Um épico mouro-nordestino

Entre 1984 e 1986 Djavan sofreu um bocado na mão da crítica. Depois de lançar o álbum Lilás, o segundo gravado em Los Angeles, sob a produção de Ronnie Foster (o primeiro, Luz, recebera elogios rasgados), embora várias das canções tivessem estourado nas paradas, inclusive a música título, muitos estranharam que ele tivesse feito um álbum de música pop, cheio de teclados, com pouquíssimo das características regionais que haviam alavancado sua popularidade e justamente haviam possibilitado este início de carreira internacional.

A reação dele foi radical: Meu Lado, o álbum seguinte, tirava quase todas as sonoridades sintéticas e colocava o violão em primeiríssimo plano, dialogando diretamente com a voz. E, para que não ficassem dúvidas sobre qual era o lado dele, fechou o disco com o Hino de Congresso Nacional Africano e com o Hino da Juventude Negra da África do Sul. Já não apontava só para o Nordeste, mas mais atrás e além.

A partir daí, ele tem conseguido, de formas diferentes, promover este encontro sem tantos choques, de forma mais homogênea, e o álbum seguinte, Não é azul mas é mar, novamente gravado nos EUA e talvez o trabalho de Djavan de maior êxito no exterior, é prova disso. Em alguns momentos ele parece pender mais para o pop, como na fase Bicho Solto (1998); em outros, volta a beber nas fontes das Alagoas, como em Novena (1994). E acrescente-se que, ao lado destas duas vertentes, foi somando outras escutas como o jazz, que possibilitam leituras diversas de suas primeiras influências.

Em 2001 Djavan gravou Milagreiro, em que faz mais uma dessas voltas para casa. A canção-título foi gravada com Cássia Eller e é um exemplo acabado destas possibilidades de amálgama. Milagreiro tem um compasso chamado binário composto, o que já é uma sutileza rítmica. A levada da percussão de João Viana ressalta ora o caráter binário, ora o ternário do compasso, num ritmo que não é especificamente nenhum, mas que remete a música regional, do interior. Ao mesmo tempo, a harmonia da introdução, que continua por toda a primeira parte, tem um colorido flamenco, que aqui é levado mais a efeito que em Oceano, primeira experiência de Djavan neste sentido, onde só havia a participação de Paco de Lucia sobre uma harmonia mais convencional.

A música já se inicia numa tessitura muito aguda para a Cássia – na repetição Djavan tem que apelar para o falsete (e a Cássia é que faz a segunda voz mais grave). Com isto, cria-se uma atmosfera de tensão para acompanhar a letra, que apresenta o personagem do santeiro ao mesmo tempo que o associa desde logo a dor e sofrimento, sem explicar por quê.

A segunda parte vem em contraste, ainda aguda, mas de melodia quase retilínea. É nela que acontece a narrativa cinematográfica da história do santeiro anônimo. Na frase ele aluou, o piano anuncia a frase ascendente que será explorada na terceira parte, contrastando por sua vez com a melodia atual, e simbolizando a dor da loucura do personagem. A frase passou pela vida e foi cair na solidão, obviamente, vai descendente até o ponto mais baixo da canção inteira – o único momento em que a voz de Djavan soa absolutamente confortável.

E então, na terceira parte, composta por apenas duas frases que arrematam a história e a comentam, a melodia volta ao agudo e a harmonia volta ao flamenco, agora com mais força. A característica harmônica do flamenco é a de se resolver num acorde suspenso, o que dá ao ouvinte exatamente a sensação de suspensão, de não terminação. Isto ocorre na primeira parte na frase e diz que a vida é feita de ilusão, que termina numa nota ascendente (ou seja, não afirmativa) e de que é a base do acorde de dominante, o que também dá a impressão de suspensão. E na terceira parte, a harmonia se sustenta toda neste acorde dominante, no caso de mi maior, e a melodia também termina ascendente. Isto tudo para fixar a impressão no ouvinte de uma incompletude que é a do santeiro, louco pela lembrança da mulher amada que se foi e que não voltará, o simbolismo do amor que nunca se realiza.

Milagreiro é uma canção de arcabouço sofisticado sem perder um pé firme no universo regional, uma música que não poderia ter sido feita em nenhum lugar do mundo – um épico mouro-nordestino, como o próprio Djavan o definiu e eu gostei tanto que botei no título. Uma canção de maturidade, de quem passou a vida burilando o próprio estilo e procurando o equilíbrio entre diversas possibilidades que cresceram no correr dos anos. Tenho a impressão de que o Djavan também não poderia ter feito esta canção antes. E me consolo com ela quando ele insiste em fazer outras só para dar xaveco em mulher. Bonitas também, mas não chegam aos pés. Pessoalmente (e sem duplo sentido), prefiro Djavan quando ele volta para casa.

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8 comentários em “Um épico mouro-nordestino

  1. eu sabia que vc ia escrever sobre isso uma hora…
    ótimo artigo…
    abs…

  2. Eliseo disse:

    ¿El compás está en 6/8? A mí me suena a 6/4, pero puedo estar equivocado. Me suena muy lento para el 6/8.

    • Tem razão, Eliseo. Embora a escolha da figura de tempo seja mais ou menos arbirária, a do 6/4 para representar o compasso realmente me parece ser a mais acertada. Obrigado pela ajuda.

  3. Eliseo disse:

    Caro Túlio-

    Gosto mutio de seu blog. A escritura é maravilhosa e seus juizos musicais muito atinados. Ja tem um leitor incondicional.

    Abraçadão.

    Eliseo

    • Igor disse:

      Sempre achei essa música muito bonita, e agora que estou aprendendo a tocar violão, aceitei estudá-la como um desafio. Pesquisando mais sobre a mesma encontrei esse texto maravilhoso que você fez. Muito bom, completo. Parabéns e obrigado.

  4. Você é muito bom…não digo pela questão dos acordes porque não tenho bons ouvidos para isso, mas pela interpretação do texto que causa em quem houve a música o que você definiu. Você é muito bom….sua interpretação é o que a música realmente passa….dor e lamento de forma suave, mas sem uma terminação, ou seja, uma canção que ecoa sem fim para uma história sem fim.

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