Um olhar contemporâneo sobre a tradição

Ilana Volcov foi integrante do grupo Barbatuques, que se caracteriza por um trabalho apurado de percussão vocal e corporal nos arranjos que executa. Em sua carreira solo, não continuou nesta vertente de pesquisa, é claro – se fosse para continuar, não precisava sair do grupo. Mas embora não faça mais percussão no corpo ou na voz explicitamente, boa parte de seu trabalho se baseia no diálogo entre voz e ritmo. A voz da Ilana não é percussiva, mas traz o ritmo na relação com o arranjo e na compreensão da divisão. E a suavidade da voz ajuda a tornar tudo menos evidente, a entregar menos o jogo, a tornar o resultado mais sutil.

A sombra – ou seria melhor dizer a claridade – de Edu Lobo é grande e frondosa, tanto em canções dele próprio como Estatuinha (com Gianfrancesco Guarnieri) quanto de continuadores de seu estilo como Chico Saraiva, de quem já tratei aqui. Refiro-me ao Edu da fase violonística de composição, o que faz grande diferença. O próprio Edu afirma que teve modificações na maneira de compor ao trocar do violão para o piano. (Choro Bandido é piano, Ponteio é violão, para ficar bem claro). O trabalho de Ilana (Banguê) é fase violão – uma escolha que não é meritória em si, mas que é responsável por boa parte da sonoridade final.

Mas também seria reducionismo ligar a refinada escolha do repertório de Ilana a influência do Edu: fica claro, isso sim, que ela é resultado de uma tremenda pesquisa, indo de Capiba a Noel Rosa, do repertório de Amália Rodrigues a compositores recentes, nunca de maneira óbvia, mas conseguindo uma linha de estilo coerente o tempo todo. Ilana trabalhou também com o compositor paulista Eduardo Gudin, o que diz um bocado tanto desta escolha quanto da compreensão do formato de canção e relação letra/música que ela mostra.

E fazendo a liga entre este repertório que tem muito também de pesquisa de ritmos brasileiros, mais a interpretação da Ilana de que já falei, ficam os arranjos, cheios de desenhos em contracanto com a voz – ora dos sopros, ora do baixo, ora do próprio violão, mesmo quando trabalhado em acordes, e tudo passo a passo com a percussão. Esta interação me parece ser a chave de entrada para a escuta de Bangüê, o álbum de Ilana – o que não significa uma dependência dos instrumentos. Ao contrário, a interpretação da Ilana é claramente estudada – ela é professora de canto também – e, mesmo soando natural, traz em si todos os elementos da canção sinteticamente, mesmo quando canta à capela.

Bangüê significa engenho de açúcar em um dialeto africano, e também é o nome de um ritmo e de uma dança da região norte (veja mais aqui). No álbum, a palavra aparece em Recife, cidade lendária. Título adequado. Porque evoca uma doçura feita à base de muito sofrimento. Os ritmos que Ilana explora e a tremenda multiplicidade cultural que evoca em canções tão trabalhadas e com uma voz doce também são o resultado de histórias do Brasil – ou História dos brasis – que ficam subentendidas em cada canção, e em cada interpretação.

(Escrevi este último parágrafo e achei que estava com muita cara de release. Aí fui no site da Ilana e encontrei quase a mesma coisa, com outras palavras, mais a definição que usei no título. Mas ora, se escrevi isto ao ouvir o álbum, e se concorda com o release, é porque temos aqui um caso raro de projeto que atinge seu objetivo e que faz jus ao release que tem. Merece portanto todos os elogios, sejam de release ou não.) A contemporaneidade de Ilana não é absoluta, convenhamos, mas escolhida. Na sua música não há ecos de rock, música eletrônica, mesmo o Tropicalismo (o Caetano que ela grava, Onde eu nasci passa um rio, é anterior). O que há um passo adiante na desenvolvimento de um formato de canção brasileira, em que a harmonização rica pós-bossa nova se encontra com as tradições regionais. Não é pouco.

Então, o serviço: o sítio da Ilana Volcov aqui, e o My Space dela também.

Contradança – Breno Ruiz/ Paulo César Pinheiro Mùsica de Bolso

Na Virada da Costeira – Chico Saraiva/ Paulo César Pinheiro Ídem

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2 comentários em “Um olhar contemporâneo sobre a tradição

  1. simone disse:

    Não vou esquecer de Caetano Veloso, num momento de intimidade entre amigos, falando de como a coca-cola entrou na vida dele. Aí aparece o filho dele, lindo, vestindo uma camisa coca-cola, só pra confirmar a confissão. Caetano falava assim, relaxado…tomando o seu mate-leão! Foi memórável.

    Adoro te ler, Túlio.
    Bjs,
    S.

    • Simone, às vezes fico achando que falo demais do Caetano aqui no blog. Mas estou para ver outro músico popular que tenha a capacidade de tratar da cultura erudita e da popular entrelaçadas neste formato sem perder de vista a característica pueril de indústria cultural de seu produto e ao mesmo tempo da possibilidade de neste formato criar obras que fiquem – ao mesmo tempo ter consciência da própria grandeza e da própria pequenez, a contradição-mor da canção popular. Enquanto não aparecer outro à altura, continuo falando dele… Beijão.

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