Reis de Janeiro

Em alguns lugares do Brasil, o Natal acontece em 6 de janeiro. Não porque a data de nascimento de Jesus seja outra, mas porque o dia da visitação dos magos é o dia do verdadeiro festejo, quando os grupos de músicos paramentados se reúnem no meio da praça para encerrar o ciclo natalino contando toda a história tradicional em presépio, e fazem a visitação das casas levando a festa de porta em porta. É a Folia de Reis.

Tavinho Moura conhece bem estas tradições, e sua obra musical é profundamente enraizada no folclore, principalmente mineiro. Mas sua pesquisa não é apenas folclórica, mas musical. Reis de Janeiro, composta em parceria com o saxofonista Nivaldo Ornelas, tem todos os elementos de uma canção de Reis, incluindo a identificação dos Reis (somos de muito longe, longe daqui), a conclamação na praça (segredos da divindade, notícias belas, nobres senhores, vinde escutar), a bênção sobre a casa que recebe os celebrantes (Ele fez morada e nessa casa santa o pão é sagrado) numa letra que sabe tirar partido do simbolismo católico de forma inspiradíssima.

A  melodia da canção, embora não seja monocórdica, é baseada num desenho simples que destaca a característica discursiva da letra. A notar, a subida de nota nas frases por cima de seus telhados e nobres senhores, vinde escutar; a descida para o grave em regadas de aguardente; a escanção das sílabas em o pão é sagrado, de certo modo referente à celebração religiosa; enfim, toda uma conformidade de letra e melodia trabalhadas lado-a-lado.

Outro acerto de Tavinho está no ritmo, um cateretê em compasso 5/4 (aliás, compassos alterados são uma especialidade dele, e ninguém pense que não existem na música folclórica. Pelo contrário, é dela mesma que ele os tira), que mesmo complexo e de difícil execução permanece dançante e festivo. Mário de Andrade registra que

Para o caipira paulista todas as danças são invenção diabólica exceto o cateretê, porque esta foi abençoada e até praticada por Jesus, quando em sua peregrinação.

Tavinho gravou Reis de Janeiro duas vezes. A primeira vez no excepcional álbum Engenho Trapizonga, de 1982, com arranjo do parceiro Nivaldo, que tocou sax, acordeão e até violão:

Reis de Janeiro – Tavinho Moura – versão do álbum Engenho Trapizonga

Em 2001, Tavinho gravou Cruzada, um álbum voltado para o repertório de viola caipira e violão, principalmente instrumental, entremeado por algumas canções, quase todas antigas, como a faixa título. Entre elas, Reis de Janeiro, agora num arranjo apenas para dois violões e percussão. Ao contrário do arranjo original, que tenta sublinhar o lirismo da canção, este é cru como todo o álbum, e reforça o seu caráter popular. Tavinho também canta num registro mais grave, que parece menos festivo, mas apenas deixa de lado eventuais excessos de interpretação para fixar-se nos elementos ritmo e letra.

O resultado é que, quanto mais a canção se aproxima de sua matriz de festejo e folia, mais cresce. Pessoalmente, se eu ouço Reis de Janeiro dez vezes seguidas, me emociono em todas. Experimente para ver.

Reis de Janeiro – Tavinho Moura – versão do álbum Cruzada

Acesa sobre as montanhas vejo brilhar a estrela adorada
Iluminando o mistério, incendiando a folia
Que já vai chegar
Seu canto invade a cidade,
Espalha por cima de seus telhados
Nas vozes de seus pastores regadas de aguardente
Segredos da divindade, notícias belas,
Nobres senhores, vinde escutar
Que ele fez morada
E nessa casa santa o pão é sagrado
Somos de muito longe, longe daqui
Vivendo em nossa lembrança, aquela criança que despertou
Naquele lugar, naquele dia,
Canta mais, coração, despertou naquele dia

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Um comentário em “Reis de Janeiro

  1. Adriano dos santos Martins disse:

    Muito legal! Conheci essa espantosa canção no show de lançamento do primeiro disco da Titane, em 1986 e desde lá recordo esses versos e melodia. valeu!

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