Como se faz um hino, e depois se esquece

Qual foi a última vez que você ouviu Coração de estudante? De repente me dei conta de que não a escutava há anos. E no entanto é uma canção que continua entranhada no nosso imaginário. Assim como o tanto que ela tocou e foi cantada por anos, seu silêncio hoje também me parece muito significativo.

Em 1986 eu tinha 14 anos e fazia o solo de flauta doce no arranjo de Coração de estudante no coral de minha escola de ensino médio. Mais inocência, impossível. Ao mesmo tempo que eu, o país saia de uma ditadura de 20 anos, tinha os traumas do adiamento da chance de escolher seu presidente e de um presidente civil morto antes de assumir, e ainda achava que, apesar de tudo, agora tudo seria diferente.

O que aconteceu depois é sabido, e a sucessão de decepções em relação à que era chamada Nova República, sofridas por um país que passou por um processo de amadurecimento à força, fizeram com que Coração de estudante fosse meio que propositalmente, estrategicamente esquecida, como quem reluta em confessar que tocava flauta doce no coral da escola em plena adolescência (e nem peguei ninguém por isso).

Para descobrir os motivos deste ostracismo atual é necessário entender também os motivos de ela ter se tornado o hino que se tornou. Coração de estudante não fala explicitamente em sua letra de absolutamente nada que estava acontecendo em 1983, ano em que foi gravada no álbum Ao vivo de Milton, nem dos anos seguintes. Então o que a levou ao grau de simbolismo que angariou, de ser cantada por um país como a esperança de tempos melhores, mais justos para todos?

A resposta talvez esteja em algumas circunstâncias de sua criação. Coração de estudante é uma melodia de Wagner Tiso com letra de Milton, coisa não muito comum, tipo de parceria que Milton não costuma ter. Ocorre que ela foi criada como um tema instrumental apenas. Eis para que acontecimento e que personagem histórico ela foi criada (a música começa aos 2 minutos, mas vale a pena ver também o princípio):

Coração de estudante não tinha ainda este nome quando foi composta para ser o Tema de Jango no documentário Jango, de Sílvio Tendler. Sua melodia, portanto, foi composta para ser a tradução em música de um momento que é o inverso de quando ela se tornou o que é hoje; nasceu por inspiração de um momento histórico em que o Brasil tinha um sonho muito alto despedaçado, e tornou-se popular e ganhou mundo quando este sonho renascia depois de 20 anos.

Mas o mais impressionante é que também a letra de Milton carrega implícita uma carga de significação que tem a ver com outro momento histórico intrinsecamente ligado ao primeiro: Milton a fez em memória do estudante Edson Luís, morto pela Polícia Militar em março de 1968, cuja morte foi o estopim de uma série de manifestações populares que, pela primeira vez, afrontaram publicamente a ditadura militar.

A reação da sociedade à morte do estudante desencadeou uma sequência de acontecimentos que atravessou a Passeata dos Cem Mil e desembocou no Ai-5. Foi o evento simbólico de um ressurgimento, em que muitas pessoas decidiram que era hora de falar. O resto é História.

Isto então para mim explica o simbolismo que Coração de Estudante assumiu durante a retomada democrática na década de 1980, muito mais do que qualquer característica analisável de sua letra ou de sua melodia. É como se o determinante fosse na verdade o fato de ter sido inspirada, ter retratado ou homenageado dois precisos instantes que são chaves na História recente do Brasil e formam uma linha de continuidade que se completa exatamente na época em que a canção veio a público: 1964, 1968, 1983 (em 84 a campanha das diretas, em 85 a eleição de Tancredo Neves presidente). Como se a canção tivesse ficado impregnada da lembrança destes acontecimentos, como uma mensageira do inconsciente coletivo nacional.

Quando faço a análise de uma canção aqui, sei bem que tudo o que digo é ouvido e percebido por quem ouve a canção. Apenas isto não se dá de forma consciente e racional. Tantas vezes ouvi ou li comentários que dizem é isso mesmo que eu sentia, mas não sabia porque. As características de melodia, harmonia, instrumental, suas relações, todas falam ao ouvinte de forma mais direta que a linguagem discursiva, e vão mais fundo.

Mas em Coração de estudante acho que há algo mais, que não ficou exatamente fixado na forma musical, e sim em algum lugar mais… recôndito seria a palavra? Há algo nela que ecoa, mesmo para os recém-chegados à História, os motivos e os acontecimentos que a antecederam e inspiraram. Coração de Estudante soube ser o hino da redemocratização porque já era, de certa forma, o hino das reformas de base de 1963 e o hino da contestação à violência da ditadura em 1968, e ao mesmo tempo contém em si a tristeza do golpe de 64 e do Ai-5. Assim como talvez já tivesse, à revelia dos próprios autores, a tristeza das decepções de 1987, 88, 89… Talvez por isso tenha sido deixada de lado como foi.  Não porque tenha se tornado datada, ou porque nos lembre da nossa ingenuidade, mas porque nos lembre não apenas de um, mas de três sonhos que pareceram ser sonhados em vão, e ainda assim tem a coragem de reafirmar, mais uma vez, que é preciso continuar sonhando, mesmo que ingenuamente, em uma época em que isto nem sempre parece fazer sentido, a nos falar tão diretamente dessas coisas tão incômodas, que sempre morrem e insistem em renascer: esperança, coração, juventude e fé.

Meus agradecimentos à Eliana Pichinine pela idéia jogada no Facebook, e ao Chico Furriel, pelas considerações que aproveitei aqui.

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8 comentários em “Como se faz um hino, e depois se esquece

  1. Assis Furriel disse:

    Caro Túlio,

    seu artigo foi direto ao ponto o qual se dispôs comentar: o hino esquecido. O que você disse é exatamente o que sinto de tudo que envolve essa música e a ela própria em si. Quando a ouço, ainda acho bela, porém sinto um certo incômodo sim, como se a mágica que a música tem de nos transportar no tempo e no espaço me recobrasse cenas passadas que remetem a uma certa melancolia. Em geral, as músicas ditss de protesto ou de teor político, carregam um certo ar temporal e que, de certo modo, incomodam quando ouvidas tempos depois. Taí uma ideia a ser analisada.

    Parabéns mais uma vez pelo belo texto!

    Abraço do Chico.

    • Chico, o Milton já reclamou várias vezes do fato de várias músicas dele terem sido transformadas em “músicas de protesto”, ficando marcadas à revelia dele. Esta é uma, outra é Maria, Maria, que virou hino feminista. Acho estas músicas bem maiores do que a gaveta de canções de protesto em que tentam botá-las. Exercitar um ouvido sem ranço na escuta destas canções pode revelar o que se deixou soterrado sob uma camada de poeira no tempo, e elas se renovam à escuta então. Foi o que aconteceu comigo com a lembrança da Eliana e a nossa conversa, e quis tornar isto público. Abração.

  2. Eliana Pichinine disse:

    Olá,Túlio!

    Eu não estava sabendo que você realmente resolveu escrever sobre a inesquecível “Coração de Estudante”. O Assis me avisou e aqui estou.
    Memória(musical e histórica) é algo que deve ser sempre ressaltado. Por isso, fico contente em perceber que você e o Assis conseguiram complementar o assunto.
    E por falar em memória (se não estou enganada)acabei me lembrando que em 1987 (formatura do ensino médio) você fez uso de sua flauta e tocou a música em questão. Se a lembrança estiver incorreta leve em conta a passagem do tempo (se não foi lá, talvez tenha sido no teatro). O importante é que a música foi tocada e sentida por todos. Quando escuto essa música, sinto gosto de ingenuidade sim, mas sem tristeza, apenas uma esperança de dias melhores para o Brasil e para o mundo.

    Parabéns pelo texto e pela inquietação.

    Eliana Pichinine

    • Exato, Eliana, eu fazia o solo de flauta para o Coral do Cairú desde o ano anterior, como contei no artigo, e toquei também na formatura. Nada mais ingênuo que um adolescente tocando flauta doce, acho… Tocava sem ter a menor noção da história da música e com pouca noção da história do Brasil, apesar dos ingentes esforços de alguns professores. Mas é daquelas situações que falam por si. Eu sempre ficava nervoso e dava uma tropeçada no meio do solo, mas nada mais esperançoso que uma formatura, então eu estava duplamente no momento certo. Não precisava nem tocar bem, até eu mesmo me emocionava… Um beijão pra você.

  3. Ops!!! Agora sim, o poema completo:

    Considerando o contexto histórico-cultural relacionado às canções, fico pensando que o Golpe infelizmente não foi uma brincadeira de primeiro de abril:

    Golpe de 64

    A DITADURA

    ATERRA

    ENTERRA

    SOTERRA

    DESTERRA

    1/4/11
    Eliana Pichinine

    http://www.versoseanversosforgenicos.blogspot.com

  4. O Chico buarque já disse que a única música de protesto que ele fez foi “apesar de você”,as outras simplesmente falam doBrasil e do povo brasileiro.lendo seu texto entendo melhor porque ele diz isso,é o medo de ser tarjado de datado e/ou ser desprezado pela direita.ele prefere ser atemporal e universal,é claro.

    • Ademar, em geral uma obra de arte que é criada para um fim específico e imediato não sobrevive a este fim. As canções do Chico criadas como contestação à ditadura hoje sobrevivem porque se prestam a outras reflexões, e a meu ver isto vale inclusive para Apesar de Você, e também para esta e outras do Milton. Abraços.

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