Três cabeludos

A carreira de Roberto Carlos, entre 1968 e 1972, ao longo de quatro álbuns, passou da Jovem Guarda à música romântica e ele de ídolo da juventude a ídolo nacional. Isto é sem dúvida uma simplificação, mas também não há dúvida de que este foi o período em que se forjou o Roberto Carlos que, mesmo diluído, existe até hoje.

Porém, isto não ocorreu sem um bocado de experimentações que, mesmo não tendo sido levadas adiante no sentido de se firmarem esteticamente na obra de RC, ainda assim deixaram suas marcas, seja no sentido pessoal como no artístico. Assim foi com o flerte com o espiritismo que o levou a visitar o médium Chico Xavier em Uberaba, ao mesmo tempo em que firmava sua fé católica e começava a transformá-la em canções. E assim também o flerte com a soul music que acabou dando frutos nestas mesmas canções.

Pode parecer que Roberto tenha ousado mais justamente nas canções religiosas desta época – Jesus Cristo, O Homem, Todos estão surdos – por se sentir confortável em uma temática, digamos, mais conservadora, como uma forma de compensação. Nada mais longe disso. Pelo contrário, nada mas natural que aproximar-se do soul, ritmo com uma ligação fortíssima com a música gospel – vide Marvin Gaye e mesmo Prince, que, ao lado com a temática amorosa e sexual, sempre trouxeram também a religiosa – Sexual Healing lado a lado com What’s going on. Roberto não fez muito diferente disto em sua carreira.

Eu poderia escolher qualquer uma das três canções que citei acima para analisar. Minha preferida é Todos estão surdos.

Todos estão surdos alia o balanço da música black a uma poderosa pregação, em que Roberto tenta fazer uma ponte entre seu público juvenil e o novo assunto que aborda:

Outro dia, um cabeludo falou:
“Não importam os motivos da guerra
A paz ainda é mais importante que eles.”
Esta frase vive nos cabelos encaracolados
Das cucas maravilhosas

Estas frases bem no espírito do filme Jesus Cristo Superstar são quase gritadas por Roberto, que deixa para cantar apenas o refrão (e mesmo assim, numa prosódia melódica que sempre começa ascendente, exaltada) e o lá-lá-lá que se repete da introdução ao final. A estrutura do refrão é interessante, com oito versos, sendo que aos primeiros quatro variam a cada vez, e apenas os quatro finais se repetem, remetendo imediatamente ao lá-lá-lá. Este, sim, é o verdadeiro refrão, um convite à congregação/platéia para cantar junto. E batendo palmas, assim como em Jesus Cristo, como numa boa celebração gospel.

Ou seja, Todos estão surdos seria uma redução da cerimônia religiosa em si, alternando o sermão – seja católico ou protestante – e as partes rituais que atuam no sentido de unir o pensamento da assembléia numa mesma função simbólica. Para isso, um refrão em lá-lá-lá é tão bom quanto qualquer outro, ou talvez melhor, por se poder atribuir qualquer simbolismo a ele. Neste caso, ele carrega em si o sentido das últimas frases do refrão anterior. Muito bem, mas só isso não constitui uma canção popular. Tem que haver algo mais que isto.

Todos estão surdos – Chico Science

Chico Science percebeu o que havia a mais. Sua gravação de Todos estão surdos consegue a proeza de ser ao mesmo tempo fiel à original, mantendo as gírias fora de moda e até mesmo o riff da guitarra, e a deslocar no tempo e no espaço, transportando-a da atmosfera soul para o universo manguebeat. É impressionante como o discurso que soava messiânico na voz de RC, com base apenas na nova sonoridade do arranjo, tem ressaltada a sua visão inconformista na voz de Science.

E o maracatu, ritmo negro criado de uma manifestação popular que ao mesmo tempo imitava e criticava a cultura cristã das cortes européias, se conjuga nesta visão de Jesus não como um rei, mas como um amigo, ao mesmo tempo que permanece indignada ao afirmar que a covardia é surda e só ouve o que convém. Science consegue em sua gravação unificar sua visão historicamente ao pensamento de pessoas como Martin Luther King, por exemplo. Mas ele não deixa de acrescentar algo na letra:

Você que está aí sentado, levante-se
Há um líder dentro de você
Governe-o,
Faça-o falar!

Quando Chico Science canta o verso Outro dia, um cabeludo falou, pode estar na verdade falando de Roberto, que gravou Detalhes no mesmo álbum de Todos estão surdos, em 1971, a Detalhes de Se um outro cabeludo aparecer na sua rua. A mensagem no fundo talvez seja a mesma. Talvez, ao longo do tempo, só mudem os cabeludos.

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