Antípodas cariocas

Reouvindo o excepcional Lado B Lado A, de 1999, o álbum da maturidade do grupo O Rappa, e também o álbum de estréia do Farofa Carioca, de apenas um ano antes. E impressionado tanto com algumas coincidências na história de ambas, quanto com a enorme distância que, ainda assim, percebo nos resultados da música de cada uma.

Duas bandas criadas meio que por acaso, o Rappa juntando pessoas para acompanhar o cantor de reggae Papa Winnie em 1993, o Farofa uma junção de amigos que começaram a tocar periodicamente no calçadão de Ipanema e foram juntando público. Ambos os trabalhos baseados numa fusão de ritmos que, no Rappa, parte do reggae, e no Farofa, do samba-funk, mas que transitam também um pelo outro, no hip-hop, no rap.

No entanto a partir da base destas semelhanças, cada grupo seguiu um caminho diferente. O Farofa solar, O Rappa noturno. O Farofa retratando a cidade que lhe dá nome de forma descompromissada, pitoresca, anedótica, sem necessariamente ser superficial; e o Rappa apresentando como que o lado oposto, ou o mesmo lado sob outro prisma, sóbrio e sombrio mesmo quando falando – como muitas vezes fez – da capacidade de resistência do homem comum.

(Grande e necessário parêntesis histórico: a Zona Norte do Rio de Janeiro tem sua formação na transformação da cidade de centro político do país em centro industrial, com o dinheiro do café e da cana-de açúcar. À medida que industrias iam se implantando e as linhas de trem se estendendo para escoar a produção para o porto e os trabalhadores para as fábricas, a população foi se fixando nas proximidades e criando bairros onde antes eram fazendas, muitas de cana: Engenho Novo, Engenho da Dentro, Real Engº. A região cresce e se desenvolve, mesmo à margem da cidade, sub-urbe.

Só que depois tudo muda. O caminho das linhas de trens não para de se alongar, até outros municípios, onde vai ficando mais barato instalar fábricas, longe dos custos da capital, e ao mesmo tempo com trens melhores – e depois estradas – para escoar a produção. A Zona Norte se esvazia de fábricas, se enche de favelas com ex-empregados da indústria e migrantes atrás da miragem de empregos nestas fábricas. Enquanto isso, é a vez de Duque de Caxias, de Volta Redonda, até com incentivos do governo. A Zona Norte perde seu papel e até hoje procura outro que o substitua.

E daí? Daí que, assim como Milton Nascimento retratou magistralmente o abandono e a decadência das cidades mineiras quando as linhas de trem que as ligavam ao litoral foram desativadas em Ponta de Areia, a decadência da Zona Norte também pode ser acompanhada, desde Gente Humilde, letra de Vinícius de Moraes – e pontinha de Chico Buarque – em 1969 para melodia de Garoto, até Subúrbio, do Chico, de 2006, de :

São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar

até

Casas sem cor, ruas de pó, cidade
Que não se pinta, que é sem vaidade
(…)
Lá não tem moças douradas, expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus – e está de costas

Fecha parêntesis)

Boa parte da poética  – e da rítmica – desses dois grupos é fruto dessas circunstâncias. Só que , em geral, eles cantam em oitavas diferentes. 

Moro no Brasil, canção título do álbum do Farofa, é genérico: parte da paródia de um discurso populista para outro discurso igualmente populista, mesmo quando alfineta a Rede Globo de passagem. Não que populismo seja ruim, é outra discussão. Mas mesmo quando as agruras do cidadão sãogonsalence são descritas pelo Farofa, – em São Gonça – o tom é humorístico, assim como a sensacional versão de Feira de Acari que apresentavam nos shows, ao mesmo tempo que apontava numa direção que era até política, se permitia uma leve estereotipada, por ter a consciência de não ser funkeiro – não como a música original exigia. O mais longe que Moro no Brasil chega como proposta é vai lá, vai lá, cidadão! – até porque não se propõe a propor… Moro no Brasil termina caindo no samba chichê com uma melodia clichê de trombone, repique clichê de tamborim e grito chichê de Brasil! – tudo proposital.

No lugar da localização geográfica algo genérica de Moro no Brasil, O Rappa traz endereço certo, Souza Barros 24 e a Marechal Rondon, em A todas as comunidades do Engenho Novo. Também não se propõe a propor. Mas faz um retrato ao mesmo tempo lancinante e carinhoso da pequena aldeia, à altura de Gente Humilde e Subúrbio, mas com o ponto de vista invertido: agora não se passa vindo de trem de algum lugar, nem se tem a visão distanciada de quem pergunta que futuro tem aquela gente toda. A bateria firme sintética de vários ritmos de Yuka, tanto quanto sua poética, que foram a sustentação do Rappa, não é festiva, não aponta futuros, mas não faz piada nem se lamenta. (Tanto Rappa quanto Farofa continuam com formações diversas. Atenho-me às originais aqui.)

Então, Farofa e Rappa são antípodas? Com a palavra, Gabriel Moura, do Farofa, sobre sua canção Garota do Méier:

O bar onde eu tocava chamava-se Mai-Tai. Ficava ali no “Baixo Méier”, onde à noite, o bicho até hoje costuma pegar. Antigamente tinha ponto de ônibus nessa rua, agora eles tiraram, fizeram um calçadão só e ficou mais espaçoso.Um “baixo” legítimo. Quando eu estava concorrendo com o samba na Caprichosos de Pilares, o dono do bar fechava o estabelecimento e todo mundo ia pra quadra torcer. Era um público muito vivo e interessante onde todo mundo se conhecia. Foi nesse bar que conheci o Seu Jorge em 90. Ali do lado ficava o ponto final do 455 e 456 onde eu e meu irmão, descalços, de short, sem camisa, pegávamos o ônibus pra praia. Várias gatinhas e alguns amigos que a gente sempre encontrava chegavam na praia juntos e aos poucos iam se espalhando. Na volta, o chão do ônibus parecia pegar fogo de tão quente e o motorista o fazia praticamente voar. Uma homenagem então às garotas que moram nesse bairro onde escrevi boas páginas da minha história.

A história de Seu Jorge é até bastante conhecida. Morador de rua, passou até um tempo abrigado no campus da UERJ graças ao ator Antônio Pedro, na época administrador do Teatro Noel Rosa, chamado lá de Teatro dos Alunos, e que acaba fazendo papel de Deus no clipe de Moro no Brasil. Quando minha mulher viu o Farofa pela primeira vez, exclamou abismada: olha o mendigo da UERJ!

A crônica de Gabriel deixa claro que, se Farofa e Rappa tomam direções diferentes, é apenas para chegarem em lugares bem proximos – o Engenho Novo é ao lado do Méier. As visões de cidade não são assim tão distantes. Tanto que podem ser compartilhadas, e aí talvez a chave esteja na canção que sela a parceria entre integrantes de ambos os grupos, e que passa sim pela questão racial, mas que pode ser melhor entendida no verso magistral: esse país vai deixando todo mundo preto. O lugar da marginalidade e seus valores mal compreendidos até por ela própria, da Zona Norte que se expande e espalha tentáculos pela cidade via 455 Méier-Copacabana, a geografia dos deserdados, sua luta, sua alegria de viver.

A Carne – de Seu Jorge, Marcelo Yuca E Wilson Capellette, com Farofa Carioca

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3 comentários em “Antípodas cariocas

  1. leonardo disse:

    muito enteressante

  2. Fukato-san disse:

    Muito bom! Continue. Voltarei sempre que eu puder.

  3. Leonardo, Fukato: obrigado pelos feedbacks, que é disso que o blog precisa. Estejam em casa.

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