“Sou pintainho de cauã que do ninho caiu”

Elomar Figueira Mello é um trovador medieval perdido no Nordeste – ou melhor dizendo, que se achou por lá. De ascendência hebraica por parte de mãe, de uma linhagem de cristãos novos, Figueira e Azeitum,  tem uma obra que começou como cancionista e hoje já conta várias óperas.

A Balada do Filho Pródigo, gravada por Elomar no álbum em Concerto, de 1989, faz parte de uma coleção de canções chamada Antiphonaria Sertani, e canta a história da parábola do mesmo nome, contada por Jesus em Lucas 16:

Um certo homem tinha dois filhos; e o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estómago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundáncia de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés; e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou, e não queria entrar. E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.

Elomar, como Caetano em José, assume a primeira pessoa da história, narrando-a toda do ponto de vista do filho no momento em que este se decide a voltar para casa e pedir perdão ao pai. A letra é um solilóquio, e a melodia é inteiramente desenvolvida a partir do desdobramento de uma única frase musical, apresentada de cara, em perdido e muito longe vou, repetida terça abaixo em bem longe, muito longe estou, e finalizada em da casa de meu pai. A reiteração do tema sob diferentes formas sempre facilmente reconhecíveis reforça a impressão de uma idéia fixa, de um pensamento voltado para apenas uma direção – a de casa.

Mas Elomar não se limita e contar uma história, de resto já bem conhecida. Ele resiste à idéia de fazer uma adaptação nordestina da história, que soaria talvez pitoresca, mas sem dúvida forçada. A chave para a compreensão da música está na harmonia. A Balada do Filho Pródigo é baseada em acordes simples, chamados triádicos, mas segue uma ordem de modulações internas bastante sofisticada, que vai se adaptando à sequência dos acontecimentos narrados e à disposição de espírito correspondente do narrador.

Assim, a frase se hoje sofro assim corresponde a uma modulação que prepara o início da narrativa dos padecimentos. De modo simétrico, esta modulação é repetida no fim da canção, na frase lembrando-me que o amor, mas agora preparando para a narração do projeto da volta para casa – quando também o tom volta ao inicial. Entre estes dois pontos, o de maior sofrimento está a partir de sem fé, o coração, quando tanto a harmonia se esgarça em dissonâncias crescentes quanto a melodia se afasta pela única vez do tema, desmanchando-se no desespero, para logo depois controlar-se e, com a melodia inicial, cantar os versos pungentes do título do post, única referência regional da toda a letra (fora a introdução falada), e que soa mais dolorosa ao se ter em conta que o acauã – cantado também por Luiz Gonzaga (aqui) – é uma ave de rapina.

E mais uma característica harmônica dá o toque definitivo à narrativa, por ser construída alternando o modo maior tradicional, o modo lídio, com a quarta nota da escala levantada, e o mixolídio, com a sétima abaixada (desculpem os não-músicos, mas isto é essencial), características marcantes da música sertaneja e nordestina. Os modos aparecem principalmente nos ponteios do violão de Elomar que entremeiam os versos, sublinhando os acontecimentos. Mas também servem para ressituar os acontecimentos, sem a necessidade de adaptações forçadas e pitorescas na letra: o trovador faz com que a história milenar descreva uma parábola que atravessa séculos e oceanos, e pouse junto a nós, instantaneamente familiar. Como provavelmente seu autor original queria que fosse.

Balada do Filho Pródigo – Elomar

Anúncios

2 comentários em ““Sou pintainho de cauã que do ninho caiu”

  1. Fagner disse:

    Muito obrigado pelo texto e pelo link!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s