Por que te vas – outra trajetória

Depois que acompanhei a trajetória de Eva, uma canção brega italiana que virou hit do carnaval baiano, aqui, fiquei com a atenção voltada para estas canções estrangeiras que, originalmente românticas e cafonas, acabam ganhando novas roupagens e visões. E acabei lembrando da excepcional Por que te vas, do compositor espanhol Jose Luis Perales.

A canção foi gravada em 1974 por Jeanette – cantora de pai belgo-conngolês e mãe espanhola, nascida na Inglaterra e criada nos EUA (!), com sucesso apenas local na Espanha. Aí então o cineasta espanhol Carlos Saura decidiu usá-la em sua obra prima Cria Cuervos. Nele, a personagem Ana, órfã de pai e mãe, usa de certa forma a canção como resignificação da morte dos pais. É luminosa a cena em que ela põe o LP na vitrola e dança com os irmãos.

A cena em Cria Cuervos tem uma direção dupla em relação a Por que te vas: ao mesmo tempo usa o sucesso, na época local, da canção, para dar potência à cena, e, como que em troca, a potencializa e a transforma num sucesso internacional. Com isto, um jogo de ressignificações tem lugar. Quando o filme foi feito, a canção já teria que ser de algum sucesso, ou não se justificaria colocá-la na cena – não faria sentido que as crianças tivessem um LP de uma canção que não fiizera sucesso. Por outro lado, ao projetar a canção e torná-la um hit, Saura torna (ainda mais) verdadeira a cena, pois agora o sucesso da canção ressoa também no espectador do filme, que tem a oportunidade de fazer junto com a protagonista a ressiginificação, só que em sentido diferente, agora encontrando numa canção pueril e kitsch uma possibilidade de transcendência.

Muito bem, mas, fora sua significação extra dada por Cria Cuervos, o que é Por que te vas?

Pois a canção é lindamente… cafona. Hoje, poderia estar na trilha de uma novela mexicana. E no entanto, pelo menos a mim, soa verdadeira, o que é seu grande trunfo. Sobre uma sólida base baixo/bateria/violões, a voz infantil da Jeanette é emoldurada por um maravilhoso arranjo de metais que não tem medo nem vergonha de crescer no refrão até emocionar. E uma sutileza: a frase título soa ora como pergunta, ora como afirmação, dependendo da terminação melódica e harmônica.

O sucesso de Por que te vas originou diversas regravações, inclusive do próprio autor. A maioria limita-se a decalcar elementos da original diluindo-os até transformá-los em farsa. A música caminha num fio de navalha entre o sublime e o ridículo, e quase todas as novas versões cairam involuntariamente para o lado errado. Duas me parecem exceção, por motivos diversos:

Por que te vas – Pato Fu

O Pato Fu regravou Por que te vas em seu terceiro álbum, Tem mas acabou, de 1996. O álbum é o último em que o Pato Fu se mostra absolutamente feroz e iconoclasta, antes de um processo de domesticação que se consumou quando Fernanda Takai gravou um disco de regravações do repertório de Nara Leão – como se Nara fosse domesticada…

Indo direto ao ponto: o Pato Fu não canta Por que te vas. Ele canta a si mesmo se divertindo ao cantar Por que te vas. Não apresenta o conteúdo sentimental da letra, antes ri dela, acelerando o andamento de modo a acentuar seu caráter pueril, e acrescenta um humor que no original era involuntário, mas que aqui se torna a própria chave da versão. Aqui, ao vivo, tocam com o Tangos e Tragédias, ou melhor, o Maestro Plestkaya (Nico Nicolaiewsky, no bandoneón) e o violinista Kraunus Sang (Hique Gomez). O espetáculo Tangos e Tragédias é uma tragicomédia que se passa no país fictício da Sbórnia, regada a tango apresentada pela dupla há bem uns 20 anos, o que reforça o caráter de farsa da versão – farsa voluntária. A versão do Patu Fu poder-se-ia dizer pós-moderna. E eis a outra:

O Aurora y la Academia é um quarteto mexicano de mulheres, e gravou Por que te vas em seu álbum de 1997. Levei um susto quando ouvi. Virou um galope! E me surpreendi ao perceber que, ao contrário da gravação do Pato Fu, essa aceleração ainda maior não aumentou a sensação de frivolidade, mas em vez disso a tornou de certa forma mais dolorida – ou dolorida de outra forma, com o acréscimo de um certo cinismo que, diferentemente da dose de hilaridade do Pato Fu, tem uma dose de desencanto. Nem mesmo a coreografia pseudofolclórica no fim do clip desfaz esta impressão, ou antes a reforça.

E isto acontece porque as meninas do Aurora y la Academia efetivamente tomam outro caminho dentro do próprio rock, que ao lado de seu lado iconoclasta e bem humorado, sempre foi o veículo de expressão de uma insatisfação e angústia que, de adolescente, pode tornar-se universal – vide Legião Urbana, com sonoridade bem diversa. No fundo, as versões do Pato Fu e da Aurora me soam, não discordantes, mas complementares ao reforçarem cada uma um aspecto de Por que te vas – uma nos lembrando o quanto a ela é tão cafona em seu romantismo juvenil, a outra nos mostrando o quanto este teen spirit pode ressoar profundamente – ou como eu disse lá em cima, encontrando numa canção pueril e kitsch uma possibilidade de transcendência – ou vice-versa.

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6 comentários em “Por que te vas – outra trajetória

  1. Adilson Brilhante disse:

    Ainda fico com a versão original da Jeanette. Já ouvi umas trezentas vezes e sempre me comovo. Aquele olhar infantil e sensual…

    • Sendo sincero, Adilson: eu também. Até porque as duas outras gravações que apresentei tomam para si aspectos da primeira versão, mas estes aspectos estão todos lá, voluntaria ou involuntariamente. A música pop tem mistérios que a razão desconhece… Abraços e volte sempre.

      • Adilson Brilhante disse:

        Villaça, depois do teu comentário do meu comentário voltei à canção e noto que na primeira versão da Jeanette a música se sustenta por sí só, nas outras interpretaçõs e versões sem vídeo não são nada, precisam de outro suporte para para se justificarem. Por que te vas é música de um tempo em que música era para ouvir ou dançar.

  2. Cynthia Lopes disse:

    Preciosa a sua análise! Principalmente no que diz respeito à trajetória do Pato Fu, amei.

  3. paulo disse:

    Eu gosto mais da versão do Pato Fu, mas também foi a primeira que conheci. Agora é fato que a versão original é muito bonita também.

    • Adilson Brilhante disse:

      Gosto muito, muito mesmo de Por que te vas e contrariando a opinião geral não a considero “canção brega”.

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