Anna Ratto, pop carioca e brasileiro

Anna Ratto teve a chance de ser indicada para participar do programa Fama, da Rede Globo, e declinou. Só pelo fato de ela se recusar a ter a performance e o canto pasteurizados pelas aulas dos especialistas e a se expor ao circo das votações e eliminações de um reality show (um nome que é uma contradição em termos, convenhamos), já ganha pontos comigo (Roberta Sá, grande amiga dela, participou. Mas sobreviveu, e ganha pontos também).

Na época Anna Ratto era Anna Luisa. Mudou recentemente, depois até de ter lançado seu último álbum, em fins de 2008, chamado Girando, que está disponível para escuta aqui em seu sítio, cujo endereço continua com o nome antigo. Como este blog não tem compromisso com a última novidade, isto não é problema. Além disso, se me dissessem que o trabalho saiu semana passada, acreditaria. Porque ele é sintoma, e também parte, de mais um passo do amadurecimento da música popular brasileira.

Girando é um álbum de música pop. Mas… (e se não tivesse este mas? Que mal haveria? Mas tem, e que bom que tem) ao mesmo tempo é um álbum de ritmos brasileiros, diversificados – ijejá, maracatu, frevo, jongo, samba. É a possibilidade desta fusão numa linha de continuidade suave, sem fraturas, que faz o grande mérito dele. É música pop made in Brazil, sem ser para exportação, e usando matéria prima e processos nacionais. Não há purismo, e também não parece resultado de pesquisas diligentes, mas de vivências cotidianas.

O trabalho de Anna me parece o resultado de um desenvolvimento natural da relação entre tecnologia e as manifestações populares e seus ritmos. As misturas de sonoridades que em outras épocas eram mais conceituais que de fato agora tem um resultado homogêneo, natural. É possível haver no repertório um Baião Digital que não é bem um baião, e, em vez de fazer alguma espécie de tratado sobre o assunto, fala é de uma paixão de internet que tomou chá de sumiço. Dois trabalhos anteriores me parece que dão o norte, ou pelo menos possibilitaram este passo: o de Lenine a partir de O dia em que faremos contato e o de Marisa Monte, especificamente Cor de rosa e carvão. Ambos conseguiram, de formas bem diferentes, fazer esta síntese de que falei, desde o repertório até os arranjos, e o resultado foram sonoridades muito características e pessoais.

O trabalho de Anna não tem ainda a maturidade para conseguir esta sonoridade específica que o caracterize, mas acho que está chegando perto. Por outro lado, Girando é um álbum de galera, e isto fica claro no pequeno discurso de agradecimentos que ela faz no fim da última faixa. O resultado do som é coletivo, como as autorias, e o equilíbrio do repertório entre nomes “antigos” – Edu Lobo, Novos Baianos (a quem ela deve muito também), Gilberto Gil – e “novos” – Edu Krieger, Rodrigo Maranhão, ela própria – é bem salutar, até porque ela escolhe dentre as canções dos primeiros coisas bem desconhecidas, como o único samba de verdade que a dupla Roberto e Erasmo deve ter feito na vida, e os revisita com propriedade, tendo algo novo para dizer. Meu único senão é para Cold Kiss, balada em inglês, que não percebi o que acrescenta (seria o correspondente a Pale Blue Eyes do disco da Marisa? Mas não funciona do mesmo modo, e meu paralelo entre os álbuns não chega a tanto.)

E só mais duas coisas a destacar: primeiro, que Anna canta fácil, não “toma providência”, como dizia um professor de violão. Ela canta a música, e não o ato de cantar, o que é fundamental. E a outra é que, mesmo com toda a fusão de ritmos, achei o resultado muito… carioca, ou seja, cosmopolita, e não apenas por ser pop, mas por já ter em si uma leitura desses estilos que é feita na cidade. O ijexá da Anna não é bem baiano, é carioca, e o maracatu que ela canta é com o Rio Maracatu – entenda-se o que quero dizer. Acho isso bom. Talvez seja a semente da cara própria que seu som vai tendo.

Parabolicamará, de Gilberto Gil – Anna passa a música de binário para ternário, levando-a da levada de capoeira para o jongo.

Serena, de Anna Ratto e Emerson Mardhine

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5 comentários em “Anna Ratto, pop carioca e brasileiro

  1. Paulo Rurouni disse:

    Sou meio apaixonado por esta cantora: graça, melodia e simpatia. Tenho os dois discos dela – o segundo significativamente melhor do que o primeiro.

    Quando a ouvi pela primeira vez (acidentalmente) achei que ouviria mais uma cantora de MPB da nova geração, ou de samba. Eu não estava de todo enganado, mas havia muito mais.

    Logo apareceram ritmos brasileiros diversos e outros africanos, como o Ijexá. Pronto, lá estava a esguia garota-zona-sul no baticum do candomblé cantando para Iemanjá. A alva tez contrastando com a levada telúrica da percussão africana.

    Anna Ratto, promete.

    • Mas não é? E acho mesmo que a melhor coisa que ela faz é se distanciar um pouco do universo do samba, que já anda superlotado e às vezes me parece quase ditatorial aqui no Rio. Não é uma aposta fácil, porque pode fechar espaços – por exemplo, ela acabou não selecionada no Quintas no BNDES, depois de um debate enorme entre os jurados. Uma pena, acho eu, mas coisas de decisão colegiada. Fiz questão de trazê-la ao blog mesmo assim, porque também acho, como você, que ela aponta coisas para o futuro, promete, e já está cumprindo, ao menos em parte. Tomara que cumpra tudo. Abração.

  2. Cássia Fernandes disse:

    Adoro essa cantora!

  3. Luiz Herculano de Sousa Guilherme disse:

    Eu não entendo muito de música, sou apenas um ouvinte, mas acompanho Anna desde o início e vi seu crescimento musical e fico feliz com uma crítica essencialmente construtiva feita pelo Tulio Villaça. Penso o seguinte a Anna cresceu e com certeza ganhou graça e simpatia durante esse tempo em que está na estrada. O Fama poderia ter sido uma oportunidade para colocá-la no ar, mas provavelmente ela teria sua identidade cerceada, logo o melhor foi o caminho independente. Eu amo as músicas, para mim as melhores são Cabra Cega e Serena. Lembro-me do show no finado Canecão em 2007 se não me engano foi demais, levou o público ao delírio com a batida quente do Maracatu. Anna manter uma identidade não é fácil, mas é necessário.

  4. Cássia, Luiz, obrigado pelos comentários. Confesso que não sei até que ponto o Fama foi uma boa escada para alguém – o que houve foi gente boa que por acaso participou. Acho que a construção da identidade do trabalho e do estilo é a coisa mais valiosa que um artista pode ter. E construir essa identidade a partir de uma diversidade é o melhor caminho para que esta identidade seja rica. Tenho para mim que é isso que a Anna está tentando. Tomara que continue conseguindo. Abraços.

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