A utopia Itapuã

Nas aulas-show que já comentei e recomendei aqui intituladas O Fim da Canção, na Rádio Batuta do Instituto Moreira Salles, José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski dissecam no capítulo Visões do Paraiso uma canção em particular:

Saudade de Itapuã (Coqueiro de Itapuã) – Dorival Caymmi

A análise de Wisnik e Nestrovski vai desde como Itapuã era um local afastado da cidade nos anos 40, assim como Salvador era uma cidade apartada culturalmente do Brasil, até detalhes da relação melodia/letra como a repetição de palavras estendida para o agudo usada como uma forma de evocação: o ouvinte é situado na praia de Itapuã enquanto escuta os primeiros versos, para só depois ser avisado de que se trata de uma lembrança: saudade de Itapuã, me deixa.

Mas o que mais me interessa, e que no fundo era o mote da análise, é esta construção do mito de um lugar, e a representação deste lugar, mesmo existente, como uma utopia de lugar, seja no passado ou no futuro, como um Brasil de alguma maneira possível, ainda que na lembrança de um paraíso perdido, mas que persiste na memória e nos guia ainda hoje.

Espera aí, será que não estou exagerando? Será que é possível extrair toda esta torrente de significações desta canção tão simples, como aliás todas do Dorival?

Itapuã – Caetano Veloso (ao vivo)

Wisnik cantou esta música, sem comentá-la, na sequência da enumeração de várias outras que exploram e desenvolvem a idealização de Itapuã como um lugar que, de real, torna-se lendário, e não somente de Itapuã. Maracangalha (a 57 km de Salvador), também de Dorival, assim como a Pasárgada (cidade da antiga Pérsia) do poema de Bandeira, existem ou existiram objetivamente, mas o que importa isso? Importa a simbolização do Paraíso Perdido.

Pois desde a carta de Caminha – que aportou na Bahia – que o Brasil é visto com uma espécie de paraíso reconquistado. Há suficiente literatura sobre isso, da citação famosa de Maiakovski: Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz, até a lenda irlandesa (!) da ilha encantada de Hi-Brasil, ou a também famosa frase de Stefan Zweig, na verdade o título de um de seus livros: Brasil, país do futuro.

Em Caymmi, Itapuã é presente, embora distante no espaço – ele pede ao vento que traga notícias de lá toda manhã. Já em Caetano, é recordação da infância, ou da inocência – distante no tempo. A canção é dividida em duas. A primeira parte, que retorna no fecho, em andamento mais lento, evoca recordações; a segunda e principal, mais movida, invoca a própria Itapuã e a faz presente:

Itapuã,
Quando tu me faltas, tuas palmas altas
mandam um vento a mim assim Caymmi

Ou seja, a canção pela qual Caetano faz a invocação de Itapuã é a própria canção de Caymmi, transfigurada. É Caymmi quem traz notícia de Itapuã para Caetano, toda vez que este precisa. Não à toa, é usado o mesmíssimo recurso de estender para o agudo a palavra do lugar recordado, logo no primeiro verso: Itapuã, logo depois, ainda mais agudo, Abaeté.

E na repetição de um verso inicial encerando a canção, fica claro que o que inicialmente soava como uma história de amor entre homem e mulher, na verdade tinha outro objeto: Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem. Ela é Itapuã, que, mesmo distante, faz-se presente: Nada estanca Itapuã, ainda sou feliz. A utopia de lugar serve de guia para a vida, para a busca desta utopia talvez.

E uma última pista parece reconfirmar esta leitura: na primeira gravação desta canção, no álbum Circuladô, Caetano chamou o filho Moreno para dividir os vocais, cantando inclusive os dois primeiros versos/chave. Caetano passa o bastão do país do futuro, levando seu filho não até Itapuã, mas até Caymmi, reconhecendo que Caymmi, cantando Itapuã, cantou a ilha, ou  melhor, a praia encantada de Hi-Brasil, onde parece que há um homem feliz.

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3 comentários em “A utopia Itapuã

  1. Uma leitura excelente, Túlio, principalmente porque você a baseou sobre o fascinante tema da criação dos mitos. Você criou uma visão bilateral sobre ele. Não só falou como nós brasileiros criamos os nossos próprios mitos dentro da nossa cultura (Itapuã) como também o estrangeiro nos reinventa enquanto mitologia. Dentro da criação nacional do mito, o fazemos com sentimentalismo e nostalgia. Entretanto a criação do mito brasileiro por mãos estrangeiras se dá de uma forma muito diferente. Ainda hoje somos vistos como seres exóticos, belos e perigosos. Há alguns dias atrás fui assistir o novo espectáculo do Wooster Group, Vieux Carré, texto de Tennesse Williams. A história, baseada em vivências pessoais do dramaturgo se passa dentro de uma pensão barata. O personagem principal é um escritor (o alter ego de Williams). Ele escreve sobre os moradores desta pensão, todos marginais naquela sociedade, vivendo sob condições miseráveis. Entre as personagens, há um casal. O marido é um bêbado e a mulher, uma infeliz ( quase sempre tb bêbada). No meio da jornada teatral deste casal, ela entra e anuncia: Encontrei a solução para todos os nossos problemas! Um belo homem brasileiro se encantou por mim! Ela, está prestes a se prostituir por quase nada! O marido, agora rancoroso, em um gesto ímpeto de violência a domina de bruços e a estupra— uma cena chocante que imediatamente me fez lembrar de Marlon Brando e Maria Schneider em Último Tango em Paris. Ali, como, em Breakfast in Tifanny’s, o mito do homem brasileiro para o estrangeiro, ainda é visto, do ponto de vista feminino, como uma salvação/solução imediata para todos os problemas da alma e do bolso (ironia). Do ponto de vista marculino, uma ameaça de destruição através do belo.

    Recriar o olhar estrangeiro de como somos vistos e interpretados aqui fora, é para mim, a verdadeira utopia Itapuã.

    Bjs,

    Simone

    (PS: Agradecimento tb pela recomendação do meu blog nesta casa)
    Simone

    • Sensacional a história, Simone. Já li Um bonde chamado desejo e O doce pássaro da juventude, mas esta eu não conhecia. Rio sempre quando em filmes americanos os bandidos fazem planos de fugir – ou fogem mesmo – para o Brasil. Não é só por uma imagem de impunidade, que há, sem dúvida, mas pelo desejo de ir para o paraíso. (E o mais impressionante é que não é só um mito, vide Ronald Biggs.) Há o mito de lugar – florestas que nem conhecemos, praias maravilhosas – e o mito do habitante, o mestiço branco/negro/índio que nenhum lugar no mundo tem, uma democracia racial forjada à base de liberdade sexual! Repare que, embora a parte final não seja assim, o resto é, e aí como separar o mito do real? Acho que às vezes nem os brasileiros conseguem distinguir. E fico em dúvida também se este olhar estrangeiro é enganado ou se eles enxergam aquilo que somos potencialmente e não sabemos ser realmente.

      Bem, você falou especificamente do homem, eu acabei extrapolando (porque a mulher brasileira também tem sua fama, desde Carmem Miranda) Isso vai longe. Abraços.

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