Eva – uma trajetória

Neste carnaval, entre um desfile de escola de samba e outro, acabei assistindo cerca de 17 segundos de transmissão do carnaval baiano. Neste meio tempo, vi o vocalista de uma banda (Jammil? Araketu? Não tenho idéia) anunciando que iria cantar uma música especial. E o público se entusiasmou ao saber que a canção chamava-se Eva.

Aí achei graça, porque lembrei da origem da música, e fiquei matutando como é que ela foi parar em cima de um trio elétrico em pleno carnaval se Salvador. Eva é de autoria de Umberto Tozzi (com Giancarlo Bigazzi), compositor e cantor italiano. Tozzi é filiado à escola romântica / pop, com uma pitada de rock e um pé e meio naquilo que no Brasil é considerado brega – um formato de canção kitsch que engloba outros astros italianos como Laura Pausini, e que foi o que Renato Russo explorou no seu álbum solo Equilíbrio Distante – uma letra grandiloquente que chega a ser cômica misturando Adão e Eva com a Arca de Noé e tentando canhestramente citar a Teoria da Relatividade (me abraça pelo espaço de um instante) num cenário pós-apocalíptico (dantesco?) em que a humanidade extinta é reconstruída em outro planeta pelo único casal sobrevivente!

Aí a canção aportou por aqui. Em 1983, na onda do nascente rock nacional, gravada pelo conjunto Rádio Taxi, do guitarrista Wander Taffo – este um músico já com história na época, tocando com Rita Lee e Secos e Molhados na década de 70. Taffo teve sempre um trabalho típico do instrumentista exímio que era, dando mais importância à excelência instrumental do que à originalidade da composição. Sua gravação de Eva reforça a pegada roqueira (mas com uma sonoridade limpíssima): Taffo basicamente repete o arranjo original na versão em português, acrescentando lancinantes solos de guitarra sobre as camas de teclados e o refrão feito sob medida para ser cantado em contracanto com a platéia dos shows repetindo Eva! Eeeva!

E então, em 1997, a música deu uma guinada, ao ser gravada por Ivete Sangalo, então vocalista da Banda Eva. O único motivo aparente para a canção ser gravada por eles é a coincidência de nome. Além do mais, era a própria Eva cantando como se fosse o Adão, totalmente incongruente. Mas havia o marketing de uma canção que estava na memória do público esperando para ser relembrada, havia a axé music ascendente, como fora o BRock nos anos 80.

E aí, deu certo. A primeira parte passou a ser um ijexá turbinado, o refrão caiu na timbalada. As guitarras de Taffo se tornaram de Armandinho. O cenário pós-apocalíptico deu lugar a uma celebração, e a música fez um sucesso estrondoso, e catapultou a carreira solo de Ivete.

Não me atrevo  explicar o porque deste sucesso – se soubesse, eu próprio faria canções de sucesso assim. Mas arrisco que, ao acrescentar à canção as levadas dançantes que não tinham absolutamente nada a ver com o tema da canção e que a poderiam tornar mais surrealista do que já era, Ivete e a banda conseguiram um efeito inverso, que foi de anular as referências, ademais datadas, a uma guerra nuclear e seus desdobramentos, e destacarem o que Eva efetivamente é: uma canção de amor, nada mais, por baixo tanto do estofo de percussão quanto das referências simultaneamente bíblicas e de ficção científica.

Eva sobreviveu a esta peregrinação de visões e versões sem perder sua característica original. Pode-se não gostar desta característica, mas há que se admitir, que só uma canção de bom arcabouço tem a capacidade de suportar várias leituras sem deixar de ser ela mesmo.  De pop italiano, passando pelo rock e caindo no axé, Eva permaneceu tão kitsch quanto quando composta. Talvez exatamente por isso tenha feito o sucesso que fez.

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9 comentários em “Eva – uma trajetória

  1. Cadu Corrêa disse:

    Que bonita análise, amigo.
    Viva o brega, o cafona e kitsch! A música tem é que emocionar, sem precoceitos, sem barreiras culturais! Abç

    • Cadu, percebo que você anda mesmo interessado no brega, é a segunda vez que você comenta posts que passam por este tema! Um olhar carinhoso sobre o brega é mais que justo, ele faz parte da nossa formação e negar isto é não se enxergar direito. Abração.

  2. Ric Jones disse:

    Muito bom !!!! Obrigado por colocar luz sobre essa musica, que eu sempre cantei meio envergonhado…

    Ric

    • Pois eu também, Ric, acredite. Mas, para além de saudosismos ploc, há que se reconhecer quando uma canção chega onde pretendia, seja onde for – ou, no caso, vai onde nunca imaginou! Grande abraço.

  3. Luciano disse:

    Esse cara não fala coisa com coisa, é mais surrealista que a própria canção,

  4. André Lemoine disse:

    Em 1984, quando Eva na versão do Rádio Táxi fez grande sucesso no Brasil, ainda pairava sobre nossas cabeças a ameaça de uma guerra nuclear. Além de Eva, havia outras pérolas “antinucleares”. A música fazia todo o sentido… O tempo fez com que perdesse o sentido, pelo menos o original, mas o sentido de canção de amor “brega” ou “kitsch” permanece. Aproveito o ensejo para ME lembrar que, nessa época, aos 12 anos, era apaixonado por um menina de 10 anos que me achava louco por “amá-la”, kkkkkkkk. Ao ouvir a música me imaginava com ela na tal “última astronave”. Eras depois, ela retomou seu sentido junto com minha esposa na voz de Ivete.
    Assim, a ideia do casal primordial permanece no tempo e vai sobrevivendo a um mundo onde o amor parece ser algo a se ridicularizar.
    Não resisti à nostalgia! kkkkkkkkk.
    Para finalizar: encontrei esse blog porque meu filho de 15 anos curte Eva em italiano e em português! 😉

  5. André Lemoine disse:

    Tem sentidos demais nesse texto! KKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  6. Valmir Pardini disse:

    Um comentário “in memória” ao amigo maestro Ricardo Lobo de Andrade o qual gostaria que EVA fosse cantada pela Radio Taxi em italiano, por ter superado aquela artisticamente em tudo, ainda segundo o mesmo, qualquer outra interpretação mudaria o significado e sentido, ou mataria de vez o interprete, tal qual aconteceu com a música Tamba Taja, a música mais regravada, e todos interpretes perderam o seus prestigio (dada a diferença marcante artisticamente). Por sua vez “Dammi Mille baci” de Gaio Valério Catullo de 50 a.C. quer feita a Lesbica ou a Giovenzio, cantada por Rita Lee, em italiano tornou-se um marco revolucionário principalmente na França, Itália e Portugal, e interessante com esta musica se deu o contrário nunca pensar se ia em uma cantora, e nem está a cantou marcadamente nestes países.

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