o Egito. Então Judá disse aos seus irmãos: “Que nos aproveita matar nosso irmão e ocultar o seu sangue? Vinde e vendamo-lo aos ismaelitas. Não levantemos nossas mãos contra ele, pois, afinal, é nosso irmão, nossa carne.” Seus irmãos concordaram. E, quando passaram os negociantes madianitas, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos ismaelitas, que o levaram para o Egito. Rubem voltou à cisterna, e eis que José já não estava ali. Rasgou então suas vestes e voltou para junto dos seus irmãos: “O menino desapareceu, disse ele. E eu, para onde irei?” Tomaram então a túnica de José, mataram um cabrito e a mergulharam no seu sangue. E mandaram-na levar ao seu pai com esta mensagem: “Eis o que encontramos: vê se não é, porventura, a túnica do teu filho.” Jacó reconheceu-a e exclamou: “É a túnica de meu filho! Uma fera o devorou! José foi estraçalhado!” E, rasgando as vestes, cobriu-se de um saco, e chorou o seu filho por muito tempo. Todos os seus filhos e filhas vieram consolá-lo, mas ele não aceitou nenhuma condolência: “É chorando, disse ele, que descerei para junto de meu filho na habitação dos mortos.” Foi assim que o seu pai o chorou. Os madianitas venderam-no a Putifar, no Egito, eunuco do faraó e chefe da guarda.

Caetano, portanto, se põe no lugar do próprio José, no momento que destaquei no primeiro negrito, aguardando impotente pelos acontecimentos.

Os outros elementos da canção corroboram em tudo para a construção: a melodia, toda cantada no registro grave (estratégia repetida em Noite de Hotel, logo adiante no mesmo álbum), em sua primeira parte, é formada exclusivamente por frases descendentes. A partir da frase central O poço é escuro, mas o Egito resplandece, isto muda. A primeira parte da frase fala da escuridão e é descendente, a segunda fala de luz e é ascendente. A partir daí há uma alternância descendente/ascendente até o final.

O arranjo é inteiramente conduzido pelo baixo sem traste do precocemente falecido Tavinho Fialho, numa melodia lamentosa tão bonita quanto a da canção em si. Em dois momentos ouve-se um repentino acorde de teclado, logo após a primeira referência ao Egito na letra. Aí entro no terreno da interpretação pessoal. Tenho para mim que Caetano simboliza aqui com o Egito não apenas o futuro, mas o transcendente, a idéia de um destino que faça sentido e que se desvela a nós aos poucos – ou talvez em sonho, como acontece com José no relato bíblico. O som repentino do teclado, forte ainda que em segundo plano como uma trovoada que ribombasse, me soa como um vislumbre fugaz deste sentido oculto nas coisas. Como um céu que se abre para uma revelação, uma epifania instantânea; como um clarão na abertura do céu, visto do fundo do poço, que logo se apaga, e fica na memória.

A identificação de José, o sonhador, com o trabalho do artista é clara: José não apenas tem sonhos premonitórios, mas também sabe interpretar os sonhos alheios. Isto será sua salvação mais tarde, mas neste momento é sua perdição, o torna incompreendido, isolado, exilado. Ou talvez não se trate apenas do artista. Trata-se da procura humana de uma ordem no mundo. E a indicação de que o Egito resplandece no meu umbigo, que o transcendente está em cada um… bem, aí começamos a entrar em outro terreno que vai além do musical. Passe aqui para ir mais longe. Estou indo para lá agora.

Estou no fundo do poço
Meu grito lixa o céu seco
O tempo espicha mas ouço o eco
Qual será o Egito que responde
E se esconde no futuro?
O poço é escuro, mas o Egito resplandece
No meu umbigo, e o sinal que vejo é esse
De um fado certo
Enquanto espero
Só comigo e mal comigo
No umbigo do deserto

José – Caetano Veloso

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2 comentários em “E agora, José

  1. Lucas Aquino disse:

    Muito bacana a sua análise. Como você chegou a essa referência bíblica? Eu jamais imaginava que essa música teria essa referência. Ela, graças a sua análise, tornou-se ainda mais rica e interessante para mim.

  2. […] José é uma letra profunda e enigmática à primeira vista. O que Caetano queria dizer quando cita um Egito que resplandece no seu umbigo enquanto ele está no fundo do poço? Por que o título da música é José, quando não há uma menção sequer a qualquer José na sua letra? Foram essas algumas das perguntas que me ocorreram durante os vários dias que estive ouvindo, contemplando e cantando essa música. Interessantemente, e quase que por acaso, deparei-me com uma análise sobre essa música, que faz parte do álbum Caetano de 1987, no blog do Túlio Ceci Villaça. […]

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