Cartola, Paulinho, samba de raiz e preconceito

Lendo o ótimo post do Fred Coelho sobre ensaio do artista plástico Nuno Ramos sobre Paulinho da Viola num livro da PubliFolha, (post aqui, na verdade anotações sintéticas que instigam a ler o ensaio, informações sobre o livro aqui),  fiquei pensando numa questão que sempre me incomodou quando se fala nos nossos bambas do samba, e que talvez tenha raízes mais profundas do que imaginamos.

A questão é simples, mas com um monte de possibilidades de expansão do assunto. Resume-se a um incômodo toda vez que se fala de Cartola. Principalmente Cartola, representando com seu nome vários dos autores sambistas tidos como clássicos , chamados Velha Guarda e com raízes lá dentro da favela.

E o incômodo é porque quase nunca consigo perceber com clareza, nas louvações e encômios despejados sobre eles, o que é realmente o reconhecimento dos compositores que foram e são, relacionados diretamente ao valor das obras musicais que nos legaram e legam, do simples espanto pelo fato de pessoas sem escolaridade regular, tidas como iletradas, terem a capacidade de realizar estas obras. É como se os sambas de Cartola tivessem um valor agregado pelo fato de o Agenor morar na favela, ser negro ou ter completado apenas o primário. Como se o fato de usar tu e vós, ainda que misturado com você, fosse por si só suficiente para aplausos. Como se ele fosse uma espécie de maravilha amestrada, um milagre brasileiro, e a música então ficasse para segundo plano. Cartola, o prodígio semi-analfabeto compositor, como os índios que foram levados para a Europa no século XVII para encantar as cortes.

Divina Dama- Cartola

Estou cansado de ver Cartola ser apresentado assim, ressaltando-se sua falta de escolaridade, seja abertamente ou nas entrelinhas. O problema é que a música de Cartola é bem maior que esta questão, muito maior. Cartola e Noel foram amigos. Noel era branco, de classe média e com curso universitário. No entanto, as letras de Noel primam pelo coloquial, chegando ao cúmulo de uma Conversa de Botequim, que Cartola nem em sonhos escreveria. E se escrevesse, será que teria o reconhecimento que teve, e que Noel teve? Noel teve autorização para cair no coloquial por ter, ao menos em tese, o domínio da cultura erudita. Se Cartola tivesse em sua época feito samba como Noel, independente de sua qualidade, possivelmente não teria tido a metade do seu reconhecimento.

A poética de Cartola é diametralmente oposta à de Noel (e no entanto foram parceiros). Noel é do cotidiano, da ironia; Cartola é quase metafísico. E Paulinho da Viola foi quem conseguiu a melhor fusão entre os dois.

Coisas do mundo, minha nêga – Paulinho da Viola

Paulinho tem ao mesmo tempo a capacidade de cronista do cotidiano de Noel – mas menos sarcástico, mas crítico mesmo assim – e a profundidade psicológica e filosófica de Cartola. Paulinho consegue conjugar a vivência cotidiana a um olhar distanciado que, nas palavras do Fred Coelho sobre o Nuno,

não permite que a poética de Paulinho seja desviada de sua homenagem permanente ao que mais profundo existe na cultura do samba, sem deixá-lo cair no discurso vitimizador ou ingênuo de outros autores.

Paulinho é de uma família de classe média – como Noel Rosa, e mulato (vai uma interpretação um tanto esquemática para fechar, mas que tem o seu sentido). Se por um lado isto impediu uma simplificação de seu discurso, talvez o tenha feito  também escapar da necessidade de uma legitimização por pretensões eruditas como a que atingiu Cartola. Paulinho teve a chance, e a capacidade, de realizar esta fusão de duas vertentes possíveis do samba, e a faz com precisão, abrindo caminhos para novos compositores retratarem este lirismo por sob a realidade e escapando de preconceitos de ambos os lados, sem a necessidade de a retratarem pitorescamente, nem a de empolarem um palavreado vazio emulando uma profundidade inexistente.

Ou seja, Paulinho se recusa a fazer um arremedo festivo da crônica da favela de que Zeca Pagodinho é mestre (e legitimamente), mas a faz acrescentando a ela uma leitura que pode chegar a ser trágica: pode guardar as panelas que hoje o dinheiro não deu. E também se recusa a um linguajar rebuscado que tentam impingir como característica marcante em Cartola (inutilmente, pois ele é maior que isso), mas a partir daquele cotidiano ele consegue o que o Nuno Ramos chama de fazer samba sobre abstrações – e ele o faz tanto em Dança da Solidão quanto em Comprimido, pois não está falando tanto da história do homem que se mata, mas de sua angústia. Não escolhi à toa o samba de Paulinho que ilustra este post: é exatamente disso que ele trata em sua música: coisas do mundo, minha nêga.

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6 comentários em “Cartola, Paulinho, samba de raiz e preconceito

  1. Marcelo França disse:

    Muitos dizem que o funk não é música de baixa qualidade, que é manifestação do “morro”, de gente simples. Isso é preconceito?

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  2. Dessa Ortiz disse:

    Oi Túlio bacana seus posts, acho que vai gostar do que acabei de ver um toy ou estatueta do mestre Cartola, até que fim alguém ou alguns estão se prontificando a fazer algo diferente para memorizar ainda mais esses nossos eternos mestres, dá uma conferida no blog do estúdio que está fazendo a produção, ahh espero que goste, eu adorei..rs
    http://www.flickr.com/photos/marquesmize/

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  3. dufas disse:

    Outro texto brilhante, Túlio, e desta vez falando desta que é uma das minhas favoritas do Paulinho. Obrigada pelo texto.
    Helê

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  4. edilyra disse:

    Muito bom. Esse texto me faz lembrar do eterno preconceito entre eruditos e populares, que vivencio no meu dia-a-dia de baterista/pandeirista popular.
    Édi Lyra

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    • Oi, Édi, há quanto tempo! Pois é, são aspectos da mesma discussão. A cultura erudita tem muita dificuldade em aceitar que outras culturas sejam capazes de criar formas artísticas complexas como as delas – como se uma bateria de escola de samba não fosse uma orquestra sinfônica por definição. Abração.

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