“Bom dia, comunidade!”

No DVD de Marisa Monte relativo, se não me engano, ao álbum Mais, havia uma cena em que ela, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown estavam sentados de frente uns para os outros compondo. A cena era bem engraçada. Arnaldo com um bloco de anotações, tentando inutilmente colocar ordem na sequência de pensamentos de Carlinhos, que vai fazendo uma livre associação mirabolante, até que começa a batucar com os objetos da mesa e não para mais. Arnaldo cai na risada, tudo sob o olhar atento de Marisa, que quase não chega a se manifestar. Lembro bem que quando assisti esta cena pensei: isto não tem como dar certo.

Ainda bem que não apostei. A química entre os três deu tão certo que acabou originando o álbum Tribalistas, anos depois, um trabalho daqueles em que se tem ao mesmo tempo as características individuais bem claras e um somatório que parece ser, se não superior, ao menos diferente. Estão lá a lógica delirante de Brown que baseia o sentido na rima e inclui palavras em inglês e neologismos; a poética econômica de Arnaldo que privilegia o olhar infantil, e o carinho de Marisa por uma certa produção romântica pós-jovem guarda que chega à beira do brega.

Todas estas características estão presentes do álbum, mas de maneira absolutamente sintética, o que me levou a cometer outro engano, agora quando o ouvi pela primeira vez, em baixo volume numa casa cheia de gente: achei tudo de uma pobreza só. Isto porque as canções são estruturalmente e harmonicamente espartanas, porém cheias de detalhes que incluem citações díspares nas letras e um tremendo detalhamento instrumental – de resto, algo que Arnaldo já exercitara à exaustão nos Titãs.

Mas tudo isto ficou meio de lado graças a toda a badalação que houve no lançamento do álbum. A celebração do encontro dos três músicos festejados foi tão grande que acabou deixando de lado o entendimento de que o álbum… é exatamente isto, apenas e tão somente o festejo de um encontro. A expectativa de uma profundidade do trabalho gerou decepções – como este hilariante criador automático de letra tribalista. As canções simples produzem uma impressão de profundidade pelas associações inesperadas que trazem; num segundo momento (ou terceiro), parecem novamente superficiais pelo fato de estas associações não se revelarem logicamente – e assim sucessivamente; e em muitos casos ficou faltando mais uma escuta que revelasse um outro nível de profundidade, não uma revolução na MPB, uma mudança de paradigma ou a criação de um movimento.

E o mais engraçado é que os próprios integrantes do trio parecem ter previsto esta expectativa irreal, como também, de certa forma, as críticas afirmando  que posariam de mudernos com uma música que na verdade seria tatibitate. Tanto que o fecho do álbum é a canção que ao mesmo tempo as  rebate antecipadamente e resume e explica o próprio álbum.

Tribalismo, a última canção, é uma tiração de sarro já de saída, em que Arnaldo faz uma lista de palavras que evoquem a quantidade de três – o que a própria palavra Tribalistas não faz, com seu falso prefixo. Depois, vem uma série de declarações de princípios ao contrário:

Os tribalistas já não querem ter razão
Não querem ter certeza
Não querem ter juízo nem religião
Os tribalistas já não entram em questão
Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão

(Aliás, a afirmação também vale para a abertura do álbum, a saudação que intitula este post, fake de saudação funkeira – mas por outro lado, suscitando a pergunta: de que comunidade ele está falando?) Estas definições negativas desmontam a expectativa de quem espere discussões filosóficas como as que permeiam o trabalho de Arnaldo, culturas tradicionais como as que geraram Brown (OK, nem tão tradicionais) ou ecletismos, modernosos ou não, como o que caracterizou Marisa Monte e fez surgir o epíteto cantora eclética como uma nova categoria da MPB. Os três se recusam a tomar uma posição. Acontece que esta atitude também é uma tomada de posição, e eles sabem disso…

E fechando a letra:

O tribalismo é um anti-movimento
Que vai se desintegrar no próximo momento
O tribalismo pode ser e deve ser o que você quiser
Não tem que fazer nada basta ser o que se é

onde a contradição chega a seu ponto máximo: o Tribalismo é feito para durar apenas um momento, mas em compensação, se só é preciso ser o que se é para fazer parte dele, automaticamente todos estão incluídos, mesmo à revelia – e assim eles brincam com quem achou que eles tinham que revolucionariar a MPB, fazendo um movimento total – e instantâneo. Toda a canção, assim como todo o álbum, é uma coleção de jogos de palavras/conceitos transitando entre a simplicidade escancarada e outras possibilidades de significação escondidas. As melodias são propositalmente grudentas no ouvido como chiclete, as letras são crivadas de trocadilhos e absurdos (Bim, bom, naylon, ou Dois homens e uma mulher / Arnaldo, Carlinhos e Zé), em que o som pode ser mais importante que o sentido da palavra, e se prestar a interpretações múltiplas – e mesmo, por que não, viajandonas. Isto faz o álbum ao mesmo tempo pop e descartável, e um clássico – depende da leitura, variando o tempo todo entre o simples e o aprofundado, num vai e vem em que ambos os extremos são fundamentais, um não funciona sem o outro. Posso estar viajando? Mas acho que era exatamente o que eles queriam.

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