Duas Laylas, ou Os Deuses também choram

Eric Clapton não costuma falar muito de sua vida particular. Em compensação, muitos dos seus acontecimentos pessoais mais tenebrosos foram digeridos por ele ao mesmo tempo que eram expostos ao mundo em canções.

O exemplo mais famoso é justamente o que é considerado hoje a obra-prima de sua carreira, o álbum Layla and other assorted love songs, e nele, particularmente, Layla. A história é bem conhecida: Clapton se apaixonou perdidamente por Pattie Boyd, esposa do grande amigo George Harrison, com quem tocara (com George, não Pattie) em While my guitar gently weeps. Harrison compusera para ela Something (o que leva meio mundo a pensar ainda hoje o que tinha de especial esta mulher, que levou dois dos maiores guitarristas do mundo a comporem suas melhores canções para ela). Rechaçado num primeiro momento, Clapton mergulhou (mais) nas drogas, viciando-se em heroína. A história completa em seus detalhes sórdidos, contada pela própria Pattie/Layla, pode ser lida aqui.

Layla é um grito de desespero, uma súplica alucinada, e não só na letra impressionante (você me tem de joelhos, eu estou implorando, querida, por favor!), mas também pelo riff de guitarra que é ele próprio um grito lancinante. O nome Layla é originário da história Laila e Majnun, uma espécie de Romeu e Julieta do mundo árabe, uma história folclórica de amor impossível baseada em fatos reais, e que inspirou diversos escritores persas de várias épocas. A versão que Clapton leu era do poeta Nezani Ganjavi, considerado o maior poeta épico da literatura persa, do século XII.

Layla – versão original

Mas há uma coisa importante a ser notada: a gravação de Layla tem duas partes de tamanho exatamente igual. A primeira metade, com letra e em tom menor, contém o apelo dramático. Porém, aos três minutos e 15 segundos, o arranjo é interrompido para a introdução de um segundo tema ao piano, de andamento mais lento e tonalidade maior, sobre o qual a música se reconstrói. E então o grito é substituído por um lamento pungente da guitarra que se estende por outros 3 minutos e 15 segundos, traduzindo um sofrimento que parece não ter fim.

O blues está na raiz da música de Eric Clapton desde início de sua carreira. No entanto, Clapton é um músico de rock, e o blues aparecia como uma influência forte, não necessariamente como o prato principal de sua obra. Porém, a partir da década de 90, ele aparentemente decidiu explicitar ainda mais esta influência, ao mesmo tempo que saía de uma fase pessoal muito ruim, que incluíram a morte de seu filho de quatro anos, caindo da janela de um apartamento. Ao mesmo tempo em que novamente colocou sua dor em forma de canções, Clapton começou uma espécie de acerto de contas com o passado, tanto musical quanto pessoalmente.

Isto o levou a gravar o CD From the cradle em 1994, apenas com clássicos do blues, além de outros como Riding with the king, com B. B. King (com uma capa sensacional, os dois numa limusine de capota aberta e Clapton de motorista para um King refastelado no banco de trás), e Me and Mr. Johnson, apenas com canções de Robert Johnson. Mas este movimento começa na verdade em 1992, ao gravar o Umplugged para a MTV em 1992. E foi quando ele fez a sua segunda versão para Layla:

A gravação de Layla para o Umplugged MTV passa perto de ser outra canção, tamanha a diferença de leitura e, consequentemente, de sonoridade. É tocada no mesmo tom da gravação original, mas cantada uma oitava abaixo. A voz rascante agora soa suave, e o até riff agudo da guitarra que marcara a gravação original desaparece substituído por uma levada de blues muito mais compassada.

Com isto, não há mais a expressão do desespero. Pudera, passaram-se mais de 20 anos. Eric Clapton não canta mais suas agruras presentes, mas a memória arrefecida destas agruras, tratadas até mesmo com o carinho de quem sabe o quanto amadureceu com elas. Há uma atmosfera de reconciliação, não tanto com Layla/Pattie ou sua lembrança, mas com muito mais, com o passado. A reconciliação possível, não tanto com o pai (My father’s eyes, gravado quatro anos depois) ou com a morte do filho (Tears in Heaven, no mesmo Umplugged), mas talvez principalmente consigo mesmo – e tudo isto através do blues.

Talvez seja, certamente é, um bocado leviano fazer, como fiz, esta espécie de anamnese psicológica de Eric Clapton baseada nas ilações de uma exegese de uma canção. Eric Clapton, de temperamento retraído, passou a vida fugindo da notoriedade e do endeusamento que levou os fãs do Cream a pixarem Clapton is God nos muros na década de 60. Layla foi gravada por ele como “mero” integrante do grupo Derek and the Dominos, como uma forma de não ter seu nome à frente. Sua obra é, em muitos pontos, claramente confessional. Tratando-se de alguém que foi entronizado como Deus, é bonito ver a corajosa exposição de sua demasiada humanidade, com erros e acertos, e seu uso como combustível para sua arte. Pois, se o artista tem algo de divino, contraditoriamente, é na sua humanidade que esta divindade resiste.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s