Nova geração – Quem pensa neles?

Esta matéria de Luiz Fernando Vianna saiu no O Globo Online de hoje. Acho fundamental o assunto de que ela trata, que é o lapso de continuidade entre a chamada geração de outro da MPB, forjada a partir dos festivais dos anos 60 e que continua em boa parte na ativa, e os artistas surgidos a partir da década de 90, que são muitos, e mesmo com trabalhos sólidos, ricos, instigantes, não são estudados e analisados como deveriam. A  matéria está aqui, mas faço questão de trazê-la inteira, que é como vale a pena lê-la, e eu certamente explorarei alguns pontos dela mais adiante.

Renovação da música brasileira iniciada nos anos 1990 ainda não foi alvo de uma produção reflexiva

Hoje não se fala em Tiê, por exemplo, sem se falar em Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Leo Cavalcanti e outros tantos. É possível, portanto, ver a nova geração da música feita em São Paulo num só quadro. Mas é praticamente impossível encontrar reflexões sobre esse quadro e as condições que o formaram, ver suas relações com a também intensa produção do Rio, entender o papel dessa cena na história da música brasileira. Embora não tenha começado ontem, mas esteja num momento maduro, a turma que vem revitalizando a canção nacional não encontra, no ambiente acadêmico ou fora dele, quem a trate como tema prioritário de análises

– Existe uma cena que começa no disco do Mulheres Q Dizem Sim (de 1994) e que tem no Los Hermanos a sua maior expressão – situa Romulo Fróes, decano (39 anos) da nova geração paulista e único ator da cena a escrever frequentemente sobre ela, incluindo artigos sobre os cariocas Nina Becker e Domenico Lancellotti. – Como ninguém escrevia sobre a gente, eu fui escrever.

No texto “A nova música brasileira e seus novos caminhos”, de 2009, Romulo mostra que a democratização dos meios de gravação resultou no domínio destes meios por parte dos artistas e, em seguida, na criação de músicas que justificassem tal domínio, pois “antes uma grande canção mal gravada do que uma bobagem de altíssima qualidade sonora”.

– Mas ninguém precisava de nenhum endosso, queriam que os mais antigos se danassem. O movimento foi o contrário: Caetano (Veloso) se aproximou da turma ao montar a banda Cê (em 2006), e aí abriu os olhos de José Miguel (Wisnik) – diz Romulo. – Sinto falta de um diálogo com a geração surgida nos anos 1960, tida como a última grande da canção brasileira. Esse diálogo só se dá com Caetano.

Opinião semelhante é a de Domenico, parceiro e grande amigo do filho mais velho de Caetano, Moreno Veloso:

– Não tem nenhum outro que continue se arriscando assim.

O projeto +2, que os amigos fizeram com Kassin, já foi tema de tese na Argentina e palestras no Rio Grande do Sul, mas nada no Rio, segundo Domenico.

– A academia tem extrema dificuldade de lidar com o contemporâneo – afirma Frederico Coelho, historiador, DJ e pesquisador do Nelim (Núcleo de Estudos de Literatura e Música), da PUC-RJ. – Por um lado, investiga-se o funk, o rap, pois é o outro, o estranho. E há o vício de se trabalhar com a música dos autores surgidos na década de 1960. Para mim, que tenho 36 anos, a década de 1980 já é história.

Coordenador do Nelim e interlocutor frequente de Maria Bethânia, Júlio Diniz vê um “hiato” na produção acadêmica sobre a música brasileira.

– Praticamente não há reflexão sobre o que aconteceu nos últimos 20 anos – diz ele, anunciando para o segundo semestre um seminário na PUC sobre a nova cena musical.

Santuza Cambraia Neves, da PUC, e Fred Góes, da UFRJ, ressaltam que há muita gente estudando o momento, mas são grandes a diversidade de estilos e a rapidez das mudanças.

– Você há de convir que a academia é um pouco canônica. Mas, também, é normal que ela olhe coisas mais sistematizadas, para não ficar superficial, presa a modas – diz Góes.

Participante de muitas bancas, Diniz não vê um panorama mais pujante em São Paulo, lembrando que os trabalhos acadêmicos de Wisnik e Luiz Tatit não são lidos pelos fãs de suas composições. Para Frederico, no entanto, “São Paulo nunca parou de dialogar com a canção brasileira”, e a cena atual agrada aos que procuram inserir novidades num painel histórico.

Especialmente em função do Los Hermanos, Wisnik e Arthur Nestrovski criaram o conceito “canção expandida”, que serve bem aos artistas que estão se revelando: melodias e letras que digressionam, sem bases fixas.

– Sinto uma trajetória na minha música de desligar ou diminuir o sentido lógico das coisas – diz Marcelo Camelo, que, embora referência para eles junto com o também hermano Rodrigo Amarante, diz conhecer pouco os nomes que despontam em São Paulo.

Wisnik não enxerga “um estilo paulista, mas uma sensibilidade de época”.

– Não acho que estejamos fazendo um acompanhamento crítico da movimentação de São Paulo. Se isso configura uma cena, é porque os músicos dessa geração têm feito eles mesmos que seja assim – acredita ele.

Tatit também não crê na necessidade de um endosso:

– Os trabalhos artísticos em geral são fenômenos que não dependem da crítica ou dos modelos analíticos, assim como as plantas, por exemplo, não dependem dos botânicos para que desenvolvam seu ciclo de vida. Portanto, não cabe ao acadêmico aceitar ou rejeitar uma “cena” ou um “movimento” musical.

A falta de uma reflexão crítica no Rio pode ter um fundamento econômico, pensam músicos como Romulo Fróes e Marcelo Callado. Com o fechamento de casas como o Cinémathèque, faltam lugares para que uma cena se dê fisicamente. A situação vem melhorando com os projetos Rival Mais Tarde e Oi Sonoridades, além da abertura anunciada do Studio RJ, versão carioca do Studio SP, sede dos novos paulistas.

Baterista de Caetano Veloso e da banda Do Amor, Callado diz que tem viajado com seu grupo pelo Brasil, mas só fez quatro shows no Rio.

– Temos artistas tão bons quanto os de São Paulo, mas os de lá se organizam melhor – diz. – O público daqui só se interessa por quem está estourado. E nós, músicos, somos um pouco da turma do chinelinho, não temos um pensador como o Romulo. Mas não me envergonho, é o nosso estilo.

Mariano Marovatto, que acaba de lançar um CD e faz doutorado na PUC, é mais duro:

– Falta de tudo na música do Rio. Talvez falte argumentação crítica por causa do comodismo. Aqui acabou a música em processo. As pessoas só vão aonde todo mundo vai. E o cara faz uma canção, vai à praia e já pensa que é artista.

David Pacheco registrará a nova cena carioca no documentário “A comunidade que vem”, que rodará até outubro priorizando as bandas Do Amor, Letuce e Os Outros.

A coesão entre esses jovens é maior do que entre os da MPC (Música Popular Carioca), turma que a imprensa tentou rotular nos anos 1990: Pedro Luis, Farofa Carioca (com Seu Jorge), Boato e outros.

– Nós, os eleitos, fugimos, acho que muito pelo espírito libertário e múltiplo da reunião espontânea que assim quiseram batizar – lembra Pedro Luis. – A velocidade das comunicações jogou por terra qualquer possibilidade de movimento, no sentido clássico. Mas a crítica e a teoria estão na sua função, pois a História precisa de classificações.

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Eu sou melhor q você – Mulheres q dizem sim

Felicidade – Marcelo Jeneci

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6 comentários em “Nova geração – Quem pensa neles?

  1. raquel disse:

    alguma informação sobre essa tese do +2 citada na reportagem?!

  2. Nos anos 70 belchior já dizia,”é vc que ama o passado e não vê que o novo sempre vem”,e depois retoma a mesma temática em “velha roupa colorida”.

    • Pois é, é Tudo novo de novo, como disse o Paulinho Moska… Na verdade, há mais de uma nova geração, esta retratada na reportagem é uma delas, que vem causando um furor particular. Mais adiante, aqui no blog mesmo, registrei um debate bem intenso sobre isso. Mas convenhamos que esta turma, em que pese ainda falte um amadurecimento, é muito interessante. A comparação com a turma de 1969 que se tornou hegemônica na chamada MPB é que é altamente prejudicial, a meu ver, até porque foi uma geração excepcional, que parecia até ter nascido pronta (mas é uma falta impressão). Mas também é bem difícil escapar da comparação. Enfim, boa sorte para eles e para nós! Abraços.

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